Portugal sobe para 11.º lugar entre 27 países europeus na produção de ciência

O número de publicações triplicou na última década, colocando Portugal entre o Reino Unido e a Alemanha na tabela das publicações por milhão de habitantes, segundo estatísticas agora divulgadas. Confrontando os dados com outros indicadores, conclui-se ainda que o país produz muita ciência e barata

Sandra Ribeiro
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Sandra Ribeiro

A produção científica portuguesa continua a crescer e é assim há mais de 20 anos. As estatísticas divulgadas em Março pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) mostram que a produção de ciência cresceu entre 2005 e 2015 a uma taxa média anual de 10%, o que coloca Portugal entre os quatro países que mais progrediram neste indicador. Na “tabela geral” com 27 países europeus que avalia o número de artigos publicados por milhão de habitantes, a produção científica portuguesa passou do 16.º lugar em 2005 para o 11.º em 2015.

Se todos os gráficos de indicadores (positivos) fossem semelhantes aos da produção científica portuguesa, o país não estava nada mal. As curvas, barras e números no relatório da DGEEC não deixam qualquer dúvida: sempre a subir. Em 1995 registavam-se 2404 publicações científicas, em 2005 já eram mais de 7400 e, segundo os dados divulgados agora, em 2015 ultrapassámos as 21 mil. E se dividirmos as 21.130 publicações portuguesas em 2015 por 365 dias (incluindo, portanto, fins-de-semana e feriados) temos precisamente 57,8 artigos por dia em que pelo menos um dos seus autores tem afiliação a uma instituição nacional.

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Mas será tão simples assim? Quando comprado com outros países, Portugal fica bem na fotografia? O que explica este crescimento? E, por outro lado, estarmos a produzir mais quer dizer que estamos a fazer melhor? “Só conhecemos bem a ciência portuguesa se a medirmos”, refere ao PÚBLICO Carlos Fiolhais, professor na Universidade de Coimbra, quando lhe pedimos para interpretar as estatísticas do número de publicações indexadas na Web of Science, uma base de dados de revistas científicas, que considera como um “bom indicador”.

Para melhor percebermos a evolução do país, temos de o comparar. E isso só é possível quando olhamos para o gráfico da DGEEC sobre o número de publicações científicas por milhão de habitantes nos vários países da União Europeia (UE), entre 2005 e 2015. Portugal produziu 1298 artigos por milhão de habitantes em 2015 (em 2005 eram apenas 510). Neste indicador estão contabilizadas apenas um total 13.464 publicações porque apenas são tidas em conta as chamadas “ciências duras” (excluindo-se as ciências sociais e humanidades) e apenas os artigos, revisões ou artigos curtos (deixando de fora publicações como opiniões, resumos e actas). “O número de publicações em dez anos quase triplicou, passando de 510 para 1298, calando aqueles que dizem que a ciência em Portugal é improdutiva”, assinala Carlos Fiolhais.

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No topo da tabela, estão os países nórdicos, a Dinamarca (com 3050 publicações por milhão de habitantes) ou a Suécia (2563) e a Finlândia (2195). Portugal está entre o Reino Unido (com 1603) e a Alemanha (1248), representando o país de Sul da Europa que mais publicou nesta década. Nos últimos lugares da lista dos 27 países da UE estão a Letónia (357), a Roménia (616) e a Eslováquia (616).

E se, em vez de fazer as contas aos artigos publicados por milhão de habitantes, tentássemos perceber “quantas publicações produzimos por euro gasto em ciência e tecnologia”?, sugere o professor da Universidade de Coimbra, arriscando responder que “devemos fazer dos papers [publicações científicas] mais baratos da Europa!” E a resposta está correcta. Segundo dados da OCDE de Fevereiro de 2017, Portugal investiu, em 2015, 1,28% do PIB em investigação e desenvolvimento, enquanto a média da EU a 28 países era de 1,9%.

Mas, melhor do que o 11.º lugar alcançado no número de publicações por milhão de habitantes, é o 4.º lugar no gráfico que mostra a taxa de crescimento anual em 24 países. Aqui, Portugal só está atrás do Luxemburgo (16%), Malta (16%) e Chipre (13%) e com os mesmos 10% da Lituânia e da Letónia.

Falta o peso de Mariano Gago

“A nossa mudança é espectacular mesmo se olharmos só para a última década”, assinala Carlos Fiolhais, que faz questão de sublinhar que o “salto já vinha de trás e que é essencialmente resultado da política de ciência e tecnologia do ministro José Mariano Gago”. O salto, ou saltos se analisarmos as duas últimas décadas, foi grande também porque o ponto de partida era muito baixo, já se sabe.

Numa análise mais atenta, nota-se, no entanto, uma desaceleração no crescimento nos últimos anos da década. Logo à partida, se olharmos para taxa média de crescimento anual entre 2010 e 2015, ela já “só” foi de 9%, baixando para um (ainda) honroso 5.º lugar na tabela. Carlos Fiolhais também reparou neste travão e concluiu que “disciplina a disciplina estão à vista os efeitos do governo de Passos Coelho e da política de contenção de Nuno Crato”. “Crescemos muito em dez anos, mas muito mais na primeira metade dessa década. De 2013 para 2015, o crescimento das ciências exactas, ciências da saúde e ciências naturais foi muito pequeno e de 2014 para 2015 as ciências sociais e as humanidades baixaram”, diz, notando que a única excepção à “estagnação” dos últimos anos foram as ciências da engenharia e as tecnologias.

“O governo anterior revelou ser contra a ciência, tendo tido efeitos nefastos nalgumas áreas em particular. O ministro Manuel Heitor fez bem em virar as agulhas. Mas está afogado em contradições: quer aumentar o emprego científico, um grande problema entre nós, mas começou de uma maneira frouxa ao falar de ‘flexibilização’”, defende o físico. E chegamos à conclusão do costume: É preciso mais dinheiro. “O défice de 2,1% de que o [actual] Governo e o PS tanto se orgulham significa, por exemplo, que as universidades continuam à míngua, sem possibilidade de renovarem os seus recursos humanos”, avisa Carlos Fiolhais, que acrescenta ainda que “o grande problema do ministro Manuel Heitor (e, por isso, também o nosso) é que não tem dinheiro: nem o país tem o dinheiro que tinha, vindo da UE, nem ele tem o peso de Mariano Gago à mesa do orçamento”.

Temos de investir mais na ciência se queremos continuar a crescer, resume Carlos Fiolhais fazendo, sem saber, eco das palavras do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em entrevista ao PÚBLICO. Resta saber se estarão de acordo quando à parcela de investimento que é preciso fazer. O professor da Universidade de Coimbra deixa um desafio: “Estamos às portas do pelotão da frente da Europa. Devíamos ousar entrar.”