Os heróis da Marvel tornaram-se vilões. O crime foi a queda nas vendas

A culpa é da aposta na diversidade? Um executivo da Marvel sugeriu-o, mas corrigiu o tiro após a condenação de leitores e autores.

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Miles Morales identifica-se como sendo o Homem-Aranha. A personagem foi criada por Brian Michael Bendis e apareceu pela primeira vez numa publicação em 2011 Reuters/HO

A variedade étnica, de género, religião e orientação sexual das personagens da Marvel tem crescido a olhos vistos. Desde novas personagens principais femininas como Riri Williams, também conhecida como Ironheart, a reinvenção da clássica personagem Thor, agora The Mighty Thor, ou a criação de um Homem-Aranha negro de descendência hispânica, Miles Morales, o universo de banda desenhada da Marvel tem-se expandido e diversificado. Mas o que até agora era visto como algo positivo, tornou-se foco de polémica.

Em entrevista ao site ICv2, o vice-presidente da Marvel para as vendas, David Gabriel, sugeriu que a diversidade das personagens e a inclusão de personagens femininas podem ser a causa da diminuição no número de vendas dos livros da marca. Gabriel afirma que o feedback do público relativamente às personagens que apresentam características mais diversificadas é essencialmente negativo. “O que nós ouvimos foi que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não querem mais personagens femininas. Isso foi o que ouvimos, quer acreditemos nisso ou não. Eu não sei se isso é realmente verdade, mas foi o que vimos nas vendas”, disse David Gabriel.

“A partir das vendas observamos que a qualquer personagem que seja diferente, qualquer nova personagem, as nossas personagens femininas, qualquer coisa que não seja uma personagem tradicional da Marvel, as pessoas torceram o nariz. Isso foi difícil para nós porque tivemos muitas ideias originais, novas e empolgantes que tentamos difundir, mas nada funcionou", disse.

Nas redes sociais, as críticas rapidamente começaram a voar em direcção ao executivo da empresa. Há quem diga que culpar a diversidade é “estúpido” e “ofensivo” e que a verdadeira razão da queda nas vendas são os “preços altos”; outros apontam a causa da diminuição das vendas ao constante recontar das mesmas velhas histórias. Ou seja, que existe inovação nas personagens, mas não nas narrativas.

Mais tarde, Gabriel emitiu uma declaração para tentar clarificar os seus comentários, que acabou por ser adicionada à própria entrevista. Na missiva, o executivo explicou que os seus comentários iniciais referiam-se à opinião de distribuidores, insatisfeitos com o "abandono dos heróis da Marvel mais tradicionais". Para David, “ao contrário do que alguns disseram sobre as personagens ‘não funcionarem’, o factor de adesão e popularidade para títulos e personagens como Squirrel Girl (Rapariga Esquilo), Miss Marvel, The Mighty Thor, Spider-Gwen (Mulher-Aranha), Miles Morales, e Moon Girl continuam a provar que os nossos fãs e distribuidores estão entusiasmados com estes heróis”. Era um aparente desmentido das próprias palavras.

O vice-presidente da Marvel acrescentou ainda que a empresa não tem qualquer intenção de abandonar nenhum dos novos heróis. “Para que fique claro, os nossos novos heróis não vão a lado nenhum”, concluiu.

G. Willow Wilson, a autora da heroína mais recente a ganhar o título de Ms. Marvel, uma rapariga paquistanesa-americana chamada Kamala Khan, escreveu sobre as afirmações de David Gabriel na sua conta do Tumblr. Wilson argumenta que “usar a diversidade como desculpa não funciona” e que é preciso “apagar a palavra diversidade e substitui-la por autenticidade e realismo” - "isto não é um mundo novo, isto é o mundo".

A criadora de Kamala Khan escrevou ainda que o êxito das histórias não tem a ver com a diversidade, mas sim com outras variáveis que não podem ser planeadas. “Uma das principais razões pela qual Miss Marvel fez sucesso é porque [a história] aborda o papel da fé tradicionalista no contexto da justiça social, e aparentemente havia por explorar um público com uma grande variedade de origens religiosas que estava ansioso por uma história como esta”, lê-se na publicação do Tumblr. “Ninguém podia ter previsto ou planeado isso. A isso chama-se estar no local certo à hora certa, com a história certa a queimar um buraco no teu bolso. Muitas das outras coisas que já escrevi e gostava caíram com grande estrondo. Essa é a norma. As excepções são óptimas quando acontecem, mas são difíceis de planear.”