Reportagem

Dezasseis meses depois, o Cais do Sodré foi “devolvido aos peões”

Durante a tarde de sábado, o Cais do Sodré foi apresentado de cara lavada aos lisboetas, com mais zonas pedonais e um reordenamento do estacionamento.

No Cais do Sodré, deixa de haver estacionamento e carros - só circulam peões e transportes públicos
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No Cais do Sodré, deixa de haver estacionamento e carros - só circulam peões e transportes públicos Daniel Rocha/ARQUIVO

“O Cais do Sodré nem parece o mesmo”, comenta Domicília Rocha com duas amigas, durante a tarde de sol em que foi inaugurado o renovado espaço. “Está mais bonito, foi finalmente devolvido aos peões”, salienta. Passa todas as semanas no Cais do Sodré e afiança que a diferença é notória: “Antes tinha muitos carros estacionados. As obras são necessárias e neste caso valeram a pena”. Os cidadãos foram convidados pela Câmara de Lisboa para a iniciativa “A Rua é Sua”, para comemorar o término das obras que começaram em Novembro de 2015, com o objectivo de dar à cidade “uma nova frente ribeirinha”.

Agora que estão concluídas as obras, as opiniões que neste sábado se ouvia diziam que o Cais do Sodré está melhor. Mais airoso, mais bonito. À espera para ver o presidente da câmara estava Fernanda Lima, de 68 anos, que não esconde o seu agrado em relação ao novo espaço: “Lisboa parece outra, isto é uma maravilha”. “Moro aqui há mais de 50 anos e nunca houve obras tão perfeitas quanto estas. E ainda falta muita coisa mas tudo leva o seu tempo”, afirma.

Esta restruturação do Cais do Sodré corresponde a um investimento de, aproximadamente, 3,6 milhões de euros, explica Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML). “É hoje um gosto podermos entregar esta obra à cidade”, diz, porque oferece “uma vista mais desafogada sobre o Tejo e muito mais zonas de lazer para aqueles que andam a pé”.

Durante as declarações de Fernando Medina, ouvia-se ao fundo o concerto de B Fachada, que cantava músicas de Zeca Afonso, para assinalar os 30 anos da sua morte. Ao anoitecer, actuaram os Dead Combo.

Em relação ao longo congestionamento provocado pelas obras, Fernando Medina considera ser obrigatório “agradecer a paciência” dos lisboetas, acrescentando que sem estes constrangimentos não seria possível obter este resultado e “uma melhoria da fluidez em matéria de circulação viária”. Não tão de acordo está Mário, um motorista de táxi de serviço em frente ao terminal fluvial do Cais do Sodré: “O trânsito está pior; os passeios ficaram mais bonitos e grandes mas isso à custa da supressão de faixas de rodagem”. Ainda assim, diz que o melhor é esperar que estejam concluídas as obras no Campo das Cebolas para perceber se existe, ou não, uma melhoria do tráfego.

Uma forte aposta no transporte público

Conforme ia avançando a tarde, ia aumentando o congestionamento nos transportes públicos. Os autocarros passam cheios, os eléctricos também e no comboio há passageiros em pé. Em frente à estação de comboios do Cais do Sodré, na zona em que se apanham os autocarros e o eléctrico pouco espaço sobra na longa fila de pessoas que espera transporte. Na sexta-feira, a Câmara de Lisboa tinha partilhado uma publicação no Facebook a convidar os cidadãos a descobrirem o "novo" Cais do Sodré, “utilizando os transportes públicos” – mas esta saturação não é causada pelo convite. Verifica-se nos outros dias, agravando-se aos fins-de-semana e nas horas de ponta.

Isabel Gama mora na Lapa e é utilizadora de transportes públicos; espera que o final das obras no Cais do Sodré se traduza numa melhoria destes serviços. “Eram filas enormes de pessoas para apanhar os transportes públicos e um trânsito infindável”, conta.

Um dos objectivos das obras de requalificação do Cais do Sodré é o reorganizar o estacionamento – que deixa de poder fazer-se no cais – e dos transportes públicos. “A verdade é esta: não há possibilidade de melhorarmos a circulação e a vida na cidade sem uma forte aposta no transporte público”, frisa Fernando Medina, considerando que se perderam 100 milhões de passageiros por se ter assistido a uma degradação dos transportes públicos em Lisboa.

Agora, com a municipalização da Carris, o presidente da CML acredita que é possível que haja uma qualificação do espaço público a par do transporte público: “Deve haver mais transportes, mais pessoas a usarem e mais qualidade”.

Fernando Medina diz que ainda estão em curso obras na cidade que pretendem oferecer mais “espaço público de qualidade” aos cidadãos. Para já, em “Maio ou Abril”, ficará concluída a ligação do Cais do Sodré ao Largo de Santos, através de “um grande passeio” ao longo da Avenida 24 de Julho, que melhorará a circulação pedonal e incluirá uma ciclovia, segundo o autarca.