Entrevista

Como é que vai ser o trabalho no futuro? O ministro responde

Robôs a tirar postos de trabalho. Impostos sobre robôs. Um apoio social para todos (mesmo todos). Direito a desligar. O que acha o ministro do Trabalho do que aí vem?

José Vieira da Silva, ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social
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José Vieira da Silva, ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social Daniel Rocha

Vieira da Silva quis marcar os 100 anos do Ministério do Emprego e Segurança Social com o lançamento do debate sobre o futuro do trabalho. A conversa com o PÚBLICO, feita na última quinta-feira perante os trabalhadores do ministério, resultou nesta conversa sobre o que aí virá (ou talvez não). Em seis pontos. 

Um estudo recente diz que na Europa 62 milhões de postos de trabalho vão ser automatizados em 38 anos. O ministro fica preocupado ou entusiasmado?
"Está-se muito a pensar no futuro do trabalho e menos no trabalho do futuro. Esses estudos têm enorme interesse, mas têm pouca capacidade para prever as oportunidades que são provocadas por este conjunto de factores de mudança. Esse temor não é de hoje — e as previsões do passado não se confirmaram. Mas há dois factores que levam a que tenhamos particular cuidado, um pouco diferentes de outras revoluções industriais: a enorme aceleração do processo tecnológico, estarmos em permanente transformação; e o facto de termos olhado para estas mudanças na lógica da produção, mas elas estão a mudar o consumo. Isto pode levar-nos a uma mudança muito profunda, a qual temos que saber antecipar - e para a qual temos que estar preparados."

Uma revolução industrial, uma mudança demográfica e a globalização. Como é que Portugal pode lidar com este processo, tendo uma taxa de desemprego ainda elevada?
"Por um lado, a fragilidade que temos nalgumas áreas (a exposição internacional, as debilidade da nossa organização empresarial, do nosso sistema financeiro), são factores de desvantagem face a um processo de mudança tão profundo. Para contrariar o pessimismo, eu acredito nalgumas leituras que apontam para o facto de estas mudanças serem mais favoráveis à nossa economia e à nossa sociedade do que outras no passado. Nesta não dependemos dos recursos naturais, nem de métodos de produção em massa, como na primeira e segunda revolução industriais. Estas abrem-nos janelas de oportunidade onde temos a possibilidade de competir numa escala mais pequena. Ser inovador e engenhoso na procura das respostas são características que nos acompanham há muitos séculos. E isso de alguma forma está a sentir-se."

Os robôs deviam pagar impostos — ou as empresas que substituem trabalhadores por máquinas —, como defendeu Bill Gates ou propõe Benoit Hamon, candidato socialista à presidência de França?
"Faz sentido ser discutida, mas a minha simpatia por esse tipo de abordagens é reduzida, porque facilmente se transforma num instrumento de conservadorismo do ponto de vista das mudanças económicas e sociais. O risco de uma descriminação não é boa para uma economia tão competitiva como a actual: as tecnologias muitas vezes colocam-nos bem na inovação em outras áreas — que depois é criadora de emprego. A grande questão não é se a transformação tecnológica é criadora ou destruidora de emprego, é mais saber onde cria e destrói (e o risco de não haver coincidência). Isso um imposto não resolve, de todo."

Também em França, Hamon propõe um rendimento básico incondicional (para todos os cidadãos). Atrai-o a ideia?
A ideia nasce há algumas décadas, com uma ideia básica de equidade social, combate à exclusão. E hoje é assumida como uma resposta à ideia de robotização: se os robôs produzem, alguém tem que comprar os produtos e alguém tem que ter rendimentos; no risco de o trabalho encolher, tem que se dar dinheiro às pessoas. Tenho sentimentos cruzados acerca desse tipo de instrumentos. E hoje inclino-me mais para apontar os riscos do que as suas vantagens. A ideia está a ser ensaiada na Finlândia (nuns poucos milhares de pessoas, por um governo conservador). Os riscos que vejo? O trabalho continua a ser a forma mais democrática de garantir o acesso aos bens. Tenho receio que  uma parte da sociedade olhada como tendo rendimentos que vêm de transferências sociais, poderá introduzir rupturas. E tenho receio que a capacidade de inovação, de correr riscos, possa ser penalizada. Não escondo que filosoficamente sou a favor. Mas a aplicação prática coloca-me dúvidas. Curioso é que este tema fractura todas as famílias políticas — o que quer dizer que é uma ideia muito perturbadora. E interessante."

Fala-se muito de "uberização" da economia. Há maneira de regular actividades como esta sem tirar o espaço de crescimento, criatividade e de consumo inovador que elas trazem à economia? Esse equilíbrio é atingível?
Não sei — é a resposta mais sincera que lhe posso dar. Mas nas responsabilidades que tenho não desistirei que seja possível essa compatibilização. As dinâmicas inovadoras podem gerar movimentos contraditórios. E a sociedade tem que controlar a dimensão dessas dinâmicas. Se eu prezo muito a criatividade, ela não pode pôr em causa dimensões essenciais de coesão. As sociedades têm que fazer escolhas. O que tem acontecido à escala internacional é que essas dinâmicas entram cada vez mais nas sociedades, mas também é verdade que a sociedade começa a responder colocando exigências de formalização dessas relações. Exigências de cobertura na protecção social. E a fazê-lo de forma pensada, não como uma reacção retrógrada, mas de defesa dos valores que nós partilhamos. 

Até que ponto é bom podermos trabalhar quando estamos na praia, em casa, na cama, porque temos aparelhos e ligações em rede que nos permitem fazê-lo — a qualquer hora?
Esta capacidade de estarmos ligados tem vantagens no plano profissional — não é um aspecto apenas intensivo na vida individual e familiar. Esta conectividade veio transformar a produtividade global da economia. Mas sou favorável a uma reflexão que nos oriente no sentido de regular essa liberdade, desse direito a desligar. Isso tenderá a fazer parte dos direitos de cidadania. Mas tudo tem que ser lido com uma perspectiva de flexibilidade, não se transformando em regras de tal maneira rígidas que venhamos a perder algumas das vantagens deste funcionamento em rede. Não sou capaz... Se me dissessem: no próximo Conselho de Ministros vamos aprovar um decreto lei sobre o Direito a Desligar. Eu pedia adiamento.