Into the Badlands: filmar uma série de artes marciais é “pintar um quadro num incêndio”

Ver em acção Master DeeDee, o coreógrafo de artes marciais de O Tigre e o Dragão e Kill Bill, ou esperar por Ivo Canelas no regresso da série do AMC.

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Master DeeDee está constantemente a dar indicações aos actores e figurantes AMC
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Os arneses e as gruas são heróis invisíveis das filmagens AMC
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Os actores passam por um "campo de treinos" antes da rodagem AMC
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“Ter um protagonista asiático-americano não devia ser espectacular, mas é”, diz Aramis Knight AMC
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Into the Badlands estreia-se na televisão portuguesa esta quinta-feira AMC
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A produção da série mudou-se para a Irlanda, onde os custos serão mais baixos e a variedade de cenários é abundante AMC
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O italiano Giovanni Lipari coordena a equipa que desenha os figurinos “retrofuturistas” da série AMC
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Esta temporada terá dez episódios AMC

A Irlanda não é o sítio onde pensaríamos encontrar uma intrincada cena de artes marciais. Mas cá estamos, nos arredores de Dublin, com cada puxar de catana metodicamente encenado e repetido até ter a velocidade certa para Master DeeDee parar de atirar gritos de uma só palavra. “Stronger!” “No!” “Faster!” Master DeeDee é o coordenador de artes marciais de Into the Badlands, a única série das muitas séries de nicho a dedicar-se a este segmento de lutas elegantes, e, embora os seus repentes sejam recebidos com muitos sorrisos, a sua palavra é lei. Os bailados violentos de O Tigre e o Dragão, Kill Bill I e II e mil filmes de Jet Li pertencem-lhe; a equipa que filma num gélido armazém também.

Novembro, zero graus, e uma adega portuária tão bem recriada nos Ardmore Studios que quase cheira a álcool embebido nas madeiras. A espada japonesa sai das costas de um actor e Master DeeDee sai a correr para ele. Dá instruções em mandarim ao assistente e explica com pormenor a arte de sacar de uma espada no timing certo. Exemplifica. “Demasiado!” quando a inclinação da catana se altera. Vai lá outra vez, no meio dos carros e dos actores com figurinos das mesmas cores que indicam a que “barões” ficcionais são fiéis. Faz rodopiar a espada na mão como se tivesse o peso de um graveto e com a leveza de um jogador que faz truques com uma bola de basquetebol.

Este é um ensaio a meia velocidade de uma cena do oitavo de dez episódios da segunda temporada da série do AMC, que se estreia na próxima quinta-feira, 23, em Portugal. Não foi um êxito retumbante na primeira temporada (seis episódios), mas duas ideias a guiaram — o seu potencial e a excelência das cenas de luta. Afinal, como diz o jovem actor Aramis Knight, “o valor de produção da unidade de luta [da série] é algo que nenhuma outra série tem”.

Aramis Knight é o protagonista de 17 anos, o místico MK numa série passada num futuro pós-apocalíptico, claro, mas que desta vez quis menos Mad Max e mais plantações coloniais do Sul americano na sua atmosfera. Porém, mudou-se para um dos novos destinos coqueluche de filmagens mais em conta e com equipas experientes, a Irlanda, deixando a Louisiana. A história também se expandiu das Badlands para “os territórios externos”, como explica Stephen Daily, designer de produção, ao grupo de jornalistas que recebeu numa falsa estufa colonial, um conservatório de janelões e ambiente quase sul-americano e realista, mas que é tão falso quanto a luz do sol que parece iluminar-nos.

É essa a sua mestria, e a da sua equipa, para criar “um mundo colorido e visualmente arrojado”. “Embora seja 500 anos no futuro, não queremos que seja ficção científica classicamente cinzenta. Queremos referenciar-nos aos filmes de artes marciais japoneses dos anos 1960”, explica, contente por mais uma série de monta num país com “boa reputação” que acolhe Vikings, Penny Dreadful, ou, como especifica orgulhosamente, A Guerra dos Tronos em Belfast, na vizinha Irlanda do Norte.

