O jogo do teatro dentro do teatro no São Carlos

Duas óperas num só espectáculo: Pagliacci, de Leoncavallo, e Der Zwerg (O Anão), de Zemlinsky, na visão das encenadoras Rodula Gaitanou e Nicola Raab. A estreia acontece esta sexta-feira, e as récitas vão até 8 de Abril.

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Pagliacci Rui Gaudêncio
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Quando se abre a dupla cortina do palco do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), surge o efémero teatrinho que deverá acolher a companhia de comediantes que protagoniza a ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo (1857-1919), com estreia marcada para esta sexta-feira, às 20h, em conjunto com Der Zwerg (O Anão), de Alexander von Zemlinsky (1871-1942).

Durante o prólogo, começamos pouco a pouco a reconhecer elementos bem familiares ao público frequentador do único teatro lírico português: teatro dentro do teatro, dentro do teatro... Mas as encenadoras Rodula Gaitanou e Nicola Raab, responsáveis por esta nova produção dupla, que ficará em cena até 8 de Abril, preferem deixar parte da surpresa em aberto, conforme disseram ao PÚBLICO antes de um dos ensaios.

Um dos exemplos mais famosos do verismo (corrente influenciada pelo movimento do realismo literário italiano de finais do século XIX), a ópera Pagliacci, de Leocavallo, foi estreada em Milão em 1892, sob a direcção do jovem Arturo Toscanini. Costuma ser apresentada em conjunto com Cavalleria Rusticana, de Mascagni, devido à sua duração relativamente curta e às afinidades estéticas evidentes.

Neste caso, o director artístico do São Carlos, Patrick Dickie, resolveu lançar um desafio mais ambicioso, colocando-a em parceria com uma obra de tradição germânica, completamente diferente em termos de estilo musical. Der Zwerg, estreada em 1922 em Colónia, sob a batuta de Otto Klemperer, reflecte as várias tendências que se combinam na produção de Zemlinsky e que oscilam entre a herança pós-wagneriana e os novos rumos expressionistas da 2.ª Escola de Viena, liderada por Schönberg, que chegou a ser seu aluno.

Na proposta do São Carlos, há uma encenadora e um elenco diferente para cada ópera, mas a cenografia, os figurinos, o desenho de luz e a direcção musical foram atribuídos aos mesmos artistas, respectivamente José Capela, Mariana Sá Nogueira, Rui Monteiro e Martin André. Entre os cantores que interpretam Pagliacci encontram-se Peter Auty (Canio), Norah Amsellem (Nedda), Igor Gnidii (Tonio), Carlos Guilherme (Peppe) e Thomas Lehman (Silvio).

No caso de Der Zwerg, os principais papéis cabem a Peter Bronder (O Anão) e Sarah-Jane Brandon (Donna Clara), acompanhados por diversos cantores portugueses: Dora Rodrigues, Nuno Pereira, Carla Caramujo, Carolina Figueiredo, Ana Franco e Carmen Matos. Participam também o Coro do TNSC, o Coro Juvenil de Lisboa e a Sinfónica Portuguesa.

Ligações

"Cada uma de nós encena uma ópera, mas a ideia é que existam alguns pontos de conexão; à partida, há uma linguagem comum no espaço cénico, pois temos o mesmo cenógrafo”, explicou ao PÚBLICO Nicola Raab, responsável pela encenação de Der Zwerg.

“São duas peças extremamente diferentes, em termos de estilo, uma é completamente verismo e a outra simbolista, mas tentámos ligar alguns aspectos, ainda que de forma relativamente abstracta”, acrescenta Rodula Gaitanou. “Foi mais uma abordagem intelectual ao nível das ideias e não tanto realista ou literal. Por exemplo, no Pagliacci, o que é a realidade e o que é o reflexo dessa realidade? Como opera o teatro dentro do teatro?”

Leoncavallo escreveu o libreto para Pagliacci inspirado num episódio da sua infância, pois terá assistido a um espectáculo de teatro ambulante em que o actor principal acabaria por matar na realidade a heroína (que o traía com o criado) durante a própria apresentação da peça, tendo o pai de Leoncavallo sido mais tarde o juiz do crime.

Por seu turno, a relação amorosa de Zemlinsky com Alma Schindler (que viria a casar sucessivamente com figuras cimeiras das artes e das letras como Gustav Mahler, Walter Gropius e Franz Werfel) terminou de forma dolorosa, tendo o aspecto físico desagradável do compositor contribuído para a ruptura.

Pensa-se que tal acontecimento terá estado na génese de Der Zwerg, cujo libreto parte do conto de Oscar Wilde, O Aniversário da Infanta, no qual a infanta Donna Clara recebe um anão de presente e fá-lo acreditar no seu amor, apesar da aparência física. Tal como a infanta se cansa do seu “brinquedo vivo de triste figura”, também Nedda, em Pagliacci, repele o palhaço Canio, preterindo-o por Sílvio.

