Estarão os tweets de Trump a impedir algumas equipas de contratar este jogador?

Colin Kaepernick, quarterback dos San Francisco 49ers, está sem equipa agora que acabou a época da Liga de Futebol Americana (NFL). Parte da razão podem ser os tweets do Presidente dos EUA.

Colin Kaepernick não se levantou pelo hino nacional pela primeira vez em Agosto de 2016
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Colin Kaepernick não se levantou pelo hino nacional pela primeira vez em Agosto de 2016 Reuters/© USA Today Sports / Reuters

Desde 10 de Março, dia em que os jogadores da principal liga de futebol americano (NFL, na sigla inglesa) se tornaram livres para assinar por qualquer equipa (“free agent”), Colin Kaepernick ainda não conseguiu encontrar uma nova equipa, depois de sair dos San Francisco 49ers. Na segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferiu comentários que visaram o jogador americano, citando um artigo em que é dito que Kaepernick ainda não foi contratado porque as equipas têm medo das reacções dos adeptos e dos tweets de Trump, depois de o quarterback dos 49ers, na pré-época de 2016 da NFL, ter decidido protestar contra as injustiças que as minorias sofrem na América.

“Hoje saiu um artigo que continha informação de que donos na NFL não querem contratá-lo porque não querem ser alvos de um tweet desagradável de Donald Trump. Acreditam nisso?”, perguntou Trump à plateia, durante seu comício em Louisville (a partir do minuto 38:55), no estado do Kentucky.

Trump disse que iria falar do artigo “às pessoas do Kentucky”, porque estas “gostam quando as pessoas realmente se levantam pela bandeira americana”.

Em Agosto de 2016, num jogo de pré-época dos San Francisco 49ers, Colin Kaepernick aproveitou o momento do hino nacional para se sentar.  Em declarações à imprensa, em que falou de pessoas que “foram mortas pelo país por que lutaram”, o quarterback explicou: “É para chamar à atenção e para as pessoas perceberem o que se passa neste país. Há muitas coisas a acontecer que são injustas e pelas quais pessoas não estão a ser responsabilizadas. E isso é algo que precisa de mudar. Este país representa liberdade e justiça para todos, e isso não está a acontecer agora”. Abandonado pelos pais biológicos e adoptado por Rick e Teresa Kaepernick, o quarterback disse que já “houve situações” em que foi tratado de forma diferente e que o seu protesto iria continuar até existir mudanças.

“Não me vou levantar para mostrar orgulho por uma bandeira de um país que oprime negros e pessoas de cor” disse Kaepernick, que afirmou ainda que os problemas são “maiores que o futebol [americano]”.

A decisão de Kaepernick motivou respostas de todo o tipo. Donald Trump, a quem Kapernick chamou “racista”, considerou que não era “uma coisa boa”. “Acho que é uma coisa terrível. E talvez ele devesse procurar um país que se ajustasse melhor a ele. Deixem-no tentar. Não vai acontecer”, disse o Presidente americano no Dori Monson Show, um programa de rádio.

Os 49ers lançaram um comunicado a apoiar a decisão do seu jogador: “O hino nacional é e sempre será uma parte especial da preparação dos jogos. É uma oportunidade para honrar o nosso país e reflectir nas nossas grandes liberdades enquanto seus cidadãos. Ao respeitar princípios americanos como orientação religiosa e liberdade de expressão, reconhecemos o direito de alguém escolher participar, ou não, na nossa celebração do hino nacional”.

Em relação à actual situação de desempregado de Kaepernick, Spike Lee, cineasta negro que costuma fazer comentários públicos contra injustiças que envolvem afro-americanos, pôs uma mensagem no Instagram em que interrogava: “Como é que existem 32 equipas na NFL e o Kap ainda é um agente livre? WTF [‘What the fuck]. Parece-me suspeito”.

O comentador Dieter Kurtenbach, no site da Fox Sports, disse que “não há uma conspiração contra Kaepernick”. “Ele é só um mau quarterback. E os maus quarterbacks não têm abébias”.

Mas será que Kaepernick é mesmo um mau quarterback? Afinal, em 2013, o jogador dos 49ers levou a sua equipa à final da BFL, o Super Bowl, onde conquistou 302 jardas e um touchdown na derrota 34-31 frente aos Baltimore Ravens. Motivado por este facto e pelo tempo que Kaepernick está desempregado, o autor do artigo que Trump citou na segunda-feira, que o Washington Post acredita ser o do Bleacher Report, foi à procura de explicações.

Mike Freeman recebeu a seguinte resposta de um director-geral da American Football Conference (AFC – uma das duas conferências da NFL): “Três coisas estão a acontecer com ele”.

Um: “Mais ou menos 20% das equipas” consideram que ele está acabado

Dois: Algumas equipas receiam que, depois de contratar Kaepernick, vão ser alvo de protestos e de tweets de Donald Trump. O director-geral da AFC acha que isto se aplica a apenas 10% das equipas da liga, percentagem não mencionada pelo Presidente dos EUA no comício em Louisville.

Três: Kaepernick não é contratado porque o resto das equipas “odeiam” o jogador dos 49ers. “Elas não querem ter nada a ver com ele. Querem seguir em frente. Acham que não mostrar interesse é uma forma de castigo. Acho que algumas equipas querem usar Kaepernick como um exemplo para outros jogadores no futuro não fazerem o que ele fez”, disse o director-geral.

Mike Freeman traz à luz do dia algumas estatísticas da carreira de Colin Kaepernick na NFL. Antes da Super Bowl 47, nos quartos-de-final contra os Green Bay Packers, o quarterback estabeleceu um recorde nos play-offs de 181 jardas corridas e dois touchdowns.

Depois de uma época inteira a protestar, Colin Kaepernick acha que a sua mensagem terá passado e vai levantar-se durante o hino na próxima época, noticiou Adam Schefter, da ESPN, citado no Chicago Tribune, antes de se saber que o jogador ia sair dos San Francisco 49ers. 

Antes, porém, de voltar a ser um jogador que ouve o hino como todos os outros, Kaepernick precisa de encontrar uma equipa.

Texto editado por Hugo Daniel Sousa