O centenário de Fátima numa vela, um terço, um lenço ou um babete

Comerciantes ainda se estão a abastecer dos produtos específicos para o 13 de Maio e não se mostram particularmente entusiasmados com a data.

Foto
Adriano Miranda

Na pequena loja de Fátima Marto e Joana Santos, numa das arcadas comerciais que ladeiam o Santuário de Fátima, não se vêem referências ao Papa Francisco. “Vê-se pouca coisa porque ele mesmo tem dito que não quer que se especule com a sua imagem”, explica a primeira. O apelo não terá chegado a todos os vendedores, e poderá contar ainda menos, à medida que se aproxima a data marcada para a visita papal, a 12 e 13 de Maio, nas cerimónias que marcam o centenário de Fátima, mas, por enquanto, Francisco ainda vai sendo ultrapassado pelos artigos com a imagem de João Paulo II. Bento XVI é que nem vê-lo. E quanto aos pastorinhos Francisco e Jacinta, cuja canonização é esperada para breve, é bem provável que vejam a sua imagem multiplicada nos escaparates da cidade.

No dia em que falamos com Fátima e Joana, ainda não se sabia que o Papa Francisco validara o milagre que permitirá que os dois irmãos, beatos desde o ano 2000, possam ser designados santos. Presença constante nas montras da cidade, acompanhados pela prima Lúcia, os pastores irão, provavelmente, ser uma das apostas dos comerciantes que, a menos de dois meses da visita papal, ainda aguardam pela chegada dos produtos encomendados especificamente para a ocasião. Ainda que, em cada montra, seja já quase impossível não encontrar alguma referência específica ao acontecimento.

Desde logo pelo terço oficial, que está por todo o lado e que, segundo Lúcia Oliveira, outra vendedora da arcada comercial Norte, é dos produtos que melhor se vendem. “Vendem-se muitos terços e não só a portugueses. Se fosse só o cliente português, isto não dava”, diz. O centenário está gravado em terços, lenços e panos, ímans de frigorífico, canecas e pagelas, pequenos quadros ou em embalagens de chá. O que não impede Fátima Marto de torcer o rosto numa careta demonstrativa do seu pouco entusiasmo com o 13 de Maio. “Anda tudo a falar do centenário, como se Fátima não estivesse sempre a abarrotar todos os 13 de Maio. E, olhe, esse nem é o dia em que se vende mais. É muita confusão, demasiada gente, chega a um ponto em que não se consegue trabalhar”, afirma.

Não muito longe, Aida (que diz que o primeiro nome “chega” para se identificar) expressa o mesmo encolher de ombros de algum enfado pelas vendas previstas para o 13 de Maio - “é muita confusão e não quer dizer que se venda mais” -, mas não partilha da decisão de retirar a imagem do Papa Francisco da lista dos produtos que tem para oferecer. As imagens do Papa, a par com os terços e as medalhas são mesmo os produtos que melhor vende, admite: “As pessoas gostam muito deste Papa. Não procuram pelo Bento XVI, só mesmo quando ele cá veio é que tivemos alguma coisa. Mas o João Paulo II ainda vende muito bem.”

Habitantes cercados

A algumas dezenas de metros dali, na loja Decorarte, Maria Silva suspira. “Não estou muito impressionada com o centenário. É muita gente e não é fácil. É mau para os peregrinos e nós, habitantes, não podemos sair para lado nenhum”, desabafa. A loja já vendeu mais - anos houve em que até se encarregavam da decoração de casas “por todo o país”, diz - mas Fátima continua “com muita gente” e, por isso, vai-se sempre vendendo. Para lembrar o centenário, Maria tem, para já, marcadores de livros e velas. Há a imagem de Nossa Senhora, dos pastorinhos e do Papa Francisco, de forma discreta, espalhados pelo local. “Não fizemos muita coisa para o centenário, o próprio Papa pediu que assim fosse”, afirma. E produtos nacionais e que vêm de Itália. “Por aí há muita coisa feita na China, mas em Fátima ainda há coisas bonitas”, diz a mulher que já assistiu à celebração do cinquentenário e se preparava para os cem anos das ditas aparições. “Naquela altura havia muito menos lojas, menos qualidade de artigos e nem 10% dos hotéis que há hoje. Agora, as pessoas vêm em qualquer momento e há muita gente que procura o silêncio. Quem vem a 13 de Maio procura ficar o mais perto possível do Santuário e nem se mexe para não perder o lugar”, diz.