As duas personagens são confrontadas com a dolorosa recusa do amor, resgatada pela morte, mas as encenadoras preferem explorar uma mensagem mais universal. “Há aspectos pessoais na obra de Zemlinsky, mas eu tentei evidenciar a vertente da tragédia humana em geral”, diz Nicola Raab. “Der Zwerg é sobretudo uma reflexão sobre quem sou eu, tem a ver com aquele ponto em que temos de enfrentar-nos a nós próprios e perguntar quem somos em vez de quem é quem gostaríamos de ser. Creio que Zemlimsky fez também essa caminhada.”

A encenadora alemã sublinha que não queria de todo fazer do anão uma vítima. “Faz mais sentido associá-lo a essa jornada do conhecimento de nós próprios. A infanta também tem esse percurso, mas não atinge esse desenvolvimento. Descobre coisas que não conhecia antes, mas no fim decide que não consegue chegar lá, ainda não é a altura. Faz 18 anos, é quase uma pessoa crescida, mas não totalmente. Decide que não pode ainda olhar para si própria e ver como é por dentro; como tal, tem de destruir a outra pessoa que lhe mostrou coisas sobre si.”

Quanto a Pagliacci, Rodula Gaitanou explica que os seus cantores formam um quadro muito realista em termos da interpretação. “Eles actuam sobre o real da situação, mas o contexto é abstracto. Esta ópera é um dos exemplos mais bem escritos em termos de teatro dentro do teatro. Vemos a história real acontecer na primeira metade e depois a mesma história em forma de peça teatral.”

Tendo em conta o ambiente, a encenadora quis fazer uma ligação com o próprio Teatro de São Carlos. “Qual é a realidade deste teatro e qual é a realidade que vemos no palco?” Por isso, elementos do próprio cenário vão desvelando essa relação, que também será explorada no final de Der Zwerg. “Devo dizer que não tenho propriamente esse elemento na minha encenação, mas sim uma reflexão sobre ele; vamos, contudo, deixar a surpresa em aberto!”, diz Nicola Raab.

“O que encontro mais fascinante nos Pagliacci, uma vez que tem um paralelo com a vida que nós vivemos, é que são uma trupe, uma família, e as relações entre os vários membros são muito intensas”, refere Rodula Gaitanou. “É como uma companhia de circo, têm uma vida nómada, cada dia estão num sítio diferente e actuam para pessoas diferentes. As relações são a única coisa permanente. A partir do momento em que tentam ver-se livres delas, é como uma espécie de revolução”, acrescenta.

Pôr a música em palco

Nicola Raab e Rodula Gaitanou já se conheciam, mas nunca tinham colaborado. A primeira já tinha trabalhado em Lisboa, por ocasião da encenação de A Flowering Tree, de John Adams; mas, para a segunda, é uma estreia na capital portuguesa. Ambas as encenadoras gostam de novos desafios e experiências, mas também das grandes óperas do repertório.

Raab tem na sua agenda, para os próximos tempos, a Semiramide, de Rossini; Lakmé, de Delibes; Francesca da Rimini, de Zandonai; Elektra, de R. Strauss; La Wally, de Catalani. Gadanou vai encenar Turandot, de Puccini; Ariadne auf Naxos, de R. Strauss; Capuleti e Montecchi, de Bellini; um espectáculo sobre Kurt Weill; e Guilherme Tell, de Rossini. 

As duas encenadoras acham que é fascinante juntar as obras de Leoncavallo e Zemlinky, mas também um imenso desafio. “Numa jogamos com as expectativas, pois é uma peça com uma longa tradição de encenações e uma ampla discografia; toda a gente acha que conhece a obra, ou pensa que conhece”, diz Nicola Raab. “A outra joga com a curiosidade do público, pois só a partir da década de 1980 começou a ser revisitada; mas acho que é uma boa aposta e causa sempre grande impacto na audiência”, nota Gaitanou.

Em qualquer dos casos é a música que comanda, sendo esta um elemento forte no percurso das duas encenadoras. Rodula estudou violino e Nicola piano e ambas têm formação musicológica. “A nossa função é colocar a música em palco. Para mim a música é o ponto de partida, o guia perante o drama”, diz Rodula Gadanou. “Podemos depois jogar com isso. Tomar uma frase musical ou ir completamente contra ela. As possibilidades podem ser muito variadas e ricas. Aprecio muito a teatralidade na direcção musical.  Às vezes os maestros procuram ser muito precisos e não querem arriscar, mas é fantástico quando se consegue uma resposta ao que se passa no palco.” Nicola Raab recorda que, na ópera, aparecem muitas vezes histórias tontas e banais. “Mas nesses casos a música consegue sempre sublimá-la. Dá-lhes uma dimensão humana.”

Depois da estreia desta sexta-feira à noite, Pagliacci e Der Zwerg terão novas récitas nos dias 2 (16h), 4, 6 e 8 de Abril (20h).