Crítica Artes

A experiência das palavras e das imagens

"Verbivocovisual. A poesia experimental e concreta portuguesa de 1960 a 1975" é uma exposição fundamental, revisitando momentos centrais na construção da vanguarda artística portuguesa das ultimas década dos século.

As premissas das operações deste grupo de artistas–poetas são que as páginas onde se escreve não são superfícies meramente receptivas, mas campos performativos
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As premissas das operações deste grupo de artistas–poetas são que as páginas onde se escreve não são superfícies meramente receptivas, mas campos performativos

Através de centena e meia de obras esta exposição propõe-se desenhar um retrato cronológico da poesia experimental e concreta portuguesa, assumindo tratar-se de um dos períodos mais intensos e disruptivos das práticas artísticas portuguesas do século XX. Tratou-se de uma prática muito intensa sobretudo nas décadas de 1960 e 1970 onde se destacaram nomes como E. M. Melo e Castro, José-Alberto Marques, Ana Hatherly, Silvestre Pestana, Liberto Cruz, António Aragão, Barahona da Fonseca, Herberto Helder e Salette tavares, entre outros, e caracterizou-se, genericamente, por uma prática de dissensão relativamente ao cânone literário, tal como materializado numa crítica de poesia assente em pressupostos clássicos e/ou surrealistas, mas também foi uma forma de dissensão política a que não era estranho o clima de repressão politica pré-revolução de Abril.

O contexto cultural e político em que estes artistas e poetas viviam não é a razão suficiente do ímpeto experimental expresso pelas suas obras, mas fornece-nos o ambiente em que as suas tentativas de ruptura estética foram desenvolvidas mostrando, sobretudo, uma enorme vontade de liberdade. Uma vontade urgente de, como diz Herberto Helder, reinventar a poesia e reinventá-la ao ponto de transformar as habituais tipogologias poéticas, como as letras, as páginas e o objecto livro, em lugares estranhos e de reinvenção. Na introdução que faz aos Cadernos de Poesia Experimental, revista que serve como manifesto, Herberto Helder escreve: “a poesia moderna rompe com todas as explicações […]. A poesia é esse simples oficio esquecido que cada geração tem de reaprender.” E umas linhas à frente acrescenta: “a linguagem encontra-se sempre ameaçada pelos perigos da inadequação e invalidez. É algo que, no seu uso, se gasta e refaz, se perde e ajusta, se organiza, desorganiza e reorganiza — se experimenta. Como diria um poeta, é a própria lição das coisas.” E são estas operações, transformadas em poemas, imagens, performances e vídeos, que esta exposição tão bem documenta.

No mesmo ano em que Herberto Helder escreve aquelas linhas (1974) E. M. de Melo e Castro apresenta a exposição Concepto Incerto na Galeria Buchholz, e que é agora reposta totalmente, uma exposição determinante onde o artista explora a profundidade da relação entre palavra e imagem a qual se caracteriza por ser uma relação não de tradução directa — no sentido da palavra dizer e representar as imagens —, mas designar um campo de tensão em que palavras e imagens se fundem com vista a uma totalidade indestrinçável a que se chama poema ou, se se preferir, obra de arte. E esta é tensão produtiva que habita o centro das obras apresentadas nesta exposição.

As premissas das operações deste grupo de artistas–poetas são que as páginas onde se escreve não são superfícies meramente receptivas, mas campos performativos e de metamorfose sobre os quais se actua e nos quais se age; que a letra é um corpo com o qual o corpo do criador e do receptor se relaciona; e que a leitura é uma experiência emocional, intelectual e física. Portanto, aquilo a que se chama poema designa antes de mais um campo indeterminado caracterizados por múltiplas experiências, dentro e fora da página, dentro e fora das letras, dentro e fora das imagens, que levaram a uma total indefinição dos conceitos de obra de arte, de poema, de livro, da leitura e da experiência estética.

No lugar dos conceitos ortodoxos de poema e de obra de arte (pintura, desenho, escultura, etc) este grupo de artistas dá origem a uma multiplicidade de modos de nomeação que são simultaneamente diferentes modos de acentuar as diferentes e imensas camadas que compõem o poema e a obra de arte. Indistintamente surgem expressões como: poemas objecto, poesia visual, poesia fonética, poesia cinética, poesia, acção, poesia conceptual, vídeo poesia, entre outras. Mas por entre todas estas nomeações surge um denominador comum que é a ambição de superar os limites fixados para os diferentes géneros artísticos, bem como os limites da escrita e da imagem.

A exposição na Galeria Zé dos Bois é fundamental, por duas razões: a primeira, porque reúne uma quantidade significativa de obras dos principais elementos da poesia experimental e concreta portuguesa propondo a revisitação de momentos centrais na construção da vanguarda artística portuguesa das ultimas década dos século XX; a segunda, porque para além do alinhamento histórico cronológico propõe obras de artistas recentes, como Alexandre Estrela, António Poppe, João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Tomás Cunha Ferreira, von Calhau, entre outros, onde se mostra estar em causa não um período da histórico da poesia portuguesa, mas sim uma prática que continua operativa em importantes dinâmicas criativas contemporâneas.

Fazem falta a esta exposição mais objectos, filmes, desenhos e imagens que são operadores de criação de sensações de estranheza que obrigaram, e ainda obrigam, a pensar acerca da natureza da experiência da arte e das fronteiras dos diferentes géneros artísticos mostrando-nos como os devíamos a abandonar e no seu lugar falar só em Arte. Bem como fica por estabelecer o diálogo e o confronto destas diferentes práticas artísticas com o contexto internacional mostrando de que modo a relação palavra / imagem, arte / linguagem teve em Portugal com estes artistas um lugar singular e uma originalidade notáveis.