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Truman Capote e A Sangue Frio: afinal havia outro

Uma reportagem do Wall Street Journal revela a existência de um outro relato do crime que originou a obra mais memorável de Truman Capote. Foi escrito por um dos assassinos, Richard Hickcock, que alude, ao contrário do escrito por Capote, a um crime encomendado.

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O escritor sabia da existência do segundo relato e tudo terá feito para impedir a sua publicação REUTERS/NEW YORK TIMES/HANDOUT

Na noite de 15 de Novembro de 1959, na casa de uma quinta em Holcomb, no Texas, dois homens surpreendem a família Clutter. Procuram um cofre com dez mil dólares e asseguram ao casal e aos dois filhos adolescentes que nada de mal lhes acontecerá. O cofre nunca aparece. Na manhã seguinte, os quatro Cuttler jazem mortos, baleados, na casa da quinta isolada. Muitos conhecem a história de um dos crimes mais célebres e infames na história dos Estados Unidos. Foi a partir dele, afinal, que Truman Capote criou A Sangue Frio, editado em 1966 e o livro mais aclamado do escritor americano, considerado o criador do jornalismo literário.

Que alguns factos menores foram alterados para servir a narrativa de Capote, era sabido há muito. Mas quanta liberdade tomou o autor? Essa é a questão que se coloca quando nos deparamos com a existência de um outro livro sobre o crime, mantido desconhecido durante cinco décadas. Foi escrito por um dos assassinos, Richard Hickcock, com a ajuda de um jornalista do Kansas, Mack Nations. A revelação foi feita esta semana numa reportagem do Wall Street Journal, que teve acesso à única cópia existente do relato de cerca de 200 páginas intitulado The High Road to Hell.

A principal novidade reside na possibilidade de, ao contrário do descrito por Capote, estarmos perante um crime encomendado – em A Sangue Frio, um antigo companheiro de cela de Hickcock, outrora empregado dos Clutter, conta ter revelado àquele a existência do cofre na casa da família e a obsessão com os dez mil dólares nele contidos que, a partir de então, tomou conta de Hickcock. Em High Road to Hell é identificado e referido brevemente alguém de nome Roberts, que encomendara o assalto e assassinato. “Ia matar uma pessoa. Talvez mais que uma. Conseguiria fazê-lo? Talvez recue. Mas não posso recuar, já tenho o dinheiro. Gastei algum dele”, escreve Hickcock. À luz deste facto estranha-se que, durante o julgamento, a sua defesa nunca o tenha referido e que a identidade do misterioso Roberts nunca tenha sido investigada.

Ralph Voss, professor da Universidade do Alabama e estudioso de Truman Capote e A Sangue Frio, desvaloriza a revelação. Explica-a pela desilusão de Hickcock com Capote, que julgava que poderia auxiliá-lo no seu caso desesperado. “Quando percebeu que não, procurou ganhar dinheiro pelos seus próprios meios. Não acreditaria em nada de Hickcock, nem julgo que o manuscrito acrescente algo de significativo ao publicado por Capote”.

Segundo a reportagem do Wall Street Journal, o relato de Hickcock, escrito no corredor da morte (ele e o seu cúmplice seriam enforcados em Abril de 1965), foi completado antes de Truman Capote terminar a obra que criou a partir da investigação em Holcomb e das entrevistas feitas, com a ajuda da amiga de infância Harper Lee (Mataram a Cotovia), aos habitantes da cidade, aos investigadores e ao próprio Hickcock. Capote, já um escritor notado por obras como Boneca de Luxo, mas que sabia ter em mãos a obra que o elevaria a um novo patamar de reconhecimento e celebridade, tudo terá feito para impedir, não só a publicação de The High Road to Hell, como o conhecimento da existência de tal manuscrito.

Tentou comprá-lo a Hickcock – e fracassou -, e relatou à Random House, a editora que lhe comprara os direitos para a edição de A Sangue Frio, os problemas que lhe estava a causar Mack Nations, o jornalista colaborador de Hickcock – Nations enviou uma cópia do manuscrito à editora para avaliar a publicação, mas esta, com Capote sob contrato para a mesma história, devolveu-o à proveniência. Uma segunda cópia, aquela a que o Wall Street Journal teve acesso, foi entregue a um advogado da Procuradoria, Robert Hoffman, que nada fez com o documento, hoje nas mãos do seu filho, Kurt.

Em 1965, Hickcock foi enforcado. Em 1966, Capote editou A Sangue Frio. Em 1968, quando Mack Nations morre num acidente de automóvel, Truman Capote era uma estrela, autor de um livro de génio que inaugurou oficialmente um novo género literário. Todos conheciam A Sangue Frio. Ninguém sabia da existência de um certo The High Road to Hell.

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