Análise

Não quero ser árbitro

Um dos jogos do ano, a nível internacional, foi aquele em que o Barcelona conseguiu a “remontada” frente ao PSG nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Foi um jogo para a história e com muitas histórias. Uma delas foi a arbitragem de Deniz Aytekin, internacional alemão, que não teve uma noite feliz. Os erros que cometeu tiveram inegável peso no desfecho da eliminatória. Consequência disso? Teve uma má avaliação que resulta num alegado afastamento do árbitro em causa dos restantes jogos da UEFA até final da época.

Em Portugal, adeptos, jornalistas, comentadores e dirigentes de clubes bateram palmas à decisão da UEFA. Não pela decisão em si, mas porque tal decisão serve para argumentar que os árbitros portugueses, quando têm uma má arbitragem nas competições nacionais, também deveriam ter “castigos pesados”.

Acredito que todas as opiniões são válidas. Particularmente aquelas que se baseiam em dados concretos.

Assim, relativamente a esta situação e de forma a contribuir para a formulação de uma opinião fundamentada, lanço alguns números sobre as diferenças entre o que é gerir árbitros numa federação nacional ou numa confederação.

A UEFA organizará até ao final da época pouco mais de vinte jogos. O Comité de Arbitragem tem cerca de 80 árbitros que poderá nomear para a gestão destas partidas (aqui apenas incluo os árbitros de topo: Elite e Grupo 1). Se em cada jogo estiver um árbitro diferente, ficarão cerca de 60 árbitros “na jarra”. Não por castigo, mas por excesso de recursos humanos.

Em Portugal faltam ainda disputar 72 jogos na I Liga e 99 jogos na II Liga. Para estes 171 jogos o Conselho de Arbitragem da FPF dispõe de 36 árbitros. Destes, 12 são árbitros em estágio na Liga e, por isso, apenas dirigem jogos da II Liga. É fazer as contas...

Podemos olhar para trás e criticar a gestão e planeamento da arbitragem feita no passado. Mas a situação actual é esta. 36 árbitros. Muitos deles inexperientes. Alguns sem a qualidade exigível. Menos ainda aqueles que são consensualmente olhados como referências da arbitragem.

Artur Soares Dias, Jorge Sousa e Hugo Miguel irão dirigir os clássicos (digo eu). Os internacionais, Carlos Xistra, Fábio Veríssimo, Tiago Martins, João Pinheiro, talvez Luís Godinho e o não internacional Nuno Almeida (segundo classificado da época transacta) irão dirigir os restantes jogos dos primeiros dois classificados.

Estes homens vão estar sob fogo cerrado. Estão conscientes do “vale tudo” que se vai viver. Estão preparados para suportar as rajadas de metralhadora de que vão ser alvos até final da época. Eles aguentam...

Pior é o futuro, os danos colaterais. Aqueles miúdos que estão a tirar o curso de árbitro e que poderiam um dia chegar ao patamar de qualidade e reconhecimento que o Jorge Sousa e o Artur Soares Dias têm. Esses, em virtude do que vão ver e ouvir, pensarão: “Abdicar de amigos e de convívios? Prejudicar relações pessoais e profissionais? Chegar um dia ao topo da arbitragem e ter de suportar tudo isto?! Não faz sentido. Não quero isto para mim. Não quero ser árbitro...”