Entrevista

Eddie Izzard: “Muito poucas pessoas medrosas vêm ao meu espectáculo”

O comediante britânico estreia-se em Portugal no dia 28, no Teatro Tivoli. Quer ser deputado e já é um corredor e um trabalhador incansável, além de um heterossexual que encontrou a sua identidade no travestismo.

REUTERS/Russell Cheyne
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REUTERS/Russell Cheyne

Eddie Izzard é, além de um portento da comédia, intenso em tudo o que faz. Pratica os espectáculos centenas de vezes e enquanto os constrói ao vivo. Fez 43 maratonas em 51 dias e, aos 55 anos, está desde 2013 numa das mais longas digressões de sempre, passando por dezenas de países em vários continentes. “Um tesouro nacional — o David Attenborough da comédia stand-up”, como lhe chamou o Guardian em editorial, estreia-se em Portugal dia 28 com Force Majeure, no Teatro Tivoli

Activista LGBTQ e travesti — “sou um travesti de acção”, brinca —, é candidato a deputado no Reino Unido. Perdeu a mãe, com cancro, aos seis anos e acha que foi desde então que se tornou obstinado, algo que equilibra a sua preguiça natural. Foi actor dramático em Velvet Goldmine, de Todd Haynes, em Ocean’s 12 e 13 ou em Hannibal e até protagonista da sua série americana, The Riches. Às vezes monta espectáculos de comédia para as equipas das séries e filmes em que participa, corre maratonas para a organização de beneficência Comic Relief e quer ser político.

Começa o espectáculo num supetão para depois sofrer uma espécie de caso agudo de fluxo de consciência (mas se perder o fio à meada não se coíbe de o admitir) e terminar, surpreendente e delirantemente, algures onde começou ou por onde passou. Actua há quase 30 anos e o seu político preferido é Nelson Mandela, em cuja honra tentou mesmo correr 27 maratonas em 27 dias, uma por cada ano de prisão do líder sul-africano (a saúde não lho permitiu). Os fãs conhecem os one-liners como “cake or death” ou “covered in bees”, os estreantes encontram humanismo e cultura popular na sua comédia.

O que é que procura enquanto comediante ao actuar em tantos países e para culturas tão diferentes?
Há 200 mil anos éramos dez mil seres humanos e agora somos sete mil milhões. Estou só a ligar-me a outras pessoas. Se têm uma cor de pele diferente... não quero saber. Se acreditam em deuses diferentes e eu não acredito em deus nenhum... Se vêm ao meu espectáculo serão pessoas de mentes abertas, serão os curiosos do mundo — por oposição aos medrosos. Procuro essas pessoas pelo mundo todo, e há milhões delas por aí. Muito poucas pessoas medrosas vêm ao meu espectáculo.

É um apaixonado pela língua e fez recentemente espectáculos em três línguas — como está o seu português?
Temo que o meu português seja limitado. Sou 75% fluente em francês, sou 40% fluente em alemão e consigo fazer frases simples em espanhol. Quero aprender árabe e russo. Sou bastante prático, não posso aprender as línguas todas e por isso vou actuar em inglês. Espero fazê-lo para alguns portugueses e não só estrangeiros que vivam em Portugal.
 
Como descreveria Force Majeure em comparação com espectáculos anteriores como Definite Article, Stripped ou Circle?

Os meus espectáculos tornam-se mais e mais maduros, espero. Começo com sacrifício humano, falo sobre reis medievais e acabo por falar da sabedoria como o nível mais alto de ser humano, e pelo meio há toupeiras a minerar ouro, galinhas a aconselhar Júlio César sobre tácticas militares... O meu rumo é sempre semelhante: muito surreal e tolo, mas por trás dessa parvoíce espero que inteligente.

Como é o seu processo criativo e como se edita? O seu fluxo de consciência é ilusoriamente simples, porque os espectáculos são complexos. 
Funciona assim: desenvolvo-os com um espectáculo de work in progress. Chamo-lhe escultura verbal. Fi-lo em Los Angeles e Nova Iorque, dois espectáculos de uma hora seguidos ao longo de três meses umas seis noites por semana. Ia puxando e esmiuçando e ia tendo ideias mas não as apontava, ia-as desenvolvendo... Estava a ouvir o Keith Richards a falar sobre os Rolling Stones e como entravam no estúdio, e às vezes não tinham nada. É mais ou menos como isso, mas uma vez tendo ideias e o esqueleto do espectáculo, vou sempre mudando, moldando até o melhorar.

A sua comédia está carregada de histórias sobre a natureza humana e História, mas nem sempre política pura e dura. No último ano, o “Brexit” e Donald Trump surpreenderam parte do mundo e luta-se para encontrar humor nisso. Quer ser candidato nas eleições parlamentares de 2020. Qual é o seu programa político?

Sou membro do Partido Trabalhista. Sou um radical moderado, acredito que se estou bem na vida quero que todos estejam bem. Não acredito no “Brexhate [um trocadilho com “Brexit” e “hate”, a palavra inglesa para ódio], não acredito em "Trump hate", não acredito em políticas simplistas — construir um muro, odiar grupos de pessoas, fugir de um continente ou do mundo não resulta. Isso são políticas dos anos 1930 e já vimos como tal não resulta. Só acaba em ódio e em pessoas a acreditar em... O que é que lhe chamaram?... Factos alternativos! O que é isso? Uma mentira?! Tudo isto em torno do sr. Trump é ridículo. No meu país, diziam: “Já não queremos ouvir peritos.” Então quem é que querem ouvir? Os idiotas? Não podemos ser bem sucedidos fugindo e escondendo-nos da Europa, do mundo. 

O Eddie Izzard cidadão tem uma voz activa na denúncia da discriminação. São temas que por vezes permeiam a sua comédia. É um heterossexual que é travesti — como é que essa camada extra de leitura social o tem servido enquanto performer?

Tornou-me muito duro. É muito difícil assumirmo-nos. Assumi-me em 1985, há 33 anos, e deu-me uma pele mais grossa. Torna-nos capazes de lidar com os reveses da vida. Torna-nos mais rijos.