Prémio europeu para obras nos Clérigos e mestrado sobre monumentos do Minho

Os dois projectos portugueses estão entre os 29 vencedores da edição deste ano dos Prémios Europa Nostra, da Comissão Europeia.

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A Igreja dos Clérigos já na fase final das obras de restauro Regina Coelho

As obras de reabilitação da Igreja e da Torre dos Clérigos, no Porto, e o Mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, programa Europeu coordenado pela Universidade do Minho, em Guimarães, estão entre os 29 vencedores da edição de 2017 dos Prémios Europa Nostra, uma iniciativa da União Europeia para estimular a conservação e divulgação do património cultural.  

Mais do que os dez mil euros destinados a cada vencedor, os prémios Europa Nostra, que ao longo de 15 edições já seleccionaram cerca de 450 projectos “notáveis” na área da reabilitação de património construído, valem pela visibilidade que dão a estas iniciativas. Por isso, não espanta que, tal como em anos anteriores, a Comissão Europeia tenha recebido para a edição deste ano um total de 202 candidaturas, apresentadas por organizações e indivíduos de 39 países de toda a Europa. E ficar entre os 29 escolhidos, de 18 países, encheu de orgulho os responsáveis pelas obras nos Clérigos e pelo mestrado internacional que, desde 2007, formou 350 alunos de 70 países.

O Ministro da Cultura congratulou-se com a atribuição deste prémio às duas iniciativas nacionais, lembrando que a distinção não é um caso isolado. “Os projectos portugueses na área do património têm sido sistematicamente distinguidos pelos fóruns especializados internacionais, num reconhecimento da qualidade do trabalho realizado, dos técnicos envolvidos e, muito importante, do seu contributo para a qualificação das comunidades”, assinala Luís Filipe Castro Mendes.

O arquitecto João Carlos Santos, actual subdirector-geral do Património Cultural e coordenador do projecto de reabilitação dos Clérigos recebeu com grande satisfação a notícia do prémio, fruto de um trabalho de dois anos com uma “grande equipa” que transformou a face daquele conhecido monumento. Depois desta intervenção, que incidiu sobre a igreja voltada para a rua dos Clérigos, e sobre a torre, o edifício ficou praticamente todo visitável e, acima de tudo, acessível a pessoas com mobilidade reduzida, graças a um esforço de integração de meios mecânicos numa estrutura barroca, que tem a assinatura do italiano Nicolau Nasoni, projectista cuja sepultura foi encontrada, no interior do templo, durante as obras.

E a verdade é que, na torre mais famosa do Porto, há um antes e depois desta obra. Antes, em 2011, eram pouco mais de cem mil os visitantes anuais. Em 2016,e à boleia do boom do turismo na cidade, foram 600 mil, assinala o responsável pela Irmandade dos Clérigos, Américo Aguiar, satisfeito por acrescentar à maior distinção nacional - o prémio Vilalva, da Gulbenkian, em 2016 - o mais importante prémio Europeu. A irmandade já destina toda a receita de um fim-de-semana prolongado em cada mês a uma instituição de saúde e, por isso, mais do que os dez mil euros do Europa Nostra, que terão um destino semelhante, Américo Aguiar destaca a valorização do trabalho dos que, durante dois anos, ajudaram a devolver este momunento ao país e ao esto do mundo, de onde vêm 85% dos visitantes.

Para além de cimentar os Clérigos como um dos monumentos mais visitado do Porto, a intervenção acrescentou-lhe outros pontos de interesse, através da musealização de salas que, até às obras, eram inacessíveis ao público. E tudo isto, nota João Carlos Santos, foi feito com um total respeito pelos materiais existentes. A capela, que ganhou nova vida com o trabalho de restauro, reabriu ao culto regular e tem até sido palco de iniciativas culturais, como desejava o Cónego Américo Aguiar.

Os dois prémios portugueses desta edição do Europa Nostra encontram-se. Durante as obras nos Clérigos, um grupo de estudantes de vários países acompanhou os trabalhos para um projecto de curso, precisamente no âmbito do Mestrado em Análise Estrutural de Monumentos e Construções Históricas, coordenado pela Escola de Engenharia da Universidade do Minho, em Guimarães, com o qual João Carlos Santos colabora. Este mestrado europeu, que envolve ainda a Universidade Técnica Checa (Praga), a Universidade Politécnica da Catalunha/Barcelona Tech (Espanha), a Universidade de Pádua (Itália) e tem também o Instituto de Mecânica Teórica e Aplicada da Academia Checa de Ciências como parceiro associado, formou em dez anos cerca de 350 estudantes na conservação das estruturas do património cultural, centrado na aplicação de metodologias e princípios científicos na análise, inovação e prática profissional.

O coordenador do curso, Paulo Lourenço, considera que o prémio, pela visibilidade internacional que implica, vai ser muito importante para a sustentabilidade deste mestrado que, nesta primeira década, contou com quatro milhões de euros de apoios da Comissão Europeia. Neste momento, nota, apenas dez dos 35 alunos que o frequentam são financiados por esta via, mas, para uma formação avançada frequentada até hoje por pessoas de 70 países, ter na lapela este símbolo acaba por abrir portas.

Este é um mestrado de “ nicho”, que não tem paralelo noutras universidades. O que ajuda a explicar que, segundo Paulo Lourenço, 95% dos estudantes sejam de fora de portugal, e metade destes europeus de países como Espanha, Itália e Grécia, maioritariamente. De fora da Europa chegam estudantes dos Estados Unidos, China, Índia, Canadá ou Irão, entre outros, procurando, entre engenheiros e arquitectos das universidades parceiras, as melhoras práticas para salvaguardar o respectivo património.

O docente lembra ainda que a Escola de Engenharia da Universidade do Minho tem já um nome a defender nesta área, estando neste momento a fazer consultoria em monumentos como a Sé do Porto, o Castelo de Guimarães, os Jerónimos ou o Palácio de Belém, sede da presidência da República.

Notícia actualizada às 17h com as reacções do ministro da Cultura e do responsável pela Irmandade dos Clérigos. 
 

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