Opinião

O débito universal

O modelo económico que engendra dívida e culpa, pecado e virtude, é o horizonte inultrapassável do nosso tempo.

Os ministros das Finanças são como o protofilósofo Tales de Mileto, tão ocupado a olhar o céu, embrenhado na teoria pura, que não baixa os olhos para ver o chão onde caminha e cai para dentro de um poço, provocando o riso da sua escrava, uma rapariga da Trácia. Há poucos dias, quando um “bom europeu” holandês desempenhou o papel de cobrador de culpas, houve mais ruído na plateia do que representação cómica no palco. Mais uma vez surgiu a questão recorrente, cuja resposta faz apelo a razões históricas e linguísticas: para interpretar o problema do débito público contraído pelos Estados da União Europeia usam-se categorias religiosas e éticas, como as de pecado e culpa. Nunca chegaremos a compreender este facto se não colocarmos os nossos protofilósofos entre parêntesis, dirigindo-nos noutra direcção.

Em 2011, tinham decorrido três anos desde a “crise das dívidas soberanas” (que se transformou em crise económica), o antropólogo americano David Graeber publicou um livro intitulado Debt. The First 5.000 Years, que provocou um vivo debate internacional. Para a antropologia, a medida do tempo é muito mais longa que a da economia. Cinco mil anos é o tempo de uma longa história que atravessa o mercado e a moeda, remonta às origens do débito e ultrapassa os limites do Ocidente, em direcção ao Médio Oriente, à China, à África, à América, a todo o lado onde chegou, com mais ou menos violência, a “mão invisível” do mercado. Graeber desmonta o mito fundador da ciência económica que tem a sua origem em Adam Smith, recorrendo às teorias do dom, de Marcel Mauss, para mostrar que as relações sociais e os sistemas económicos não se podem reduzir às formas de troca. E, negando a ideia de que os Estados representam instituições contrapostas ao livre desenvolvimento do mercado, ele mostra que se trata de uma “falsa dicotomia”: os Estados criaram os mercados e os mercados precisam dos Estados. No nosso tempo — explica Graeber — tentou-se transformar todas as pessoas do mundo em pequenas empresas, democratizando o crédito. O resultado foi um endividamento generalizado, “uma crise de inclusão” sem precedentes.

Na recepção do livro de Graeber, em Itália, interveio o filósofo Roberto Esposito com argumentos que convocam questões eminentemente políticas. Para Esposito, o actual “endividamento universal é o resultado da relação de forças entre partes desiguais”. Mas, na sua análise do fenómeno, ele incide numa mudança que descreve desta maneira: enquanto na sociedade moderna era “a parte forte a incluir nos seus limites a parte fraca, hoje é a parte fraca que absorve no seu vazio de recursos a parte forte”. Ao endividamento geral (hoje, todos os Estados estão endividados face a uma entidade inapreensível que é a finança global) corresponde também uma forma de violência difusa. E, acrescenta Esposito, a maior dificuldade em inverter o modelo que hoje impera reside no facto de “não se perfilar outro no horizonte”, na medida em que a própria linha do horizonte se situa no interior desta teologia económico-política. A sua proposta consiste em que se inverta o sentido do débito soberano: “Em vez de procurar deter uma dinâmica que se tornou imparável, devemos acelerá-la, levando-a ao seu limite, até à sua implosão. Que todos sejam, ou se tenham tornado, devedores, isso significa que já não existem verdadeiros credores. Todo o credor é devedor de um outro, numa cadeia da qual se perdeu o primeiro anel”. “Inverter o sentido” para alcançar uma saída implica interpretar de outra maneira a matéria económica que está atrás e diante de nós. E implica desactivar a culpa.