Editorial

A metamorfose: de pelicano a avestruz

Para o Banco de Portugal nada parece ser problema: se a Mutualista enfrentar dificuldades, não há problema, isto apesar de ter uma exposição de quase 90% à Caixa.

Eureka. Depois de semanas com notícias preocupantes sobre a Caixa Económica Montepio Geral e o seu accionista único, a Associação Mutualista Montepio Geral, o Banco de Portugal parece ter encontrado a solução para todos os problemas: muda-se o nome da Caixa Económica. E depressa, tal como noticiou este sábado o Expresso. Os clientes nem vão perceber. Com novo nome, se havia problemas, os problemas desaparecem. Afinal, os clientes, os associados, os que nos balcões do Montepio subscreveram produtos da Mutualista, não passam de tolos.

Não é apenas uma interpretação. É a leitura que Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, faz. Basta recordar o que disse a 9 de Março em entrevista ao PÚBLICO sobre a relação da Associação Mutualista com a Caixa Económica. “O que me preocupa não é que o accionista tenha problemas, é assegurar que o banco não está exposto ao accionista. Essa é a raiz do contágio. Se um accionista tiver dificuldades, vende acções e a sua participação sem afectar o banco”. Eureka outra vez.

Mas se recuarmos um pouco mais vemos que é a própria Caixa Económica que no prospecto da última emissão de Unidades de Participação faz notar que um dos riscos da operação é a ligação entre a Mutualista e a própria Caixa. Alarmistas.

Para o Banco de Portugal nada parece ser problema: se a Mutualista enfrentar dificuldades, não há problema, isto apesar de ter uma exposição de quase 90% à Caixa. Se a Caixa precisar de capital e a Mutualista não a puder socorrer, não há problema. Haverá novos accionistas a correr para entrar no capital da Caixa. A que preço? Ao valor que a Caixa está no balanço da Mutualista? Ninguém acredita. Mas isso também não é problema. Até porque se a Mutualista  tiver dificuldades para honrar os seus compromissos, não há problema, não é o Banco de Portugal que a supervisiona. É o Governo. Que em relação a este assunto, mantém um silêncio ensurcedor.

Não é excesso de optimismo. É a constatação de factos. Basta ver o sucesso da resolução do BES. Mudou-se o nome para Novo Banco, e é a loucura para tentar escolher entre os vários candidatos que querem ficar com a nova instituição.

Certo, certo, é que o problema parece resolvido. Só falta escolher novo nome. Mas seria demasiada pretensão que esse nome ficasse escolhido aqui. Fica uma sugestão. Enquanto não se decide o nome, mude-se o simbolo: de pelicano para avestruz.