Agora estão por cá os chineses, americanos, ingleses e irlandeses de Into the Badlands, com o realizador espanhol Paco Cabezas e o actor português Ivo Canelas à mistura. Canelas, um dos barões, não estava nas filmagens em Novembro, mas Cabezas sim. Era fã da série, já teve uma experiência Hollywood com O sr. Perfeito, com a Netflix, com Dirk Gently e com a Showtime, com Penny Dreadful. Mais tarde, ao jantar, vibra à conversa como espectador de Westworld, a recente série da HBO. Descreve-se como “um freak” que consumia aquilo que o tornava “estranho” e afinal foi formação para os nichos que agora são quase mainstream. É eléctrico e está encantado por partilhar a realização com Stephen Fung, o realizador das cenas de acção da série, um homem alto e esguio sempre ao lado de Master DeeDee. “Stephen trabalhou com Jet Li e com Master DeeDee e eu sou o contraponto. Procuro dar mais peso às interpretações e mais drama à série. E sem esquecer o seu tom pulp”, responde ao PÚBLICO já nos Kilternin Studios, outro pólo da série nos arredores da capital irlandesa. “Rodar com gente da fábrica de Hong Kong é muito divertido, é um método tão diferente do europeu.”

Como já se percebeu a esta altura, Master DeeDee é um homem de poucas palavras e que não fala aos jornalistas. Mas os outros falam dele. Ally Ioannides, a jovem Tilda na série, outra lutadora que emerge nas rixas de grupos entre as Badlands, junta-se a Knight, quando ouvem o PÚBLICO perguntar sobre o método de trabalho do mestre do kung fu, aliás, Huan-Chiu Ku, que até já foi duplo da estrela chinesa das artes marciais Jet Li. Reagem com risos. “DeeDee é louco”, diz a actriz, semi-incrédula, no andar de cima de um autocarro double-decker antigo que serve de cantina à equipa. “Nunca comete um erro”, recompõe-se. “Tudo o que DeeDee faz com uma arma é incrível”, maravilha-se, por seu turno, Aramis Knight, que treina com ele e Fung nas semanas anteriores à rodagem. “Ver o processo dele é espantoso, é diferente de tudo o que vi com qualquer outro realizador. No início das lutas põe sempre a mão no queixo e vemos a engrenagem a trabalhar e no fim isso torna-se numa coreografia espantosa.”

Aramis Knight, na série, tem um poder misterioso e uma figura masculina mais velha com quem se relacionar. Trata-se da estrela maior de Into the Badlands, Daniel Wu, protegido de Jackie Chan e uma das coisas que faz a série distinguir-se para Ally Ioannides —  porque “ter um protagonista asiático-americano não devia ser espectacular, mas é”. O outro elemento distintivo da série, num momento tão pleno na oferta televisiva, é que Badlands “não se baseia em nada”. “Muitos dos dramas de uma hora actualmente são remakes ou baseados numa série de livros, ou são um spin-off, mas na nossa série podemos fazer o que queremos. Dá-nos tanto poder para sermos criativos e seguirmos o caminho que quisermos”, diz a actriz sobre o facto de esta ser uma criação original de Alfred Gough e Miles Millar (Smallville).

Trabalha-se seis meses por ano nesta série, entre a pré-produção, a filmagem e a pós-produção. Há equipas que trabalham antes e durante a rodagem, como é o caso dos figurinos. O italiano Giovanni Lipari coordena o guarda-roupa “retrofuturista” e tem na equipa quem tenha trabalhado com Federico Fellini ou quem se inspire na última edição da Vogue britânica. Nas salas dos adereços, uma arca do tesouro de sabres falsos e animais explodidos, a casa de banho serve de despensa para cadáveres de borracha tamanho real — para sustos igualmente reais. Ao longo do dia, explicam-nos que a série se divide quase irmamente em duas equipas e que a unidade de drama terá cerca de 60 pessoas, número que sobe quando há muitos figurantes, e que a unidade de lutas tem uma equipa de cerca de 40 pessoas. Por vezes trabalham em simultâneo e se, em média, são necessários cinco dias para filmar uma cena de luta, lembram-se de uma que durou nove dias a gravar.

Master Deedee está sempre a mexer-se num cenário onde abundam tanto espadas e arneses quanto sprays anticongelantes para salvar as câmaras do frio. O seu olhar não hesita, tem a precisão do que sabe que se deve fazer num combate marcial já embutido. Ao almoço, dança e saltita quando a chuva ameaça voltar, e muitos membros da equipa surpreendem-se com ele e o seu cabelo farto em espanador. Está na hora de voltar para dentro. Mais umas horas para uma parte de uma cena de minutos na televisão. Realizar na TV “é pintar um quadro durante um incêndio”, dispara Paco Cabezas. “Tudo o que fazemos em televisão é um milagre.”

O PÚBLICO viajou a convite do AMC

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