Crítica

Versalhes entre a luz e a sombra

A colecção de Calouste Sarkis Gulbenkian também dialoga com a arte contemporânea.

Os pormenores de um palácio habitualmente invisíveis ao visitante ocasional: Versalhes por Manuela Marques
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Os pormenores de um palácio habitualmente invisíveis ao visitante ocasional: Versalhes por Manuela Marques Miguel Manso

No Museu Gulbenkian a fotógrafa Manuela Marques assina a primeira de várias “conversas” que se vão estabelecer este ano entre a colecção do fundador e a arte contemporânea. Fotógrafa com uma carreira notável realizada sobretudo entre Paris e Lisboa, apresenta, na Galeria do Piso inferior e em diferentes locais do museu, um conjunto de fotografias, um filme e uma instalação sonora feitos em Versalhes que se focam sobre os pormenores de um palácio habitualmente invisíveis ao visitante ocasional. Molduras de madeira, reflexos em espelhos, madeiras douradas ou pintadas, pequenos graffittis feitos com o dedo sobre um vidro que, embaciado pelo frio, os revela, vão-se declinando em séries agrupadas por semelhanças formais. O trabalho resultou de um convite feito pela directora do museu francês, e concretizou-se sobre a permanência de Manuela Marques todas as segundas-feiras, dia de encerramento ao público, em todos os espaços que quis visitar.

Num palácio que foi construído como lugar da visibilidade do rei — recorde-se que é aqui que a encenação do poder, em todas as horas do dia e da noite, se concretiza; é aqui que o corpo do rei deixa verdadeiramente de o ser para se tornar no corpo de todos —, a fotógrafa dá a ver aquilo que nenhuma visita guiada inclui, ou permite ver, até por questões de tempo. Dito de outra forma, e porque a Manuela Marques não lhe interessaram nunca os espaços saturados de visibilidade, como, por exemplo, a Galeria dos Espelhos ou os quartos do rei ou da rainha, o que ela nos dá a ver são os sinais da contemporaneidade, neste sentido em que apenas a contemporaneidade se permite interessar pela história entendida como pura forma. O que observamos nunca é o lugar onde o rei viveu, mas sim o lugar que nos é atribuído hoje a nós, espectadores e visitantes, em Versalhes.

Um filme passado em loop nas instalações do museu, e que se insere numa nova montagem de objectos e obras de arte dos séculos XVII e XVIII, condensa de modo particularmente feliz esta abordagem. Nele vemos uma imagem dos jardins do palácio sob a neve, ao mesmo tempo que ouvimos o som de uma orquestra durante um ensaio que decorria ao mesmo tempo que a filmagem. A certo ponto, passa um camião em frente de câmara; ambas as situações, o som e o camião, destroem por completo qualquer ideia de actualização do sublime da paisagem por meio do filme que se pudesse ter, e introduzem-nos na mesma contemporaneidade que já notáramos anteriormente nas fotografias. Na realidade, esta operação que Manuela Marques efectua sobre a imagem cristalizada de um Versalhes turístico possui o seu exacto espelhamento simétrico na selecção de objectos feita pelos curadores Nuno Vassallo e Silva e João Carvalho Dias que, a propósito do trabalho da fotógrafa, destacam numa nova montagem a representatividade deste período na colecção de Gulbenkian. Com obras de exposição permanente e muitas outras nunca vistas até agora, vindas das reservas, revelam-nos sobretudo a construção de um gosto francês insuperável que, até aos dias de hoje, continua a servir de modelo para o comércio do luxo em todo o mundo. Tecidos, encadernações, livros raros — e mesmo uma carta manuscrita de Luís XVI quando já estava preso, pratas, jóias, chinoiseries, um traje masculino de cerimónia, entre muitas outras peças, revelam também como é possível numa colecção fechada e num edifício construído como um guarda-jóias destacar núcleos, salientar épocas históricas, oferecer um espectáculo agradável a quem passa e, por fim, educar o visitante.

Uma peça-chave da exposição é um documento vindo por empréstimo da Torre do Tombo, uma carta chegada de França à corte portuguesa a oferecer o famosíssimo colar de diamantes dito Collier de la Reine ao futuro D, João VI por ocasião do seu noivado com a princesa Carlota Joaquina. O tom da carta revela que já nessa altura tudo o que pudesse vir da corte francesa (sem esquecer que a própria língua francesa era então a língua franca da Europa) legitimava o gosto e, por acréscimo, o poder. Se a esta compra específica nunca se chegou a concretizar, outras a substituíram decerto naquela que era uma vontade de aproximação de todas as cortes europeias, incluindo a portuguesa, ao Sol simbólico de Versalhes.