Editorial

Não dá para respirar de alívio

Os movimentos populistas são apenas um sinal da grande mudança a que se tem vindo a assistir na política europeia.

Respirar de alívio com o resultado das eleições holandesas seria absolutamente insensato. É verdade que uma leitura superficial dirá que o populismo perdeu e que isso é uma boa notícia. Mas os movimentos populistas são apenas um sinal da grande mudança a que se tem vindo a assistir na política europeia — que se caracteriza pela perda de influência dos partidos tradicionais e pelo surgimento de forças alternativas nas franjas do sistema que agregam cada vez mais votos.

Foi assim em Espanha, em Portugal, na Grécia, em Itália. Em Inglaterra, levou à vitória do “Brexit”. Está a ser também assim na Alemanha e até em França, com um sistema fortemente presidencialista, se nota a presença inédita de um candidato independente que chega a ser apontado como possível vencedor.

Em Espanha e na Bélgica, isto levou a anos sem governos efectivos. Na Holanda, como aconteceu em Portugal, será preciso puxar pela imaginação para chegar a uma eficiente realidade governativa. A solução passará por uma coligação coesa mas minoritária ou uma coligação alargada a vários partidos sem nada que os una a não ser o ódio a Wilders.

Mas, mais do que as possíveis consequências, importa avaliar as causas desta fragmentação partidária — até porque elas são mais ou menos as mesmas em toda a Europa. Os partidos tradicionais, que ocupavam o respectivo arco da governação, estão a ser arrasados em graus variáveis e a ser substituídos por forças novas ou recentes que actuavam nas margens do sistema. Porquê? Porque os partidos tradicionais decidiram ignorar (ou mostraram-se incapazes de discutir) questões sociais determinantes, que foram crescendo até encontrarem candidatos que as credibilizem no discurso público.

É certo que estas questões variaram de país para país. No Centro e Norte da Europa foi a percepção da ameaça imigrante, a que se juntou o medo dos refugiados e o pânico dos atentados; na Europa do Sul foi o ódio à austeridade e às suas consequências; em ambos foi comum a recusa em discutir a União Europeia, apenas usada como bode expiatório e em má consciência. Quem capitalizou tudo isto foram os partidos que se mostraram dispostos a discutir estes temas — e se o fizeram com recurso a demagogia e apelando aos instintos mais básicos do medo e da ignorância foi porque as forças tradicionais lhes abriram caminho para isso. Combater isto implica discutir temas difíceis, admitir erros, procurar soluções novas para problemas complexos — e pode mesmo implicar caras ou siglas novas.