Gisela João: “Valemos pelo nosso trabalho, não por lindos olhos ou boas pernas”

Dois anos depois, Gisela João volta aos coliseus. Esta sexta-feira no Porto e dia 7 em Lisboa, será um reencontro com o seu mundo. “As pessoas que estiveram nos primeiros vão sentir que fazem parte daquilo”, diz ela.

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“Não me interessa nada fazer 200 concertos num ano. Prefiro fazer dez, mas muito bons” RUI GAUDÊNCIO

Gisela João parece uma guerreira constantemente em guarda. Amanhã volta ao Coliseu do Porto e dia 7 estará no de Lisboa (sempre às 21h30) para um reencontro com o público. O êxito não lhe toldou a visão, percebe-se pelas suas palavras. Mas viveu em ansiedade quando lhe exigiram um disco melhor do que o primeiro. “Estive bastante bloqueada, confesso. Mas de repente percebi: se for parecido com o primeiro, ainda bem. E quando tive o disco na mão, isso foi das coisas que me deixou mais feliz.” Sim, Nua assegura continuidade ao disco de estreia, é como se fosse a sua alma gémea. Mas a pressão não se desvaneceu totalmente. “Passa para os concertos, sempre. Porque as pessoas compram bilhete e eu tenho de dar ali o que tenho e o que não tenho.”

E a guerreira desembainha de novo a espada: “Continuo a ter esse receio, essa responsabilidade, o medo de falhar. Porque, para mim, eu quero é cantar! Quando apareci em 2013 nem sequer tinha ligação com o meio, tudo era novidade para mim. E hoje já percebo como é que funciona toda esta máquina grande, de que a comunicação social também faz parte, de como chegar ao público. E isso tem um lado bom e um lado mau. E ou se diz ámen e se entra no jogo ou não se entra. E eu não quero entrar em jogos. Eu acredito (e é uma luta minha, provar isso) que as pessoas valem pelo seu trabalho, não por terem lindos olhos ou umas boas pernas.” Não ignora que há quem comente: “Ah, lá vai ela! Agora ‘tá nua! Agora vai de sapatilhas! São uns golpes de marketing!” Mas, contrapõe, “não são as sapatilhas que cantam”. Por isso insiste na sua responsabilidade: “Não me interessa nada fazer 200 concertos num ano. Prefiro fazer dez, mas muito bons.”

Nos “muito bons” Gisela inclui os dos coliseus. Pelo menos esse é o seu desejo. Jon Pareles, do New York Times, escreveu recentemente que ela deu um concerto “luminoso” no Schimmel Center. Ela gostou de ler, mas sem entusiasmos desmedidos. Disseram-lhe: “Tens de aprender a ler o Jon Pareles. Primeiro, ele só vai aos concertos se gostar. E para escrever é porque gostou mesmo muito.” E ela: “Fiquei contente, claro, mas irrita-me esta coisa que o português tem, de achar que somos pequeninos e só valemos quando dizem bem de nós lá fora. Já tive críticas mais bonitas em Portugal, até no PÚBLICO. Porque é que as pessoas aqui não deram valor a isso?”

"Nunca me vou iludir"

Gisela reage assim também por um mecanismo de defesa. “Nunca me vou iludir. Porque sou de uma família classe média-baixa, de pés assentes na terra. Podia dizer ‘saí no New York Times, sou a maior!’, mas as coisas não são assim. Porque já vi, na área do fado, pessoas que viajaram pelo mundo inteiro, tinham tudo, ganhavam muito dinheiro, e de repente têm de ir para as casas de fado de novo e não é por gosto, é porque precisam.” E ela quer defender-se disso. “Há idades certas para se fazer determinadas coisas. Eu não sei se vou durar até aos 50 ou até aos 80. Mas se durar? A voz é uma coisa muito frágil. E com 60 ou 70 anos não vou estar com a força que tenho com 30. É como com um atleta de alta competição, as faculdades vão ficando diferentes.”

Qualquer coisa que faça hoje, diz, “tem de estar muito bem-feita, com uma entrega a 100 por cento”. A sua relação com o público faz parte dessa entrega. “Não sei se é por ser de uma família muito grande, mas gosto muito de abraçar as pessoas e de as levar para casa, sermos todos amigos. Tenho muita proximidade com as pessoas pelo Instagram, pelo meu Facebook, gosto muito disso. Não as trato como fãs, são meus amigos.” Os concertos são uma extensão disto. “Nos outros coliseus [em 2015] era um bocado contar a história do meu caminho no fado, a primeira música que ouvi, a segunda que comecei a cantar, o que cantava em miúda. Agora será uma coisa maior, com cenografia (o André e. Teodósio, de novo), tudo à volta do meu mundo. As pessoas que estiveram nos primeiros vão sentir que fazem parte daquilo, tenho a certeza.”