Diogo Baptista/Arquivo PÚBLICO
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A praxe enquanto servidão voluntária

O que leva as pessoas a obedecerem a ordens ou práticas com as quais não estão de acordo?

Comecemos por opor um contador de anedotas sexistas ou racistas ao politicamente correcto. Criada a atmosfera para que seja contada uma piada racista/sexista, o contacto obsceno entre contador e ouvinte permite uma primeira aproximação, que num estádio seguinte evoluirá para a aproximação dita verdadeira, onde será possível um diálogo, uma vez que os constrangimentos de ambas as pessoas foram explicitamente ultrapassados através da piada obscena.

O politicamente correcto, por seu turno, estabelece uma barreira de proximidade no trato, serve-se de comportamentos diplomáticos que no caso afastam quem se tenta aproximar, desenhando uma barreira gélida que repele a outra entidade. Contudo, a linha que contempla as trocas obscenas é ténue, no que toca às anedotas, por exemplo, podemos cair rapidamente no domínio da humilhação e andarmos para aí feitos tolos a partilhar graçolas lascivas. É na transposição desta linha que encontro a praxe, a obscenidade sem humor — a imposição de ideais baseados em tradições inventadas, metamorfoseadas de ano para ano e readaptadas aos diversos contextos académicos de Norte a Sul do país.

O que leva as pessoas a obedecerem a ordens ou práticas com as quais não estão de acordo?

Aos olhos de um espectador externo, o estudante caloiro tem duas opções: a primeira, submeter- se à praxe mascarada de metodologia de sociabilização sem a qual será impossível converter-se por inteiro à sociedade académica. A segunda, declarar-se anti-praxe, abdicando de alimentar tiranos que se auto-intitulam de “doutores” (sem curso terminado ainda) antecipando a sua futura alienação de programas académicos.

O longo estudo A Praxe como Fenómeno Social, elaborado por uma equipa de investigadores da Faculdade de Letras da UP, do Centro de Estudos Sociais da UC e do CIES/ ISCTE-IUL a 31 de Janeiro de 2017, apresenta-nos uma definição de praxe que me parece mais justa e sensata do que a prática em si: A praxe é definida como um ritual de passagem que celebra a entrada no ensino superior, momento muito valorizado na sociedade portuguesa. Ela apresenta semelhanças com outros rituais do mesmo tipo, obedecendo a uma estrutura trifásica e consistindo no preço que os novos elementos de um grupo têm de pagar para serem considerados seus membros de pleno direito. Para além disso, é também um ritual de elevação de status, na medida em que permite a diferenciação dos estudantes que chegam ao topo do sistema de ensino. (p.22)

Curiosamente, mais de metade dos estudantes sentem-se aliciados a abdicarem da sua liberdade e de valores nobres por vários meses a troco de meia dúzia de amizades ilusórias que entre elas partilham (in)voluntariamente apenas duas coisas: submissão e humilhação. Estabelece-se a hierarquia, os doutores são os carrascos e os caloiros as vítimas onde os termos em que se constrói a estrutura social que estabelecerá a ligação entre os estudantes ao longo de pelo menos três anos tem uma origem perversa.

A distorção dos valores é permitida tal como as definição de conceitos se molda ao contexto académico. A sociedade adquire os termos de um “jogo de soma zero”, onde a vitória e imposição de uns significa a derrota e anulação de outros; não é possível coexistirem harmoniosamente. Desse modo, torna-se difícil aceder e avaliar os limites da definição da própria palavra violência por exemplo e perceber o que se considera como humilhante e brutal, tanto a nível verbal quanto físico.

Parafraseando o final de Discurso da Servidão Voluntária de Étienne de La Boétie, se nos propusermos alterar o estado das coisas, devemos entender em que medida a base da tirania assenta na vasta rede de pessoas corruptas interessadas em manter as práticas da tirania. E, observando pela amostra do estudo, cerca de 80% dos estudantes não concordam com a proibição da praxe.

É questionável a mudança de paradigma que aconteceu algures na história da vida académica onde sermos governados pela razão foi substituído por um “doutor” a terminar um curso entre beberetes e práticas opressivas.

As motivações da adesão por parte dos caloiros adivinham-se diversificadas mas finitas: alguns por medo da rejeição que a a declaração anti-praxe acarreta, outros por puro tédio, outros por ser tradição. A última categoria assusta-me e identifico-os como profundamente conformistas no sentido em que decifram a premissa secreta da ideologia dominante de uma forma clara e radical que é inaceitável e acaba por ser embaraçosa para a própria ideologia... Esse tipo de caloiro estudante não tenta subverter a ideologia oficial, nem consegue evadir-se dela, opta antes por deixar-se obrigar a fazer parte dela.

Este tipo de manifestação que promove a uniformização do pensamento tornando-o ainda mais obtuso, não se conjuga com o mundo actual desmistificado pela Wikipedia e por todas as outras plataformas que cuidam do nosso FOMO (fear of missing out). La Boétie propõe que o tirano não tem de ser confrontado, não há necessidade de derrotá-lo: “o tirano será destituído por si próprio se o povo deixar de aceitar a sua servidão.”

O praxista defende ainda a hierarquia alegando que nos prepara para o mundo orientado naturalmente de forma hierárquica e portanto, será injuntivo começar a perceber este tipo de imposição. Curioso como também esta imposição é feita por estudantes que, tal como eu, por se encontrarem ainda a estudar, obtêm a experiência da minimização das classes inferiores resultante da pressão hierárquica, apenas a partir de leituras da realidade feitas em segunda mão; leituras essas reduzidas posteriormente a imperativos sexistas, jogos de força e humilhação pública que resumem a hierarquia a uma classificação redundante e ridícula.

A submissão e a ausência de liberdade para reflectir levam-me a recordar a intervenção encapsulada de Oliveira Salazar, algures no ano de 1936 em Braga: “Não discutimos Deus e a virtude, não discutimos a Pátria e sua história, não discutimos autoridade e o seu prestígio” Parece-me uma aproximação a um Portugal pré-histórico que se confunde com tradição. Ou será?