Um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, um minuto de ruído contra o terror na Europa

Na capital belga, assinalou-se hoje o primeiro aniversários dos atentados terroristas que mataram 32 pessoas.

Presidente português depositou uma coroa de flores no novo momumento às vítimas do terrorismo de Bruxelas
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Presidente português depositou uma coroa de flores no novo momumento às vítimas do terrorismo de Bruxelas LUSA/OLIVIER HOSLET

Bruxelas assinalou, primeiro com um minuto de silêncio, e depois com um minuto de ruído, o aniversário dos ataques coordenados e reivindicados pelo Daesh que fizeram 32 mortos e mais de 300 feridos. Às 7h58, a hora a que (há um ano) explodiu a primeira bomba no átrio das partidas do aeroporto de Zaventem, todas as operações foram suspensas durante um minuto, em homenagem às vítimas; na estação de Maalbeek, às mesmas 9h11 em que detonou a segunda bomba, ouviu-se um gigantesco aplauso, que se prolongou por toda a rede de metropolitano – enquanto na rua, os automóveis buzinavam e todas as sirenes disparavam, numa “afirmação de vida” contra o terror.

Em palavras que, horas mais tarde, soariam premonitórias, o presidente da câmara de Bruxelas, Yvan Mayor, elogiou a resposta ao terror que tomou conta da capital da Europa . “Temos de continuar a viver, temos que mostrar como o nosso modo de vida não mudou, nem os nossos valores, nem a nossa civilização. Isso é o mais importante”, afirmou. A mensagem ecoou ao início da tarde em Londres, onde as autoridades repetiam uma mensagem semelhante aos cidadãos aturdidos por mais um ataque designado como terrorista, junto ao Parlamento britânico. “Não temos medo”, lia-se na conta do Twitter da Scotland Yard.

“Agradecemos ao público pela sua colaboração e apelamos a que mantenham a calma e permaneçam alerta e vigilantes”, recomendaram as forças de segurança enquanto o centro de Londres entrava em modo de crise. É um estado que, apesar das palavras do autarca belga, faz parte da nova normalidade da cidade de Bruxelas, que depois dos atentados de 22 de Março vive sob alerta permanente, com todos os meios accionados para responder a uma ameaça “séria” de ataque (provável mas não iminente): há vigilância activa, com soldados armados a patrulhar os principais pontos turísticos e outros locais “sensíveis”, e outras acções aleatórias de reforço de segurança.

Ainda assim, a nova realidade securitária foi relegada para segundo plano durante as cerimónias que assinalaram o primeiro aniversário dos ataques, onde foi o lado mais emotivo que sobressaiu nos vários discursos oficiais e nas iniciativas que evocavam a dignidade e resiliência dos cidadãos depois dos ataques. “Feridos mas de pé perante o impensável”, como chamou o escultor Jean-Henri Compère à sua peça composta em aço com 20 metros de comprimento e dois metros de altura e que é o mais recente monumento da capital belga – onde o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deixou uma coroa de flores em solidariedade com todas as vítimas de “atentados contra a liberdade, a paz, a democracia e a fraternidade, na Europa e no mundo”. “Acompanhamos a dor dos nossos irmãos belgas e muitos outros, de muitas nacionalidades, que aqui morreram ou foram feridos”, declarou o Presidente português.

O rei Filipe da Bélgica, que marcou presença em todas as cerimónias, ao lado do primeiro-ministro Charles Michel e de altos dignitários europeus, falou na necessidade de união e reconciliação, e desafiou o mundo a manifestar carinho e ternura e a rejeitar o ódio e a divisão. “É responsabilidade de cada um de nós contribuir para uma sociedade mais humana e mais justa. Vamos aprender a ouvir-nos uns aos outros outra vez, a respeitar as nossas fraquezas. Acima de tudo, vamos deixar de ter medo de ser afectuosos”, pediu. As palavras de muitas das vítimas foram no mesmo sentido, com declarações de solidariedade e de esperança. “Num segundo, a vida mudou. Nesse dia vi o pior mas também o melhor da humanidade”,

No dia de aniversário, não se ouviram as críticas e acusações dos belgas à alegada inacção e ineficácia do seu Governo face à ameaça terrorista, nem as reclamações dos familiares das vítimas que ainda esperam indemnizações depois dos ataques. Pouco se falou, também, das investigações que ainda prosseguem: as autoridades detiveram 59 pessoas, o último dos quais em Janeiro (um homem suspeito de ter fornecido os documentos falsos usados por um dos três bombistas suicidas).

No bairro de Molenbeek, muitas vezes designado como o berço do jihadismo europeu, o sentimento de unidade e reconciliação não é para todos. “Aqui não pára de aumentar o número de jovens que aderem sem complexos a discursos radicais. A sua desesperança torna-os cada vez mais receptivos a teorias da conspiração, e faz deles candidatos perfeitos para os recrutadores”, avisava no início deste mês, Olivier Vanderhaegen, um dos responsáveis pelas acções anti-radicalização daquele município, citado pelo jornal El País.