Crítica

Ele e ela

Huppert e Depardieu são o motivo único para ver Vale de Amor. Mas isso não chega.

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É irresistível olhar para Vale de Amor e ver nele uma coda ou um film à clef que transporta consigo a memória de toda uma herança do cinema de autor do último meio século: Huppert e Depardieu, duas das maiores revelações dos anos 1970, reencontrando-se numa história de fantasmas e arrependimentos à volta dos caminhos que não se seguiram durante a vida.

Lembrámo-nos, durante a projecção, do que Oliveira fez com Belle toujours ao retomar a Belle de jour de Buñuel, mas também da desolação do Zabriskie Point de Antonioni ou das viagens espirituais de Bruno Dumont em filmes como Twentynine Palms ou Fora Satanás. Mas, uma vez Huppert e Depardieu reunidos no Vale da Morte americano, navegando entre o consumismo turístico do hotel onde estão instalados e a rugosidade solitária da paisagem que visitam diariamente para ver uma aparição que talvez não exista, Guillaume Nicloux não sabe bem o que fazer com eles.

É como apenas tivesse querido ter a presença destes corpos, a entrega destes actores a estes alter egos que se perderam e se redescobrem e duvidam, e como se lhe bastasse filmá-los a redescobrirem-se. Mas não basta: sai-se de Vale de Amor abençoado por ter passado 90 minutos na companhia de dois actores que se deram a um desafio, mas com a sensação de que o que eles foram lá fazer não era para os nossos olhos.<_o3a_p>