Sintra contesta junto do Governo abate de milhares de árvores em Sintra-Cascais

Para Basílio Horta, "está em causa a Paisagem Cultural da Humanidade" e a Câmara não abdica "de intervir".

MIGUEL MANSO
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MIGUEL MANSO

O presidente da Câmara de Sintra pediu aos ministros do Ambiente e da Agricultura para que seja reavaliado o corte de milhares de árvores no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC) e defendeu que os técnicos municipais participem nessa avaliação.

"O problema das árvores está ligado à Paisagem Cultural da Humanidade. Nada se deve fazer que possa afectar as obrigações que temos em relação à UNESCO, nomeadamente quanto a árvores centenárias", afirmou o presidente da autarquia, Basílio Horta (PS).

O autarca, que falava à agência Lusa à margem da reunião do executivo municipal, recusou "que a Câmara e a sociedade Parques de Sintra-Monte da Lua não sejam ouvidas e não intervenham" em relação ao abate de árvores na zona classificada património mundial.

Em causa está a marcação de milhares de árvores junto da Estrada Nacional 9-1, entre a Malveira da Serra e a Lagoa Azul, e dentro da serra, pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que tutela a área protegida de Sintra-Cascais.

"Nós respeitamos as necessidades económicas do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, e das instituições, mas as necessidades económicas têm que se sujeitar a valores superiores, que neste caso é a paisagem da serra", frisou Basílio Horta.

O presidente da autarquia acrescentou que "se é verdade que há um desbaste de árvores que afecta a própria paisagem", a Câmara "não pode ficar indiferente" e também quer participar na validação do corte de arvoredo.

Numa carta enviada nesta quinta-feira aos ministros do Ambiente e da Agricultura e ao ICNF, Basílio Horta solicita a suspensão do abate programado e que "seja levada a cabo uma reanálise técnica da iniciativa", disponibilizando dois engenheiros florestais para que possam participar na avaliação.

"Não percebo como é que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, quando alguém quer fazer uma capoeira numa casa nega autorização, e abate milhares de árvores em pleno centro da Paisagem Cultural sem nos dizer nada", considerou, à margem da reunião.

Para o autarca, "está em causa a Paisagem Cultural da Humanidade" e a Câmara não abdica "de intervir", congratulando-se "com os partidos que levantaram a questão no parlamento".

A comissão parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território, Poder Local, Descentralização e Habitação aprovou, por unanimidade, um requerimento do Partido Ecologista "Os Verdes" para a audição do presidente do ICNF sobre o abate de árvores e "os seus impactos ambientais".

O vereador Pedro Ventura (CDU) estranha as justificações do ICNF para abate, nomeadamente por motivos fitossanitários, apenas numa faixa de 50 metros ao longo de cinco quilómetros, ou para criar "um corta-fogo em que só cortam pinheiros e deixam eucaliptal e acácias".

"A preocupação com o fogo pelo ICNF também devia existir em relação às árvores que neste momento estão derrubadas nas quintas privadas da serra", notou à Lusa, advogando que as verbas dos cortes sejam utilizadas na "rearborização da serra".

Os eleitos do PSD e do movimento independente Sintrenses com Marco Almeida também subscreveram as manifestações de preocupação em relação à intervenção do ICNF.

"Os objectivos do abate são a melhoria da segurança rodoviária, retirando todos os exemplares de pinheiro bravo ou cipreste em fim de vida e/ou em mau estado fitossanitário, bem como todos aqueles que apresentem sinais de instabilidade", explicou o ICNF.

A intervenção "inclui cerca de 1200 exemplares arbóreos", entre pinheiros bravos, acácias e cedros, e, segundo o ICNF, não deverá "fomentar o aumento da presença de invasoras, mas sim, pelo contrário, melhorar as condições de desenvolvimento das espécies autóctones".

O Bloco de Esquerda também já solicitou esclarecimentos ao ministro da Agricultura, que tutela o ICNF, e o presidente da associação ambientalista Quercus defendeu que "o corte deve ser cancelado e deve ser reavaliado", por duvidar que "incida unicamente sobre árvores doentes e em risco".

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