Como será o hospital do futuro? Terá menos camas e um gestor por doente

Trabalho que será apresentado nesta sexta-feira antecipa como serão os hospitais em 2030. Administradores hospitalares e Ordem dos Médicos dizem que Portugal ainda precisa de muitas reformas.

marco duarte
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marco duarte

O doente entra num hospital e vai a um edifício ter uma consulta de cardiologia. Depois, desloca-se até outro edifício para fazer alguns exames e regressa ao mesmo médico. Mais tarde tem uma consulta de diabetes numa outra ala e com outro especialista, pelo que precisa de levar consigo os mesmos exames impressos. Esta é, ainda hoje, a realidade de muitos hospitais. No entanto, num futuro bem próximo — em 2030 — os hospitais vão ter cada vez menos barreiras entre os vários departamentos e serão os especialistas a deslocar-se para atender os doentes.

Esta é, pelo menos, uma das previsões de um estudo que será apresentado nesta sexta-feira na 1.ª Conferência de Valor da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que decorre em Ílhavo.

Para Gabriel Antoja, investigador do Center of Research in Healthcare Innovation da IESE Business School e um dos autores do trabalho feito em colaboração com o Instituto Karolinska e a Accenture, “cada vez há uma evidência maior da relação entre os resultados em saúde e uma melhor experiência do cidadão” no momento em que recebe cuidados médicos.

Por isso, seja por razões financeiras, ou pelos melhores resultados para o doente, Gabriel Antoja defende, numa entrevista por email ao PÚBLICO, que “os profissionais de saúde vão envolver-se” cada vez mais “para melhorar a experiência do doente”.

O investigador da Universidade de Navarra explica que os dados para o seu estudo foram recolhidos entre 2013 e 2015, tendo como base entrevistas e questionários a vários profissionais do sector. Depois, o trabalho teve como ponto de partida a realidade de dois hospitais concretos, que foram escolhidos por serem uma referência na área: o Hospital Universitário Karolinska, na Suécia, e o Hospital Clínico de Barcelona, em Espanha. O objectivo foi antecipar uma fotografia do que poderá ser um hospital universitário europeu já em 2030.

“Médicos-engenheiros”

“Nos próximos dez anos, veremos como as barreiras entre as especialidades vão esfumar-se graças ao uso de novas tecnologias que permitem, por exemplo, que os cardiologistas possam realizar algumas intervenções sem precisar de um cirurgião”, adianta Gabriel Antoja.

O especialista antevê que “a organização do hospital incluirá equipas multidisciplinares que atenderão os doentes ao longo de todo o seu circuito assistencial, para eliminar barreiras entre departamentos do hospital”.

Uma das novidades está também no aparecimentos de novas profissões como os “médicos-engenheiros” e os chamados “conselheiros de genética”, que ajudarão a escolher quais dos novos exames ao nosso DNA podem ser úteis para actuar de forma preventiva. Os chamados “gestores de caso” vão ser uma figura fundamental, com a responsabilidade de coordenar o percurso do doente, do centro de saúde ao hospital.

O investigador da IESE ressalva que o trabalho não incluiu hospitais portugueses, mas considera que muitas das mudanças serão transversais às instituições europeias — ainda que a velocidades diferentes, já que “as mudanças nas organizações de saúde costumam ser lentas”.

No terreno, diz, já há sinais deste futuro próximo. “Há especialistas que já se deslocam habitualmente a outros centros para aproximar os cuidados dos doentes. Também já há hospitais que criaram centros para que as empresas possam desenvolver inovação tecnológica e serviços em estreita colaboração com o hospital.”

E como será a relação entre os hospitais e os centros de saúde? Para Antoja esta é uma das chaves para o sucesso da mudança rumo ao hospital do futuro.

A ideia é que não continue a haver uma divisão entre estes dois tipos de cuidados. “Os líderes clínicos dos hospitais trabalharão de forma próxima com os profissionais dos centros de saúde para redesenhar os circuitos”, diz. O papel do centro de saúde, defende, tem de deixar de ser apenas o de filtrar a chegada de doentes aos serviços de urgência. Os cuidados primários devem ser “uma ponte que facilite a entrada no hospital pela porta mais adequada”. As novas tecnologias, acredita o responsável do estudo, serão fundamentais neste processo.

As conclusões apontam no sentido de que os hospitais reduzam a sua dimensão no futuro. Questionado sobre o facto de em Portugal, nos últimos anos, o caminho ter sido no sentido de criar grandes centros hospitalares, Antoja alerta que um hospital mais pequeno não significa uma redução do edifício ou do número de profissionais. O que o investigador prevê é antes uma redução do número de camas e a capacidade de trabalhar em rede com outras unidades hospitalares, centros de saúde ou com o sector social.

