Morreu Derek Walcott, o poeta que vivia entre dois mundos (pelo menos)

O autor de In a Green Light e Omeros tinha 87 anos e morreu na sua casa em Santa Lúcia, nas Caraíbas. Para ele, um descendente de escravos que era um dos maiores poetas em língua inglesa, a poesia não tinha raça nem género.

Derek Walcott fotografado em 2012
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Derek Walcott fotografado em 2012 LUSA/JEFFREY ARGUEDAS

Pela sua poesia, carregada de metáforas, passa a beleza da paisagem que sempre o inspirou, a da sua ilha, Santa Lúcia, nas Caraíbas, mas também uma herança que sempre o fez viver entre dois mundos, duas culturas (pelo menos), e que leva a que muitos a ele se refiram como “escritor britânico de etnia crioula” ou “poeta mestiço de língua inglesa”. Derek Walcott, poeta, dramaturgo, descendente de escravos, Nobel da Literatura em 1992, morreu esta sexta-feira de manhã, aos 87 anos, na sua casa na antiga colónia britânica.  

A notícia da sua morte, sem quaisquer pormenores em relação ao que a terá causado, foi avançada pela sua editora, a americana Farrar, Strauss and Giroux, hoje integrada na gigante MacMillan, e confirmada à agência de notícias Associated Press pela família.

Embora tivesse publicado pela primeira vez no jornal da sua cidade, a portuária Castries, aos 14 anos, Derek Walcott (1930-2017) estreou-se oficialmente na poesia aos 18 com Twenty Five Poems (1948), um volume cuja edição a mãe, uma professora da escola metodista que criou Derek e o seu irmão gémeo, Roderick, praticamente sozinha, fez questão de financiar. Para pôr este livro nas ruas (literalmente, o poeta distribuía-o nas esquinas), conta o seu perfil do site da Poetry Foundation, que publica a prestigiada revista Poetry, Derek Walcott teve de pedir 200 dólares emprestados.

Apesar do esforço, com esse livro inaugural manteve-se desconhecido internacionalmente. Só em 1962, com In a Green Light, o primeiro que publicou fora da sua ilha, é que os críticos literários britânicos e americanos, assim como outros poetas, começaram a prestar-lhe atenção.

Nesta colectânea de poemas escritos entre 1948 e 1962, Walcott vira-se para os caribenhos e para a sua história atravessada por hegemonias várias, sem medo de remexer nas cicatrizes deixadas pelo colonialismo. Foi com este volume, escreve no diário norte-americano The New York Times o jornalista William Grimes, que Walcott passou a ser reconhecido como “uma voz poderosa da literatura das Caraíbas”, autor de versos de “pura musicalidade”, com uma forte carga visual e um “sentido profundo do lugar”.

Língua, poder e lugar são, aliás, temas recorrentes na poesia deste homem que fez o seu curso universitário na Jamaica e que, logo na década de 1950, com pouco mais de 20 anos, passou a dividir o seu tempo entre Santa Lúcia, Nova Iorque e Boston. Talvez por isso seja frequente que críticos e professores de literatura lhe elogiem a escrita com um fundo híbrido, em que o cânone ocidental convive com as influências insulares, em que o inglês, presente na sua educação desde muito cedo, se mistura com a tradição oral das Caraíbas.

“O mar está sempre presente [quando se vive numa ilha]. Está sempre visível. Todas as estradas levam a ele. Considero o som do mar parte do meu corpo. Se se disser em patoá [dialecto que resulta de uma mistura do francês com vários dialectos africanos] ‘os barcos estão a regressar’, a batida dessa frase, a sua métrica, tem a ver com o som e o ritmo do próprio mar”, disse Walcott à revista The Economist, em 1990, dois anos antes de ganhar o Prémio Nobel da Literatura “pela sua obra poética de uma enorme luminosidade, sustentada por uma visão histórica e resultado de um compromisso multicultural” (assim “falava” a acta do júri que decidiu dar-lhe o prémio da Academia Sueca, o mais importante do mundo no seu género).

Poesia e teatro

Na longa lista de títulos que publicou incluem-se Castaway (1965) e The Gulf (1969), livros em que procura dar corpo a uma identidade que mistura sangue europeu, asiático e africano; Another Life (1973), poema autobiográfico; e os recentes White Egrets (2010) e Morning, Paramin (2016), sendo o poema Omeros (1990) que, segundo a Poetry Foundation, reimagina a Guerra de Tróia para a transformar numa luta entre pescadores das Caraíbas com um taxista à mistura, o que os críticos consideram a sua obra maior.

“O que me guiou foi o sentimento de dever: um dever para com a luz das Caraíbas”, disse ao New York Times em 1990, a propósito de Omeros, obra em que ao longo de mais de 300 páginas convoca a Grécia Antiga, o império britânico e a América do século XIX, assim como Joseph Conrad, Herman Melville, James Joyce e, claro, Homero, escreve o diário The Washington Post. “Todo o livro é um acto de gratidão”, disse. Um acto de gratidão para com as Caraíbas - a paisagem, os cheiros, as pessoas.

Walcott, que nunca gostou que definissem Omeros como um poema épico – “os épicos são muito ambiciosos e este é um poema sobre uma pequena ilha nas Caraíbas”, disse em 2011 na Festa Literária Internacional de Pernambuco, no Brasil –, rejeitava que se olhasse para a poesia como algo com raça e género. “O mais próximo que temos da poesia é o amor”, dizia o autor, aqui citado pelo diário brasileiro Folha de S. Paulo. “O amor deixa-nos num estado de alheamento e um poema, nos seus melhores momentos, faz o mesmo.”

Além de poeta e professor universitário (leccionou nas universidades americanas de Boston, Columbia e Yale, assim como em Essex, Inglaterra, país em que decidiu desistir de se candidatar à titularidade de uma cadeira de Poesia em Oxford depois de uma série de denúncias anónimas ter reavivado suspeitas de assédio sexual em 1982), Derek Walcott era também dramaturgo, contando-se entre a sua bibliografia peças como Ti-Jean and His Brothers (1958), Dream on Monkey Mountain (1967) e Pantomine (1978).

Tido pela crítica como um dos maiores poetas em língua inglesa, lembra o New York Times, Walcott nunca deixou de trabalhar as questões complexas que envolviam a sua identidade, a de um poeta mestiço que cresceu numa ilha governada por ingleses (Santa Lúcia só se tornou independente em 1978) e onde se falava sobretudo um crioulo de base francesa. A de um homem que foi educado como um metodista em casa mas que frequentou um liceu católico onde a literatura inglesa era ensinada como se pertencesse a uma herança que também era a sua (figuras como Christopher Marlowe e John Milton foram referências de juventude).

No seu discurso de aceitação do Nobel perante a Academia Sueca, este autor que também recebeu Prémio T.S. Eliot (2011), descreveu assim a relação entre poesia e história, presenças constantes ao longo dos seus 87 anos de vida: “Para todo o poeta é sempre de manhã no mundo. A História é uma noite esquecida, de insónia; a História e o medo elementar estão sempre no nosso começo, porque o destino da poesia é apaixonar-se pelo mundo, apesar da história.”

Derek Walcott não está traduzido em Portugal.