Nascer num país e jogar por outro

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Pepe abraçado por Rui Patrício Reuters/Darren Staples

O futebol tem exemplos quase infinitos de jogadores que, tendo nascido num país, optaram por representar a selecção de outro a nível internacional. As razões são diversas: há aqueles que o fazem devido aos anos de permanência no segundo país e à identificação com o povo e a cultura — como é o caso do português Zeca, que no sábado deverá estrear-se pela selecção da Grécia (ver entrevista ao lado) — até aos que simplesmente aproveitam a oportunidade de concretizar o sonho de jogar um torneio internacional.

Na história da selecção portuguesa há seis casos de futebolistas naturalizados, o mais duradouro dos quais é o brasileiro Pepe: estreou-se em 2007 e deverá no sábado, frente à Hungria, cumprir a 82.ª internacionalização (o que faz dele o 11.º jogador com mais jogos pela equipa nacional), num percurso que inclui três Campeonatos Europeus e dois Campeonatos do Mundo. Deco (75 jogos e cinco golos) e Liedson (15 jogos e quatro golos) são outros naturalizados no passado recente da selecção. Os brasileiros Celso (três jogos na década de 1970) e Lúcio (cinco jogos na década de 1960) e o sul-africano David Júlio (quatro jogos na década de 1960) completam o lote de futebolistas estrangeiros a envergar as cores de Portugal.

As escolhas de Fernando Santos para as partidas com Hungria e Suécia integram vários jogadores nascidos fora do país, incluindo um cuja carreira foi inteiramente feita longe de Portugal: Raphaël Guerreiro, filho de pai português e mãe francesa, nasceu em França onde sempre jogou, até esta época ter-se mudado para o Borussia Dortmund.

Casos como o de Zeca, nascido em Portugal e que optou por representar outra selecção, não são frequentes. Bruno Martins Indi nasceu no Barreiro, filho de pais guineenses, mas ainda era bebé quando a família se mudou para a Holanda. Por isso, o central que representa o Stoke City por empréstimo do FC Porto defende as cores da selecção holandesa.

Dos mais célebres aos mais obscuros, há naturalizados para todos os gostos no futebol. O melhor marcador da história dos Mundiais é um deles: Miroslav Klose (16 golos em quatro fases finais e o título em 2014) nasceu na Polónia mas representou a selecção alemã. Nascido no Rio de Janeiro, Eduardo da Silva iniciou a carreira sénior na Croácia e os dotes de goleador levaram ao convite para representar a selecção. Estreou-se em 2004, com 21 anos, mas não seria convocado para o Mundial 2006. Uma perna partida deixou-o fora do Euro 2008 e a sua carreira não voltaria a ser a mesma: ainda esteve no Euro 2012 e no Mundial 2014, mas sem marcar qualquer golo.

Por razões óbvias, muitos brasileiros decidem representar outras selecções. “ É um país muito grande, surgem jogadores a todo o momento. Se perdes uma oportunidade não voltas a ter outra”, explicou ao PÚBLICO o guarda-redes Nilson, actualmente ao serviço do União da Madeira, e que em 2011 esteve perto de representar a selecção do Burkina Faso. “Com 35 anos já não tinha a esperança de jogar pela selecção brasileira. Eu estava no V. Guimarães e o Paulo Duarte era o treinador do Burkina Faso. Ele precisava de um guarda-redes, entrou em contacto com o Neno e chegou até mim. A escolha não foi difícil”, recordou.

“Foi tudo muito rápido. Mesmo muito rápido. Quando cheguei lá, já tinha o passaporte”, resumiu Nilson. “Estive dez ou 12 dias em estágio com o Burkina Faso. Não cheguei a fazer nenhum jogo porque a possível convocatória para a Taça das Nações Africanas começou a gerar constrangimento no V. Guimarães, o clube que me pagava. Não podia abrir mão do clube para representar um país que nem era o meu de origem”, acrescentou o guarda-redes.

Os adeptos nem sempre compreendem as opções dos futebolistas. No Mundial 2014, realizado no Brasil, o brasileiro Diego Costa, naturalizado espanhol, foi vaiado nos estádios onde jogou. “Estava ciente de que isso poderia acontecer. Estou tranquilo”, afirmou na altura o avançado. Nilson concorda: “Isso é o lado emocional dos adeptos. Será que só se lembraram dele porque souberam que a federação espanhola tinha aceitado naturalizá-lo? As pessoas não pensam nisso. Ele quis servir um país que o abraçou, onde estava a ser feliz. É uma sensação estranha, saber que pertences a um país e estares ali a representar outro. Mas, ao mesmo tempo, é uma questão de oportunidade. Compreendo os que não aceitam e os que aceitam.”