O TP Mazembe foi a escolha do coração de Anthony Vanden Borre

Dois meses depois de anunciar a sua retirada, o internacional belga foi jogar para o Congo, país onde nasceu, mas ainda quer regressar à selecção.

Fotogaleria
Chegada de Vanden Borre a Lubumbashi DR
Fotogaleria
Chegada de Vanden Borre a Lubumbashi DR
Fotogaleria
Chegada de Vanden Borre a Lubumbashi DR
Fotogaleria
Chegada de Vanden Borre a Lubumbashi DR
Fotogaleria
Chegada de Vanden Borre a Lubumbashi DR
Fotogaleria
Vanden Borre num Bélgica-Coreia do Sul no Mundial 2014 Paul Hanna/Reuters
Fotogaleria
Vanden Borre e Vincent Kompany num treino da selecção belga em 2005 Francois Lenoir/Reuters

Já não é surpreendente um craque do futebol europeu ou sul-americano ir jogar para a China. Assim como também já não causa estranheza quando um antigo campeão do mundo esteja na Índia (Lúcio). Ou nos EUA (Pirlo e Villa). Ou no Qatar (Xavi). São muitos os “el dorados” no futebol mundial à disposição de quem ainda quer dar uns toques em campeonatos com exigências competitivas menores e ganhar dinheiro com isso. Não foi pelo dinheiro que Anthony Vanden Borre foi jogar para o Tout Puissant Mazembe, o maior clube da República Democrática do Congo e um dos maiores de África. Foi, nas suas próprias palavras, “uma escolha do coração”.

O que é que faz com que esta seja uma transferência surpreendente? Vanden Borre é um internacional belga de 29 anos, com uma carreira que o levou a clubes como o Anderlecht, Montpellier, Génova e Fiorentina, com presenças nos Jogos Olímpicos de 2008 e no Mundial de 2014, e o futebol africano não é um destino muito comum para jogadores europeus. Só que, para Vanden Borre, ir jogar para a RD Congo é regressar a casa. Filho de pai belga e mãe congolesa, Vanden Borre nasceu na RD Congo em 1987, quando esta ainda se chamava Zaire, e aos seis anos saiu do país, com a família e tendo a Bélgica como destino, para fugir à guerra civil.

Formado nas escolas do Anderlecht, na mesma fornada de Vincent Kompany, Vanden Borre chegou, em tempos, a ser o maior talento jovem do futebol belga, estreando-se na primeira equipa do clube de Bruxelas aos 16 anos. Começou por ser extremo, e foi ganhando protagonismo como lateral-direito, mas a sua personalidade nem sempre encaixava com os treinadores. Depois de quatro anos de altos e baixos no Anderlecht, tentou o futebol italiano, com passagens pelo Génova e pela Fiorentina, e ainda passou de raspão pelo Portsmouth, de Inglaterra, antes de regressar à Bélgica, onde fez duas épocas no Genk. Daqui, foi para a Ucrânia, para três jogos no Tavriya Simferopol, e regressou ao Anderlecht, onde ficou até 2016. Depois Montpellier e, agora, Lubumbashi.

“Sempre sonhei em jogar no Mazembe. É a terra da minha mãe [que nasceu em Lubumbashi]. É uma escolha do coração. Quem me conhece, sabe o que este clube significa para mim”, declarou o internacional belga, citado pelo jornal Guardian, no dia em que aterrou em Lubumbashi e que que o seu percurso do aeroporto até ao estádio foi acompanhado por mais de 30 mil pessoas. O próprio Vanden Borre fez parte do caminho sentado no tejadilho do carro, que seguiu numa espécie de cortejo, em marcha lenta, a furar pela multidão.

Dois meses antes, Vanden Borre tinha anunciado que se retirava do futebol. O lateral belga estava no Montpellier e até se estava a dar bem. “Estava fatigado, mentalmente exausto. Tinha de sair. Não apenas do Montpellier, mas do futebol em geral. Adoro futebol e não tinha nada contra o clube, mas não queria que me continuassem a pagar quando não estava bem”, conta, numa entrevista ao L’Equipe. Depois, veio o contacto do TP Mazembe e Vanden Borre não hesitou. Voltou ao país onde nasceu pela primeira vez desde os seis anos e nem sequer vai ser o jogador mais bem pago do TP Mazembe, com quem assinou um contrato que é renovado todos os meses.

O TP Mazembe não é propriamente um clube desconhecido e Vanden Borre até conta com isso para se manter no radar de Roberto Martinez, seleccionador belga. O clube congolês chegou mesmo a ser finalista do Mundial de clubes em 2010 – perdeu na final por 3-0 com o Inter de Milão – e já foi campeão africano de clubes por cinco vezes, apenas perdendo para os sete títulos do Al-Ahly, do Egipto. Vanden Borre, que conta com 29 internacionalizações pela selecção principal da Bélgica entre 2004 e 2014, não quer ser esquecido: “Não venho para dormir. Quero ganhar coisas. Se o Witsel consegue na China, eu também o posso fazer no Congo. O Mazembe é maior que muitos clubes chineses.”

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos