Crítica

The Gift com Brian Eno dá bom resultado

É reconfortante perceber que encontraram um novo fôlego. E ganharam um aliado de peso capaz de lhes apontar um caminho que, ainda assim, terão de percorrer sozinhos.

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Altar foge à luta entre voz e instrumentos para ver quem chega mais alto Hans-Peter van Velthoven

Como chamariz internacional não havia, provavelmente, cartada mais eficaz a ser jogada pelos Gift. Uma banda produzida por Brian Eno é logo sinalizada pelos radares mediáticos e se, até aqui, Espanha era o mercado em que o quarteto de Alcobaça penetrava com alguma facilidade e notado reconhecimento, as presenças em palcos no resto do mundo ainda não tinham acendido o rastilho necessário para fazer soar as companhias. Os nomes de Brian Eno e de Flood (nas misturas) fazem-no.

Para um público (como o português) que não terá o primeiro contacto com o grupo através de Altar, a curiosidade é, no entanto, bem diferente e será sempre medida pela conclusão daquilo que o homem por detrás dos comandos de álbuns tão distintos e marcantes quanto Viva la Vida or Death and All His Friends (Coldplay), Achtung Baby (U2), Remain in Light (Talking Heads), Q: Are We Not Men? A: We are Devo! (Devo), Bright Red (Laurie Anderson) ou Shleep (Robert Wyatt) terá conseguido extrair dos Gift. O próprio grupo reconhece que, nalguns casos, Eno lhe pediu que reescrevesse as canções e — podendo apenas os próprios avalizar o que terá resultado desse processo — a verdade é que estes não são os Gift que tínhamos deixado com Explode (2011) e Primavera (2012), demasiado derivativos e sem rumo. Como se, depois da espiral de pop barroca em que se haviam antes enfiado, a desaceleração apenas pudesse conduzir a uma estonteada queda.

Seja ou não a mão de Brian Eno a consegui-lo, Altar é um álbum que foge à luta entre voz e instrumentos para ver quem chega mais alto, acolhe uma simplicidade de recursos — claro que, aqui e ali, lá surgem uns teclados mais espaventosos, mas sem que acusem a sobredose — e uma contenção que servem com justeza uma mão-cheia de boas canções, e soa menos deslumbrado. Não seria de estranhar que a mera presença do produtor inglês tivesse contribuído para os Gift acalmarem agora os excessos das suas opções e aparecerem mais focados em ouvir-se e dar-se a ouvir (pode argumentar-se que esse era já o caminho de Primavera, mas era um caminho receoso e pouco afirmativo).

Se é uma evidência que a “teatralidade pop” (com que o inglês Independent os caracterizava em notícia do lançamento do novo álbum) faz parte da essência do grupo, Altar apenas cede a essa tendência de carregar nas cores garridas e na criação de canções espalhafatosas (um atalho para a vulgaridade) num par de momentos de um par de canções (Clinic hope e Big fish). Mas nem nesses casos, reconheça-se, tais gestos momentâneos traem as composições. Clinic hope sobrevive perfeitamente a esses acessos e só mesmo Big fish, de resto, e talvez por explorar tematicamente a mutação, parece perder-se no seu fôlego de canção desenhada para inflamar as pistas de discotecas.

Altar é mais do que isso: traz uma aproximação discreta à música soul, tem canções certeiras sem precisar de exuberância como Vitral, You will be queen ou Lost and found, não cai na armadinha do dramatismo de pacotilha que por vezes infectava as baladas do grupo e apresenta dois temas que serão, provavelmente, dos melhores de sempre do grupo: Love without violins, com mão mais pesada de Brian Eno, uma eficaz demonstração de resistência à aceleração que parece na iminência de acontecer a cada segundo mas que poderia ser a sua morte; e Malifest, que cairia que nem ginjas num disco de girl group britânico e isso, podendo não parecer aos mais desconfiados, é um elogio da melhor safra.

Seria trágico se no encontro com Brian Eno os Gift se limitassem a empalidecer ainda mais na sua relevância. É reconfortante perceber que, não tendo alcançado uma obra-prima, encontraram um novo fôlego e ganharam um aliado de peso capaz de lhes apontar um caminho que, ainda assim, terão de percorrer sozinhos.