Entrevista

"Portugal foi o destino de valiosas operações de investimento chinês"

Investigadora destaca que a China quer "liderar um grande número de sectores económicos".

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Ivana Casaburi, investigadora da ESADE DR

Para Ivana Casaburi, autora de um estudo sobre os investimentos chineses na Europa (Chinese investment trends in Europe), a intensidade e dimensão dos investimentos chineses desde 2011 explica o facto de Portugal ser o país europeu onde o capital deste país asiático tem mais peso, em termos da dimensão da economia. Em respostas por escrito, esta investigadora da ESADE, escola de negócios onde é directora do departamento Europa-China, realça que o novo modelo económico da China está a empurrar mais as empresas chinesas para o estrangeiro.

Ficou espantada com o facto de Portugal ser o país europeu com maior investimento chinês, em termos da dimensão económica?
Não me surpreende. Portugal foi o destino de valiosas operações de investimento a partir de 2011 e isso, comparado com o seu tamanho económico, permitiu-lhe ocupar a primeira posição do ranking. A Irlanda, com apenas uma operação de 2300 milhões de dólares em 2015, situou-se na segunda posição desse ranking.

Nos EUA, mas também na Alemanha e na Austrália, começam a surgir resistências a investimento chinês em algumas áreas e empresas, como foi o caso da Aixtron (Alemanha), Ausgrid (Austrália), e da Syngenta (Suíça).  Este fenómeno tenderá a acentuar-se, ou não?
A China continua a implementar uma estratégia ambiciosa e decidida de expansão, com o objectivo de liderar um grande número de sectores económicos. E está focada em adquirir tecnologia, conhecimento e especialização no estrangeiro para acelerar o seu processo de transformação económica e objectivo de liderança. Existe uma certa preocupação, por parte dos países mais avançados, em partilhar conhecimentos que reduzam as suas vantagens competitivas nas áreas onde se mais se destacam. Por outro lado, sabe-se que estas operações, com implicações estratégicas para a economia de uma região ou para a economia mundial, têm de ser autorizadas por reguladores nacionais e supranacionais. São processos demorados e meticulosos, como o que se tem vindo a assistir no caso da ChemChina/Syngenta, mas que garantem, ao mesmo tempo, a salvaguarda dos interesses colectivos.

Nota-se que há cada vez mais investidores privados chineses a comprar empresas nos mercados internacionais. O abrandamento da economia chinesa pode afectar essa tendência, ou, pelo contrário, fazer com que os empresários chineses apostem ainda mais no estrangeiro?
Mesmo com o país a crescer menos do que no passado – 6,7% em 2016 – as empresas chinesas continuam a investir nos mercados internacionais, e a bater recordes anuais desde 2011. Continua a ser um líder global de termos de investimento estrangeiro, e, no passado, embora não haja ainda dados oficiais, poderá ter chegado aos 200 mil milhões de dólares a nível mundial, dos quais cerca de 35 mil milhões terão sido canalizados para a União Europeia. O novo modelo económico da China, que privilegia um crescimento mais qualitativo do que quantitativo, está a empurrar as empresas chinesas para o estrangeiro, em busca de uma via mais rápida para o desenvolvimento das vantagens competitivas que o país precisa para o seu plano de liderança global. Os sectores mais privilegiados são, principalmente, aqueles que têm uma componente tecnológica, a começar pela manufactura mais avançada, passando pela telecomunicações, até chegar a sectores mais tradicionais como a energia (com destaque para as energias alternativas) e o transporte e logística, com especial interesse nos portos. Depois, há outras áreas, como o agro-alimentar, desporto (com especial ênfase nos clubes de futebol) e, finalmente, o imobiliário, embora neste caso se tenha assistido a uma descida dos investimentos no ano passado.