Ficar em casa com os filhos? Só três em cada dez homens aproveitam

Após o nascimento de António, Manuel ficou três anos em casa com o filho. É um caso ainda raro, quando se sabe que apenas 29% dos casais usam o bónus que é dado sempre que o pai fica sozinho em casa com o bebé pelo menos um mês. Neste domingo assinala-se o Dia do Pai.

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Manuel Ribeiro diz que o tempo que passou sozinho com o filho ajudou muito a construir os laços que têm hoje. “É um menino muito meigo, sempre aos beijinhos e abraços” Nelson Garrido
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António ainda estava na barriga de Joana Ribeiro e Manuel Ribeiro nem sequer punha a hipótese de não estar presente em todas as consultas médicas. Após o nascimento do filho, agora com três anos, dar biberões, colo, mudar fraldas e assegurar rotinas como as refeições em família, os banhos ou as actividades lúdicas “foi o passo natural”, assegura este pai. Joana tirou uma licença de maternidade de cinco meses. Depois disso o casal fez uma opção pouco comum: Manuel ficou com o filho em casa durante quase três anos, até à entrada para a escola, em Setembro passado.

Em Portugal, em 2015, só 29% dos casais optaram pela modalidade de partilha da licença parental bonificada. O valor era de 21% em 2010 — foi em 2009 que se acrescentou à licença parental inicial, que até aí se chamava “licença de maternidade”, um bónus de 30 dias no caso de o pai ficar sozinho em casa com o bebé pelo menos um mês.

“Se não houver uma participação reforçada dos homens na conciliação família/trabalho, as mulheres também não podem assumir de uma forma mais intensa o seu papel na esfera pública e, nomeadamente, na esfera do trabalho pago. A participação dos homens nesta nova masculinidade cuidadora tem tido alguns avanços, mas também bloqueios”, sintetiza, a propósito do Dia do Pai, que se assinala neste domingo, Karin Wall, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenadora do Livro Branco – Homens e Igualdade de Género em Portugal, que foi publicado neste mês.

Karin Wall salienta que os dados do Livro Branco relativos às questões da parentalidade mostram que há “uma atitude mais positiva relativamente a esta participação dos pais”, mas ainda com grandes diferenças geracionais — com as pessoas acima dos 45 anos a considerarem que o papel primordial deve continuar a ser da mãe. Os homens são também os primeiros a dizer que as mulheres sabem tratar melhor dos filhos.

“O principal avanço que se nota é que os homens mais jovens, entre os 30 e os 45 anos, cuidam hoje de forma sistemática dos filhos e partilham mais as responsabilidades domésticas. Por isso, começam a sentir, tal como as mulheres, um stress elevado na conciliação família/trabalho”, explica a socióloga. Mesmo assim, em 2015 o número de homens que tiraram os dez dias obrigatórios na altura para o pai foi de 71%. Os dez dias facultativos foram usados por 63%. Mais do que isso é mais raro.

“Super pai”

Joana é gestora de projecto e na empresa onde trabalha era difícil prolongar a licença. Manuel tinha uma empresa de madeiras. Optou por reduzir a actividade empresarial quase a zero para poder ficar em casa com o filho. Manuel é modesto a falar. “Dividimos a parentalidade. Temos ambos a mesma responsabilidade”, explica, sobre os papéis de pai e mãe. Mas reconhece que o tempo que passou sozinho com o filho ajudou muito a construir os laços que têm hoje. “É um menino muito meigo, sempre aos beijinhos e abraços”, conta. Na altura em que o recém-nascido teve as primeiras cólicas passou longas horas com ele deitado em cima de si.

Joana insiste que Manuel “é um super pai”. “Desde o primeiro dia que sinto que é um pai em pleno. No primeiro mês dormi todas as noites porque ele fazia questão de aquecer o leite que eu tirava e mudava a fralda. Embalou o filho horas a fio.”

Mesmo agora que Manuel tem um trabalho nocturno continua a ir levar e a ir buscar o filho à escola. E a mãe dá mais exemplos do papel deste pai em momentos como o desfralde, o gatinhar ou as primeiras gracinhas. “A diversificação alimentar foi o pai que fez, enviando-me todos os dias vídeos e fotos para que eu me sentisse incluída.”

Casos como este ainda não são nada comuns, garante Karin Wall. Há mais homens a gozarem um mês de licença, mas é raro ficarem em casa tanto tempo com os filhos. “Toda a gente reconhece que as licenças são importantes para promover o emprego da mulher, as pessoas têm dúvidas, nomeadamente os próprios homens, sobre o impacto que pode ter no emprego. Os homens sabem que quando gozam a licença arriscam-se a sofrer represálias, a eventualmente não subirem na carreira ou até a virem a cair no desemprego.”

As tarefas domésticas são hoje mais partilhadas, mas ficaram sinais dos outros tempos: tratar da roupa, por exemplo, ainda é maioritariamente uma responsabilidade das mulheres. “Apesar das mudanças e da participação dos homens, a atribuição ao homem do papel de cuidador principal ainda é rara”, reforça a socióloga, lembrando que nas profissões ligadas a cuidar, como os educadores de infância ou professores primários são também poucos os homens.

“Enquanto não houver um entendimento colectivo de que homens e mulheres têm a mesma responsabilidade face à vida familiar e profissional e enquanto não houver consequências nas empresas, a igualdade de género vai continuar a ser uma meta distante.” Um problema que Joana e Manuel não têm. Reforçam que nunca sentiram qualquer julgamento pela opção que tomaram e, se tiverem um segundo filho, não descartam a hipótese de repetir o plano.

Uma quarta semana para os pais

O aumento em mais uma semana da licença de parentalidade exclusiva para o pai é uma das medidas que estão a ser estudadas pelo Governo e que deverá ser incluída num pacote legislativo de combate à disparidade salarial, que será apresentada até dia 1 de Maio. Em 2016, a licença parental inicial exclusiva do pai já tinha sido aumentada de 10 para 15 dias úteis (3 semanas, na prática), podendo os pais gozar mais duas semanas facultativas.