Crónica

Deixem-me comer um hamburguer em paz!

“Acho incrível que sejas mãe de dois adolescentes e não percebas como estás a prejudicar-nos…”, começa ele, continuando: “Não percebes que essas máquinas estão aí para substituir as pessoas?"

Saio a correr do trabalho. É preciso fazer umas compras e caio na asneira de passar por casa para levar os sacos reciclados. Ele quer ir comigo. OK. Ela liga-me e pede uma boleia. “Mas agora vou ao supermercado…” Lá a apanho pelo caminho. Outra asneira.

As compras são feitas com uma série de chamadas de atenção. Dele e dela. “Não são precisos tantos iogurtes.” Pois não, agora temos uma iogurteira para combater o excesso de plástico no planeta... “Por que é que compras peixe congelado?” Porque só compro fresco na praça, além disso o peixe é congelado em alto mar. “Mas já viste a quantidade de plástico que levas no carrinho?” Já. “Não compres guardanapos de papel, temos de pano.” E quem é que vai engomá-los? Sem resposta, volto a por os guardanapos de papel no carrinho. Nenhuma objecção quanto ao papel higiénico.

A fruta tem de ser portuguesa porque é sinal que não andou a viajar por esse mundo fora, logo, tem uma pegada ecológica menor. Os cereais têm de ser da zona dos produtos dietéticos e afins porque têm menos açúcar, menos corantes e conservantes. As bolachas e os doces também. A carne é branca porque “já viste o impacto que têm as vacas no planeta?”.

Entramos no espaço de saúde do supermercado. “Boa noite queria um desodorizante…”, começo. “Mas que não seja anti-transpirante por causa do alumínio”, interrompe-me ela, dirigindo-se à funcionária. O quê?!... Alumínio? “Sim, queres um desodorizante porque permite-te transpirar mas não cheirar mal. É normal transpirarmos, não é normal cheirarmos mal. Por isso, queremos um desodorizante sem alumínio que provoca cancro.” Ah, não sabia… E lá andamos, eu e a funcionária, a ler rótulos para ver qual deles não tem esse nocivo químico. O mais caro, está visto.

As compras estão quase a chegar ao fim e estamos em cima da hora do jantar. “Agora vamos por os sacos no carro e vamos ao McDonald’s”, digo, prevendo logo as reacções. Olham-me indignados. “Não devemos contribuir para as grandes cadeias internacionais que exploram os seus trabalhadores”, diz ele. Sim, mas eu estou cansada e não me apetece chegar a casa, arrumar as compras e cozinhar. “Além disso, nós não comemos vaca”, acrescenta ela. Eu sei, mas há hambúrgueres de porco, frango e peixe e eu estou cansada... Ainda que contrariados, anuem.

Há séculos que não entro num McDonald’s. Em vez de cinco empregados está apenas um atrás do balcão. Olho para umas máquinas e percebo que se fazem ali os pedidos. “Mas também podes fazer ao balcão”, diz-me ele, encaminhando-se para lá. Estão várias pessoas na fila, por isso, sem responder-lhe decido começar a fazer o pedido no ecrã. Ela chama-o.

“Acho incrível que sejas mãe de dois adolescentes e não percebas como estás a prejudicar-nos…”, começa ele, continuando: “Não percebes que essas máquinas estão aí para substituir as pessoas? Para substituir rapazes e raparigas que não conseguem outros empregos melhores...” “E depois tornam-se marginais”, dramatiza ela. “Não percebes que vivemos num mundo de precariado? Que estás a contribuir para a precariedade de quem vive à tua volta e, no futuro, dos teus próprios filhos?”

Com um gesto brusco começo a anular o pedido na máquina. “Não tens consciência social?”, continua ele, enquanto me segue no caminho de regresso ao carro. “Ó mãe, mas tu amas-nos… Por isso tens de te preocupar mais com o nosso futuro e o dos teus netos…”, diz-me ela, conciliadora.

Pelos vistos eu não tenho consciência ambiental nem social, descubro numa ida às compras, ao final do dia. Quem nos mandou a mim, ao pai e aos professores educar miúdos com consciência do que quer que seja?! “Eu só queria comer um hambúrguer em paz!”, grito-lhes, depois de por o cinto e arrancar com o carro, furiosa.