Os pesadelos ficam bonitos em palco

O que a imaginação fabrica quando está escuro dava muitas histórias. Nocturno, o novo espectáculo de Victor Hugo Pontes e Joana Gama, pega em algumas delas e leva-as para o São Luiz.

ESTELLE VALENTE
ESTELLE VALENTE
ESTELLE VALENTE
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O palco está escuro. Ao fundo, acende-se a luz ofuscante de uma lanterna. Com a mão a proteger os olhos, o público vê um manto gigante a começar a mexer-se. Primeiro devagar, depois acelerando mais e mais e mais até que quando a música atinge o pico o manto gigante engole a lanterna.

Nocturno, a nova criação do coreógrafo e encenador Victor Hugo Pontes e da pianista Joana Gama, é a interpretação de mil e uma noites. Na cidade, na aldeia, debaixo dos cobertores ou a divagar com insónias, num mar calmo das Caraíbas ou numa tempestade avassaladora. Sempre debaixo das estrelas, com sons que mudam consoante os cenários sempre escuros e com um protagonista (Paulo Mota) que parte para as aventuras de pijama. No palco, vão surgindo os objectos que nos assombram, um a um, até ficarem todos à mostra, sem que os possamos ignorar. O cabide com o casaco que parece uma pessoa. As aranhas que descem lentamente do tecto. O esqueleto que sai a dançar do armário.

O espectáculo, tal como o imaginário, também se faz muito dos sons. A sonoplastia de Suse Ribeiro transporta para o real; a banda sonora de João Godinho, interpretada ao vivo por Joana Gama, transporta para o místico. O próprio nome da peça, Nocturno, partiu também de uma comparação com os nocturnos do período romântico, composições musicais melancólicas e, claro, inspiradas na noite.

Tudo se passa debaixo daquela manta gigante. A cobertura parece a colcha de uma cama, mas no palco é como se formasse a imagem das montanhas cheias de luzinhas que não passam de pontinhos quando vamos na auto-estrada, mesmo antes do anoitecer. Depois de o sol se pôr, só se vê o que se imagina.

Um medo miudinho

“Mas afinal, o quê que se passa à noite?”.

Foi esta pergunta que Victor Hugo Pontes e Joana Gama fizeram a alunos do 1º ciclo, “os verdadeiros especialistas”, na opinião dos dois criadores da peça, que acumulam também o papel de intérpretes. O objectivo era “explorar o imaginário infantil” e por isso o processo de envolvimento com o público começou ao contrário: em vez de as crianças “irem ver o espectáculo e depois escreverem uma composição, ou fazerem um desenho”, foi-lhes pedido que construíssem os quadros que serviriam de base à criação.

O resultado final foi “inesperado”. Victor e Joana foram apanhados de surpresa por imagens “cada vez mais tenebrosas” de facas, granadas, aranhas, criaturas assustadoras e até da morte, conta o encenador ao PÚBLICO no final de um ensaio em Guimarães, onde a equipa esteve em residência criativa.

A partir daí, o foco ficou claro: o palco ia encher-se do “negro” dos pesadelos, não do “delicodoce brilhante” dos sonhos, decidiram. Depois, regressaram às escolas e mostraram o que tinham. Através da reacção e da votação dos alunos começaram a construir a peça que “está em evolução” até à estreia, esta quarta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Nocturno segue depois para o Teatro Campo Alegre, no Porto (20 a 22 de Abril), e o Teatro Virgínia, em Torres Novas (28 e 29), e chega em Maio ao Centro de Arte de Ovar. A 20 e 21 de Outubro a peça será apresentada no Festival Big Bang, no Centro Cultural de Belém, de novo em Lisboa, onde a equipa espera captar a atenção de programadores internacionais.

Apesar de pensado para crianças, o espectáculo foi feito “para ser bom para todas as idades”: crianças ou adultos, “todos têm medo do desconhecido”, diz Joana Gama. Nocturno tem uma linha condutora, explica a pianista, mas junta várias narrativas que se atropelam antes de partir para a próxima cena, tal como nos pesadelos. Ao contrário das fábulas infantis, não traz uma moral; é apenas um ponto de partida abstracto e que só ganha sentido com a imaginação de quem vê. Porque toda a gente sonha de maneira diferente.

A ideia não é que o público mais novo saia assustado do teatro. Não é explorada a ideia da violência, mas as três personagens em palco envolvem-se numa teia que joga com o “sombrio” e que, apesar de não aterrorizar, cria um medo miudinho que acaba em risinhos nervosos. Afinal, foram eles a imaginar aquilo tudo.