Estudos indicam que partilhas nas redes sociais validam notícias falsas

A fonte original de uma notícia interessa menos do que quem a partilha, de acordo com o resultado de duas investigações.

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A autoria de uma publicação nas redes sociais importa mais do que a fonte original Reuters/BECK DIEFENBACH

Nas redes sociais, o autor e o número de partilhas de publicações com links para notícias é o que mais interessa. A fonte original da informação tende a ser ignorada se uma figura conhecida (por exemplo, uma apresentadora de televisão) partilha o conteúdo, tal como acontece quando este é partilhado por muitos utilizadores. São as conclusões de dois estudos diferentes sobre redes sociais – um analisou o Twitter, o outro baseou-se no Facebook – divulgados esta semana.

De entre os 1489 participantes norte-americanos de uma experiência do Media Insight Project, 51% deram credibilidade a uma notícia que parecia ser partilhada por uma figura pública numa rede social fictícia baseada no Facebook. Os participantes tinham de avaliar a credibilidade de uma publicação com um link para uma notícia com o título “Não se deixe enganar pela balança: motivos que o podem levar a ter diabetes”. Variava o nome do utilizador que fazia a partilha (com a frase “Veja isto…” seguida de uma hiperligação) e a fonte original. Metade via notícias atribuídas à agência de notícias Associated Press, e a outra a um site inventado. Além disso, 50% das publicações eram atribuídas a uma figura pública conhecida como a Oprah, enquanto as restantes vinham de um utilizador de nome desconhecido (não se testaram publicações partilhadas por amigos ou familiares dos participantes).

Embora as conclusões mostrem que a autoria da publicação numa rede social importa, o que mais preocupa os autores do estudo é que apenas 20% dos participantes se lembrava da fonte original: ou seja, o destino do link partilhado. “O Facebook e as outras redes sociais podiam dar mais ênfase e informação sobre as fontes originais dos artigos noticiosos”, escrevem os autores do estudo. “Esta experiência confirma que as pessoas não distinguem entre fontes conhecidas ou desconhecidas (até inventadas) na altura de confirmar e partilhar informação."

Outra investigação, desta vez focada no Twitter, revela que o número de partilhas de uma publicação também influencia a sua credibilidade. Dois investigadores da Universidade de Handong e da Universidade de CHA, na Coreia do Sul, lançaram um inquérito online – a que responderam 639 utilizadores – a pedir para analisar a credibilidade de duas publicações diferentes naquela rede social. Uma partilhava uma história sobre água mineral contaminada e outra sobre um assaltante disfarçado de polícia.

Independentemente da forma como a publicação era apresentada (descrita como notícia ou rumor), o factor mais importante era a sua popularidade. “[As] normas descritivas (isto é, o número de retweets) podem ter um efeito forte na intenção de partilhar uma mensagem quando a sua veracidade é incerta,” concluem os autores. Admitem, porém, que o estudo tem limitações: “Há a possibilidade de que a intenção dos participantes partilharem um tweet seja influenciada pelo tópico da publicação." Dada a grande heterogeneidade das redes sociais, o mesmo tweet pode provocar reacções muito diferentes em diferentes grupos.

Tanto o estudo norte-americano como o sul-coreano surgem numa altura em que as redes sociais assumem um papel cada vez um papel mais importante no jornalismo. Em meados de 2016 o Instituto Reuters revelou que metade dos utilizadores da Internet encontra notícias através do Facebook e outras redes sociais. Desde o final do ano passado, foram lançadas várias iniciativas (pelos governos e próprias redes sociais) para combater as notícias falsas divulgadas nestas redes: o Facebook passou a colaborar com equipas de verificação de factos para colocar avisos em artigos de veracidade duvidosa, e o Google lançou a ferramenta Cross Check para assegurar a qualidade da informação online. Na semana passada, o Governo alemão apresentou uma proposta de lei que prevê multas até 50 milhões de euros contra as redes sociais que não previnam a partilha de discurso de ódio e de notícias falsas.