O Botânico de Coimbra está a reconstruir a sua história com as fotos de todos

Não precisam de ser especialmente artísticas nem de retratar um momento particularmente relevante. O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra está a pedir aos seus visitantes para enviarem fotos antigas para ajudar a preencher o que falta na sua história.

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Maria Helena Silva, nos finais dos anos 50, numa visita da escola ao jardim
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Maria Helena volta ao Botânico grávida de Ana Margarida, que viria a trabalhar no jardim
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Com o marido e os filhos
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Maria Vieira Falcão com algumas colegas do curso de enfermagem na década de 1950
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A enfermeira fez questão de entregar as suas fotos

Enquanto estudante em Coimbra, Maria Vieira Falcão vivia ao fundo das Escadas Monumentais. Mais rigorosamente, ao fundo das Escadas do Liceu, pois só passaram a carregar a palavra “monumentais” na década de 50, na sequência das demolições e intervenções na Alta Universitária durante o Estado Novo. O antigo acesso tinha outra beleza, diz.

A enfermeira, hoje aposentada e com 89 anos, fala de um tempo que já passou e de sítios que desapareceram. Na secundária andou no liceu Infanta Dona Maria, que entre outras localizações, já esteve instalado no Colégio de São Bento, edifício hoje ocupado em parte pelo Jardim Botânico.

Depois entrou no curso de enfermagem, em 1950. “A Alta era antiga, mas já não havia muita coisa”. No curso da Escola de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca, onde foi aluna de Bissaya Barreto, havia 13 raparigas, mas também alguns rapazes.

Numa fotografia em frente ao chafariz do quadrado central do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (JBUC), aparece com três colegas do curso, todas sentadas com o seu uniforme. “Tem 1951 escrito no verso”. Memórias desse dia? Iam estudar, algo que faziam amiúde na Avenida da Tílias do jardim, conta em tom jovial. “Quer dizer, os livros eu levava…” E sorri. O lar onde vivia era exclusivamente feminino e, nas aulas do curso, apesar de as turmas serem mistas, urologia e ginecologia eram leccionadas em separado. “Eram outros tempos”. No jardim praticavam “um estudar mais distraído”. Não é preciso detalhar muito mais.

Maria Vieira Falcão fez questão de ir ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra entregar as fotografias. A instituição visitada por cerca de 150 mil pessoas por ano iniciou uma campanha de recolha de imagens tiradas no espaço até final dos anos 1980, antes do advento da fotografia digital. O espólio, depois de feita a selecção, vai dar origem à exposição Fotossíntese, no final de Abril.

A recolha teria terminado no dia 31 de Março, mas o director do JBUC, António Gouveia explica ao PÚBLICO que “as pessoas podem sempre enviar ou aparecer no jardim, para que as imagens sejam digitalizadas, e as fotos vão sendo acrescentadas a uma galeria online”.

O objectivo é “perceber o jardim visto de fora. Como é que as pessoas vêem e utilizam o jardim” fundado em 1772. Perceber a história não oficial e que não fica registada nos livros. “Os visitantes não veem, o que nós vemos. Este olhar de fora também é importante”, acrescenta. O responsável adverte que as imagens não precisam de ter especial qualidade ou de ser muito artísticas.

O projecto vai além do envolvimento com a comunidade. “Há muitos dados que se pode retirar de ver uma paisagem, uma planta ou uma pessoa”, refere António Gouveia. As alterações espaciais, da colecção vegetal, da história de algumas das plantas que aparecem como pano de fundo das fotos de família ao longo dos anos são matérias que irão ser alvo de estudo.

“Se tivermos um registo bastante completo, como a data exacta da fotografia, podemos ver questões relaccionadas com biologia, se aquela árvore estava em floração e se é mais cedo ou mais tarde do que é agora”. Mas estes autênticos documentos históricos e pessoais, recolhidos tanto em momentos especiais como em apenas em visitas casuais, podem ser interpretados de vários ângulos, “desde a biologia, arquitectura paisagística, património ou vestuário”.

A recolha de imagens já trouxe vários exemplos. Uma fotografia tirada nos anos 1930 ou final dos anos 1920 em frente ao portão principal permite datar as ginkgo bilobas que ladeiam a estátua de Avelar Brotero. Hoje de grande porte, as árvores na imagem aparentam ter sido plantadas recentemente.

Adolpho Möller foi um jardineiro chefe “muito importante” e só havia uma fotografia dele, recorda António Gouveia. No final da década de 1910, ao canto de uma fotografia de um curso de magistério primário, exclusivamente feminino, aparece o naturalista que começou a trabalhar no Botânico em 1873. Há agora mais um registo.

Mas a memória e anotações das pessoas não são infalíveis. Uma imagem está datada como sendo de 1948, mas a presença do chafariz, que apenas foi erigido na década de 1950, mostra que a fotografia terá sido captada depois.

Memórias de família

Um grupo de crianças rodeado por alguns adultos posa para a fotografia numa escadaria. A imagem a preto e branco é captada por ocasião da visita dos alunos da escola primária de Alcobaça ao Botânico de Coimbra, algures entre 1958 e 1959. São na maioria raparigas, então com idades perto dos 9 anos, e estão devidamente aprumadas, com laçarote ao pescoço e boina a condizer. Maria Helena Silva está ali no meio, na segunda fila de cabeças, mas as memórias desse dia já estão um pouco difusas. Lembra-se que dormiu pouco na noite anterior, que viria a estrear umas sandálias novas e ri-se quando conta que perdeu um chapéu de palha que a mãe lhe tinha comprado. “Cada vez que fazia uma excursão, perdia um chapéu”.

Correria uma década até que Maria Helena voltasse à cidade para estudar filologia românica na Faculdade de Letras, em 1968. Vivia na Venâncio Rodrigues, também ao fundo das monumentais, numa casa hoje ocupada pela Polícia Judiciária e estreou a capa e batina no 17 de Abril de 1969, o histórico dia da inauguração do edifício das Matemáticas, que deu origem à crise académica que abalou o regime marcelista. Acabou por ficar em Coimbra até hoje.

Anos mais tarde, em 1981, João Pedro posa para a câmara com o seu boné vermelho e agarrado à bola de futebol. Estamos de novo no Botânico. Maria Helena Silva, a mãe, observa-o de pé, com um vestido castanho e Ana Margarida na barriga. Foram várias as fotos de família que Maria Helena entregou ao jardim e mostram as várias passagens ao longo da vida. Já em 1985, o marido e os três filhos do casal estão junto ao largo tronco de uma centenária Figueira-da-Baía-de-Moreton, uma das árvores mais icónicas do Botânico. Uma última coincidência familiar: Ana Margarida viria a trabalhar no JBUC.  

Em paralelo à exposição que poderá ser vista até Setembro, há também uma tentativa de não perder a memória interna. Estão a ser entrevistados antigos jardineiros, investigadores, directores e pessoas que por ali passaram. O director mais antigo é o professor Montezuma de Carvalho, actualmente com 93 anos e que dirigiu a instituição entre 1982 e 1993, refere António Gouveia.  

A recolha das imagens vai além dos cidadãos anónimos que por ali passaram. Para além de fotos de arquivo próprias do jardim, onde está registado, por exemplo, o nevão de 1983 que atingiu várias zonas do país, o acervo inclui personalidades de renome, tanto da botânica como naturalistas. Entre os que visitaram o espaço ao longo dos anos estão nomes como Francisco Afonso Chaves, Carlos Relvas e Aurélio da Paz dos Reis, o pioneiro autor da película Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, também conhecido como o primeiro filme português. 

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