Francisco e Jacinta, de pastores analfabetos a santos da Igreja Católica

Aprovação do Papa era o passo que faltava para a canonização. O dia e o local da respectiva cerimónia ficarão decididos a 20 de Abril.

Os três pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta
Os três pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta CORTESIA SANTUÁRIO DE FÁTIMA
Reuters/ALESSANDRO BIANCHI
Fotogaleria

Francisco Marto usava carapuço na cabeça e jaleca curta. Nas raras fotografias da época, em que aparece de cajado e saco de farnel ao pescoço, Jacinta Marto, dois anos mais nova, mostra-se de sobrolho franzido, mão na cintura. Os dois irmãos (que, ao contrário da prima Lúcia, morreram ainda crianças, vítimas da gripe espanhola) viram nesta quinta-feira confirmado pelo Papa Francisco o milagre que abre caminho à sua canonização.

Em causa está a cura de uma criança brasileira, segundo confirmou ao PÚBLICO a postuladora da causa da canonização, a irmã Ângela Coelho, sem adiantar mais pormenores sobre o caso, sequer se a criança padecia de um cancro, como chegou a ser veiculado. “É preciso respeitar a privacidade da pessoa, mais ainda porque se trata de uma criança”, justificou. O certo é que, segundo os trâmites da Igreja Católica relativos à canonização dos seus membros, a recuperação terá de ser considerada inexplicável à luz do conhecimento científico.

Foi, de resto, o que aconteceu com o primeiro milagre que sustentou a beatificação dos dois videntes, há 17 anos. Maria Emília dos Santos sofria de paralisia há 22 anos, quando, em 1987, recomeçou a andar por via daquilo que acreditou ter sido a intercepção dos pastorinhos Francisco e Jacinta, de quem era devota. Antes do reconhecimento formal do milagre, a mulher teve de passar vários dias em Roma, onde foi examinada por vários médicos. “Iam-me tirando a pele com tantos exames”, relatou ao PÚBLICO, em 1999, um ano antes de João Paulo II ter confirmado a beatificação das duas crianças, que descreveu como “duas candeias que Deus acendeu para alumiar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas”.

Pobres e analfabetos, Francisco e Jacinta tinham nove e sete anos de idade quando, juntamente com a prima de ambos, Lúcia Rosa de Jesus, com 10 anos, terão presenciado uma aparição da Virgem Maria, vestida de branco sobre uma azinheira, no lugar da Cova da Iria, onde as três crianças costumavam pastorear o rebanho da família. A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. As crianças foram detidas, interrogadas, induzidas a cumprir longos períodos de fome, sede e penitências. O facto de terem mantido que a visão era de Nossa Senhora que prometera voltar àquele local durante os dias 13 dos meses seguintes e que lhes terá pedido que construíssem uma capela e quer rezassem e que a guerra em breve terminaria era o bálsamo de que a Igreja católica e os crentes precisavam para fazer frente a um país analfabeto, esfomeado e ainda a digerir o choque psicológico da guerra, a sanha anti clericalista dos republicanos e a ameaça bolchevique na Rússia.

Ao contrário de Lúcia, que viveu em clausura até aos 97 anos de idade, Francisco e Jacinta morreram crianças. Fragilizados pelas privações com que se propuseram “expiar” os pecados do mundo, adoeceram quase em simultâneo com gripe pneumónica, que terá vitimado mais de 40 milhões de pessoas entre 1918 e 1919. Francisco morreu em casa após cinco meses de agonia, em Abril de 1919. Jacinta ainda chegou a ser internada, e a cama de hospital onde esteve tornou-se ela própria local de peregrinação, mas acabou por morrer também no ano seguinte.

São “as crianças de Fátima”, como descreve o boletim diário da sala de imprensa do Vaticano, onde se lê que a aprovação papal ao milagre atribuído a Francisco e Jacinta foi dado por Jorge Bergoglio, no decurso da audiência que este manteve com o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação das Causas dos Santos.

A data e o local para a cerimónia de canonização vão ser decididos no dia 20 de Abril, data do próximo consistório (reunião de cardeais). A questão está agora em saber se a escolha coincidirá com a visita do Papa Francisco a Portugal, nos próximos dias 12 e 13 de Maio, para assinalar o centenário das Aparições. "Uma vez que o Papa vem como peregrino ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, pode fazê-lo na Cova da Iria. Seria um momento muito especial se for em Fátima", declarou a irmã Ângela Coelho. Em declarações publicadas no site do Santuário de Fátima, o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, confessou-se “apanhado de surpresa” pela notícia, que recebeu através de um sms, e lembrou que cabe ao Papa escolher a data e o local da canonização. Poderá ser em Fátima? “Nada é impossível, mas é competência exclusiva do Papa”, respondeu.