Entrevista

“A situação actual [dos corais] é deveras preocupante”

Perguntámos ao biólogo João Monteiro sobre a situação dos corais em todo o mundo.

João Monteiro é especialista em corais
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João Monteiro é especialista em corais DR

O biólogo João Monteiro faz parte do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Madeira investiga agora recifes de coral no Pacífico e colabora com a organização não-governamental Conservação, Protecção e Restauração do Recife de Coral (Coral Reef CPR, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos. Maldivas é um dos locais onde trabalha.

Qual é a situação dos corais de superfície a nível global?

A situação actual é deveras preocupante e tem um cenário sem precedentes – [os últimos] dois anos consecutivos de temperaturas da água do mar muito elevadas e persistentes estão a provocar o branqueamento em grandes extensões de recifes de coral em várias partes do mundo. O primeiro evento de branqueamento em massa à escala global foi em 1997-98. O panorama repetiu-se em 2010 e novamente em 2015-16, quando as temperaturas dos oceanos atingiram valores recorde. O ano de 2017 parece trazer mais uma vaga de branqueamento em massa, com cientistas a reportar grandes extensões de recife a branquear na Austrália e no Mar do Sul da China.

Quais as principais causas do problema?

As alterações climáticas! Existem outros promotores de stress e ameaças para os corais e recifes, especialmente a nível local ou regional – a pesca excessiva ou destrutiva, as pragas de organismos que se alimentam de corais, a poluição ou introdução de espécies não indígenas. No entanto, nenhuma se compara com o perigo que as mudanças climáticas representam para a sobrevivência dos corais e recifes de coral a nível global.

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O aumento da temperatura dos oceanos é uma das componentes das alterações nos regimes climáticos com efeitos mais óbvios, pois promove a perturbação da relação do coral e da alga. No entanto, os impactos das alterações climáticas não se resumem ao aumento da temperatura da água. A acidificação dos oceanos – resultante da absorção de dióxido de carbono atmosférico – diminui a capacidade de os corais criarem o seu esqueleto calcário e a sua densidade e resistência a danos físicos, resultando em taxas de crescimento mais lentas e corais mais frágeis.

Por outro lado, também se tem assistido a um aumento na frequência e na intensidade de grandes tempestades e furacões, que promovem danos em grandes extensões de recifes de coral, que já se encontram fragilizados e com menor capacidade de recuperar. O efeito combinado de todos estes factores e condições colocam o futuro dos recifes de coral em causa, estimando-se a perda de 90% dos corais a nível global nos próximos 30 anos.

O que acontece no branqueamento dos corais?

As temperaturas elevadas danificam os mecanismos fisiológicos das algas simbióticas, levando-as a produzir toxinas. Os corais, que beneficiam e necessitam dessas microalgas, reagem às toxinas, expulsando-as.

Os oceanos absorvem cerca de 95% do calor resultante das alterações climáticas e são agora significativamente mais quentes do que há 50 anos. As temperaturas mais elevadas provocam stress nos corais e algum nível de branqueamento todos os anos. No entanto, eventos de branqueamento à escala global parecem estar associados à ocorrência de fenómenos climáticos de larga escala como o El Niño (um fenómeno cíclico que promove a alteração nos regimes de vento e temperatura e um aquecimento extraordinário das águas superficiais). Este aquecimento “soma-se” ao facto de as águas já estarem mais quentes e tem tido efeitos catastróficos para muitos recifes de coral. Na Grande Barreira de Coral, o maior recife do mundo, estima-se que as temperaturas registadas em 2016 tenham sido responsáveis pela perda de 22% dos corais, promovendo alterações permanentes no ecossistema com sérias consequências para a diversidade de organismos que ali habitam.

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Em Portugal, qual é a situação dos corais de superfície?

Em Portugal, não existem recifes de coral de baixa profundidade, que estão restritos a regiões tropicais e subtropicais. Existem algumas espécies [mas não recifes], pouco comuns nas nossas águas, que também dependem desta simbiose com algas e que, portanto, serão susceptíveis a alterações nas condições ambientais e ao aumento da temperatura da água.

Por outro lado, é importante sublinhar que os ecossistemas presentes nas nossas águas também são vulneráveis às alterações climáticas. O aumento do regime de temperatura, por exemplo, não só terá seguramente efeitos negativos directos em muitos organismos, como facilita o estabelecimento de espécies com afinidade tropical, que poderão provocar alterações drásticas na diversidade e nas comunidades de organismos indígenas.