Portugal no bom caminho?

O que pensam os administradores hospitalares, os médicos e os enfermeiros portugueses sobre estas mudanças? A Ordem dos Enfermeiros não respondeu ao PÚBLICO em tempo útil, mas do lado dos administradores e dos médicos há sobretudo a ideia de que o caminho para Portugal ainda é longo, apesar de já existirem bons exemplos.

Para o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, as instituições portuguesas têm já algumas das características das projecções da IESE para 2030. Por exemplo, o IPO do Porto já está organizado por doença/clínica, em vez de pelos tradicionais departamentos. E na Unidade Local de Saúde de Matosinhos há uma gestão comum de todas as camas.

O administrador hospitalar corrobora a ideia de Antoja de que os hospitais vão ter menos camas. “Vão redefinir-se, mas não necessariamente reduzir a sua dimensão. É expectável que aumentem o seu âmbito de actuação para o ambulatório e para a comunidade”, admite, lembrando que na cirurgia de ambulatório têm vindo a ser dados bastantes passos. No total, 60% das cirurgias já são feitas sem necessidade de internar os doentes.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, é menos optimista sobre o actual estado da saúde no país. Mais: diz que “Portugal não está no bom caminho para ter hospitais de excelência no futuro”.

O bastonário aponta como principais motivos a falta de investimento e a tendência dos últimos anos para “ centralizar cada vez mais os cuidados de saúde nos grandes hospitais públicos e privados”. Para o médico, uma verdadeira reforma implica mudar o conceito de hospital e não apostar apenas em centros de referência. “É essencial conceber hospitais mais diferenciados de média dimensão, sem serviços ou departamentos estanques, e em que a governação e gestão clínica seja o garante da qualidade da medicina praticada. Adicionalmente, esta rede de hospitais mais diferenciados, deve ser complementada por hospitais mais pequenos de proximidade”, defende.

Concretamente sobre os gestores de caso para cada doente, como propõe o estudo da IESE, o bastonário diz ter dúvidas. “Na minha opinião, os verdadeiros gestores do percurso dos doentes no sistema de saúde devem ser os médicos de família e, se existirem condições favoráveis, os médicos de medicina interna nos hospitais”, explica.

Já Alexandre Lourenço considera que este gestor — que pode ser “um médico, enfermeiro ou outro profissional de saúde” — é necessário, sobretudo para as situações de saúde mais complexas, como aquelas em que as pessoas têm ao mesmo tempo várias doenças crónicas.

Miguel Guimarães defende que a liderança das equipas de saúde seja “centrada nos médicos”, mas vê com bons olhos a ideia de uma carreira que vá no sentido de abranger algumas funções de gestão. Neste ponto em concreto, Alexandre Lourenço lembra que os hospitais são das maiores empresas do país, pelo que precisarão sempre de equipas “profissionais” e não apenas de “gestores curiosos, mal preparados ou em part-time.”

De todas as formas, o bastonário da Ordem dos Médicos insiste que Portugal só estará nesta corrida em direcção ao futuro se for capaz de resolver o mais básico, como reforçar os centros de saúde e hospitais com mais profissionais e meios técnicos.

Quando se fala daquilo que o Serviço Nacional de Saúde já tem de positivo, o bastonário destaca a formação médica como “a jóia da coroa”. “Temos excelentes médicos e outros profissionais de saúde, que conseguem manter um bom nível de qualidade, apesar das más condições de trabalho que afectam muitos hospitais portugueses.”

Como será em 2030, em sete pontos

- Os hospitais universitários vão ser mais pequenos e focados nos cuidados de saúde complexos. Isso não significa uma redução dos edifícios ou do número de profissionais, mas sim um corte no número de camas.

- Os limites rígidos entre os vários departamentos médicos vão ser eliminados, para facilitar a partilha de recursos e circulação dos doentes.

- Os procedimentos de rotina, como algumas consultas e exames programados, devem passar a ser feitos nas clínicas e hospitais mais próximos dos doentes, reduzindo-se os custos.

- A partilha de conhecimentos em rede, facilitada pelas tecnologias, é fundamental para aproximar os grandes hospitais dos mais pequenos e das clínicas.

- Os chamados gestores de caso vão ser uma figura fundamental, com a responsabilidade de coordenar o percurso do doente em todo o sistema, desde o centro de saúde ao hospital.

- A estrutura de gestão hospitalar deve contar com elementos de todos os grupos profissionais que trabalham no hospital. Para isso, médicos e outros colaboradores devem receber formação específica em gestão e comunicação.

- Devem ser criadas novas carreiras dentro dos hospitais que permitam que os profissionais de saúde possam progredir para funções de gestão.