Editorial

Geografia política

Sim, o mundo está mais pequeno. E sim, a globalização aproxima povos e nações e ajuda a ultrapassar fronteiras. Mas a geografia ainda manda, quer política quer economicamente. E aquilo que foi uma virtude durante séculos agora é um anátema: a ilha britânica acha-se grande demais para ser Europeia mas é demasiado pequena para ser relevante sozinha. Se o Reino Unido é alguma coisa, é europeu. Cortar voluntariamente os laços de uma união política com os parceiros naturais ficará na história como uma das maiores idiotices políticas deste século.

O Reino Unido sai sem estratégia, sem visão e sem modelo para os próximos anos. Resumir o desígnio histórico de uma nação ao “estamos fartos de imigrantes” é tão risível que faz pena. Se a Escócia optar por abandonar o Reino, será pior ainda: o continente a subverter o reino ex-unido seria o cúmulo da ironia. Claro que a Inglaterra vai sobreviver e claro que vai continuar a ser uma potência importante. Mas será menos relevante e terá menos poder no mundo.

Nada disto serve de consolo. A União Europeia também perde, e perde muito. Sem equilíbrio nem contraponto à deriva alemã, esta perde o eixo atlântico e perde a cidade mais globalizada do planeta. A UE perde um contribuinte líquido e um ativo membro da comunidade internacional que nunca teve medo de intervir além-fronteiras. Pior que isso, perde uma parte importante do multiculturalismo europeu. E vai agora embarcar em políticas de velocidade variável que talvez tivessem mantido os ingleses dentro.

Este é um jogo estúpido em que ambos perdem. A dimensão do erro será maior se as negociações falharem – o que é um risco dada a imensa quantidade de matérias sensíveis que estão em cima da mesa. Não há maneira de garantir que esta despedida vá ser civilizada. Nos bastidores vai haver sangue e o rancor entre os dois lados da Mancha virá ao de cima. O processo nunca se irá concluir em dois anos, pelo que muitos dossiers serão fechados à pressa e outros ficarão em aberto. Há compromissos assumidos que dependem do dinheiro britânico, há mercados que se vão fechar, há tarifas que é preciso definir. E há vidas que vão mudar de forma dramática. São estas que a União precisa de acautelar para não negar as suas raízes. É fundamental garantir os direitos dos britânicos na União e os direitos dos europeus no reino, para que as pessoas percebam que são a prioridade em qualquer uma das europas.