Editorial

Aprender e ensinar

Na história ainda breve que tem para contar, a experiência dos novos tutores que começou neste ano lectivo vai emitindo sinais animadores. Mil e duzentos docentes receberam formação específica para uma nova missão de rosto humano e estes são os seus primeiros meses de confronto com a realidade.

Mais de 56.600 alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico reprovaram ou desistiram da escola no ano lectivo de 2014/15, somando os dados do Infoescolas do 5.º ao 9.º anos de escolaridade. É neste grupo que se encontrarão muitos dos alunos que foram dados como perdidos pelo sistema (que tenham pelo menos duas retenções no seu percurso escolar) e hoje estarão a ser acompanhados dentro de um modelo que foge à tutoria tradicional que visava no imediato pôr os alunos a estudar. O objectivo continua a ser o mesmo, mas de forma mais estrutural e, por isso, com mais razões para se esperarem resultados positivos.

Depois dos anos em que o caminho à vista para os alunos em risco era a desistência ou os cursos vocacionais, escutar professores que não falam de aulas, mas de momentos de “reflexão”, “análise”, “empatia”, “confiança”, “motivação”, “auto-estima” e “auto-exploração”, pode parecer poético. Mas o assunto é sério de mais se as percentagens de retenção e desistência forem convertidas em milhares de vidas com o legítimo direito a frequentarem uma escola em que possam aprender. E ensinar é cada vez mais do que estudo. É, para muitos, ajudar a crescer, a integrar, a prevenir.

Por detrás das histórias que se vão conhecendo, dois pontos parecem cruciais para que, chegado o final do ano lectivo, os resultados sejam mais do que uma renovação de boas intenções sobre tutores e tutorandos. São duas faces de uma mesma moeda, ligadas na sua essência. A primeira tem gravadas as direcções das escolas, que escolhem os professores. Muitos destes não terão vocação natural para este papel e não será uma formação especial que a vai fazer brotar de onde não existe. E uma escolha errada equivale a fazer mais estragos. Na outra face está a competência e perfil dos próprios professores para esta tarefa. Ser tutor de “crescimento” de um grupo de alunos está longe de ser uma forma de acrescentar horas ao seu currículo. São horas em que se “ensina” matéria mais decisiva. Tão decisiva que pode levar o tutor a repensar e questionar a sua prática, as suas certezas e os seus valores. Cresce-se aprendendo e cresce-se ensinando.