N’O Rosário, Mónica Santos diz que os produtos encomendados para o centenário ainda não chegaram, e ri quando lhe perguntam as preferências de quem compra: “Coisas simples e fáceis de transportar. Tudo o que seja miudinho e barato, de preferência”. No posto de venda que José Guerra assumiu, enquanto os pais, idosos, não encontram um funcionário, o produto mais vendido não está preso ao centenário. “Vendemos muitas velas, quer pequenas quer grandes. Tudo o que seja cera para pagar promessas. Ainda há pouco um senhor inglês me pediu um estômago”. E tinha? “Tinha”, diz.

Vende-se melhor a Norte

Espreitando entre terços, imagens, azulejos e placas com mensagens alusivas ao centenário, Diogo Duarte Almeida não disfarça completamente o sotaque de uma vida vivida parcialmente em Espanha. “Tenho figuras do Papa Francisco e as pessoas procuram bastante. E também terços. Temos o oficial do centenário, mas temos um outro alternativo”, diz. Na arcada Norte não há uma loja encerrada e os produtos alusivos a Fátima misturam-se com brinquedos de plásticos ou panos de cozinha com “Portugal” bordado em tons coloridos, mas na arcada Sul grande parte dos minúsculos espaços de venda estão fechados e, nos que estão abertos, multiplicam-se as “lembranças” extra-temática religiosa.

O cenário parece confirmar o que, ainda há pouco, dizia Fátima Marto, que já esteve instalada na zona a Sul do Santuário. “Deste lado [Norte] vende-se melhor, porque há mais peregrinos que chegam do Norte. As pessoas vão ao Santuário e não passam para o outro lado”, diz. Do lado de lá, a Sul, Cecília Cavadas e Ana Maria Marto são vizinhas no posto de venda. A primeira admite que tem muito produto que chega da China, “porque é mais barato”, mas chama a atenção para pequenos terços com a etiqueta “Made in Portugal”, e feitos “à moda de antigamente, com caroços de azeitona e alfarroba”. As portadas fechadas dos vizinhos só se abrem em dias em que se sabe que haverá maior afluência, explica. “Nos outros dias não vale a pena”.

Não há números oficiais sobre a evolução das vendas no comércio de Fátima, embora o aumento de visitantes - de 4,2 milhões em 2008, passou-se para 6,7 milhões em 2015 - aponte, por comparação, para um aumento do volume de negócio. E, ainda que os comerciantes locais não se apresentem demasiado entusiasmado com o centenário e a visita papal, as efemérides sempre servem para animar o negócio. O Santuário diz que terá à venda, em breve, t-shirts, lenços e bonés, além do “tradicional lenço de Fátima”, sem a imagem do Papa, “apenas com o logo e o slogan da viagem”. E, na internet, também não falta quem aproveite a ocasião para fazer negócio. A loja online Funny Fátima, por exemplo, tem produtos exclusivos com “imagens divertidas para todas as idades”, explica Ricardo que, com a esposa, Cátia, ambos de Fátima, criou o espaço. A loja está online desde Fevereiro, com alusões ao Papa e ao centenário. Há puzzles, babetes, t-shirts, réguas ou canecas. E os três pastorinhos. Alerta: a Jacinta tem um vestido vermelho às bolinhas brancas.

Sugerir correcção