Nova fundação fala da criação de uma “geração azul” em Portugal

Marcelo Rebelo de Sousa esteve na apresentação da Fundação Oceano Azul e anunciou que vai condecorar Alexandre Soares dos Santos com a grã-cruz da Ordem do Mérito Empresarial.

Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Pitta e Cunha a cumprimentarem-se e, ao seu lado, José Soares dos Santos e a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino
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Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Pitta e Cunha a cumprimentarem-se e, ao seu lado, José Soares dos Santos e a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino Daniel Rocha

Mesmo a uns bons metros do oceano, ouviam-se sons das profundezas do mar. Este ambiente no Convento do Beato, em Lisboa, dava assim as boas-vindas à nova Fundação Oceano Azul. O arranque estava marcado para as 10h desta sexta-feira, e mais minuto, menos minuto, lá se iniciou a cerimónia com um ecrã com vista para os oceanos.

A plateia preencheu as cadeiras e entre elas estiveram personalidades da política ou da ciência. Ao vice-presidente da Assembleia da República, José Manuel Pureza, à ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, à ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, juntaram-se a líder do CDS-PP Assunção Cristas, a ex-ministra da Educação Isabel Alçada, ou Ana Noronha, da agência Ciência Viva. E mesmo em cima da hora, o anterior Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com Maria Cavaco Silva, também marcaram presença. Afinal, o presidente executivo da Fundação Oceano Azul, Tiago Pitta e Cunha, foi o assessor de Cavaco Silva para os assuntos do mar.

Quem começou as apresentações foi José Soares dos Santos, da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (a principal accionista do grupo Jerónimo Martins, dono do Pingo Doce), que agora criou a Fundação Oceano Azul e da qual é o chairman tanto do conselho de administração como do conselho de curadores. Começou por dizer que este era um dia “importante” para a Sociedade Francisco Manuel dos Santos: “Assumimos o nosso compromisso com o Estado português.” José Soares dos Santos fala da concessão do Oceanário de Lisboa: “Candidatamo-nos à concessão para dar a esse equipamento de excelência a responsabilidade de ser o porta-voz dos oceanos e de fazer dos seus visitantes os seus embaixadores.”

O objectivo da Fundação Oceano Azul é tornar os oceanos sustentáveis. “A nossa visão é a de um oceano saudável e produtivo”, disse José Soares dos Santos. Destacando as ligações de Portugal com os oceanos a nível da geografia, a biologia, a história e cultura, mencionou a “pertinência” da nova fundação para a literacia dos oceanos, para desenvolvimento de uma “geração azul” e mudança de comportamentos. Com isto, a fundação pretende incluir todas as crianças do 1º ciclo, pensar as pescas sustentáveis ou as áreas marinhas protegidas. “Só é possível estarmos satisfeitos, se apostarmos numa nova governação, assente no conhecimento científico, e se apostarmos na nova economia do mar e da consciência da vida económica.”

Um fosso entre cientistas e sociedade

Tiago Pitta e Cunha moderou uma mesa-redonda com curadores da nova fundação: a princesa holandesa Laurentien van Oranje-Nassau, Jane Lubchenco, investigadora da Universidade do Estado de Oregon, o almirante Nuno Vieira Matias, a directora executiva do Aquário da Baía de Monterey, Julie Packard, e o especialista ambiental Viriato Soromenho Marques.

Como podemos responder ao dilema entre a economia e a sustentabilidade? “Temos feito o oposto do que deveríamos fazer”, respondeu Soromenho Marques a Pitta e Cunha. “Não é apenas um problema técnico, é também moral e político.” Como tal, os governantes em Portugal devem colocar os oceanos na agenda nacional, sublinhou.

Falando de filantropia, ciência e aquários, Julie Packard deixou uma ressalva ao Oceanário de Lisboa: “Têm um fantástico aquário aqui.” Já Jane Lubchenco destacou que a solução para as ameaças dos oceanos têm de ser pensadas em conjunto. E Laurentien van Oranje-Nassau acrescentou que a educação das crianças é crucial, pois serão elas que vão ter “papéis decisivos na sociedade” e considerou o Oceanário de Lisboa é um “bom exemplo”.

Marcelo Rebelo de Sousa chegou mesmo só para o discurso de encerramento. Depois dos cumprimentos habituais na plateia, dirigiu-se a Alexandre Soares dos Santos (que até Novembro de 2013 foi presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins), que estava ausente: “Decidi agraciar com a grã-cruz da Ordem do Mérito Empresarial a um empresário sensível a todos os grandes desafios da nossa pátria.” E deixou mais elogios, mesmo a Cavaco Silva, que já tinha deixado o Convento do Beato na altura do discurso do seu sucessor: “Estou longe de ser o primeiro Presidente da República a lançar este desafio. Na questão de reaproximação ao mar, é justo elogiar a acção do meu antecessor.” Além disso, destacou os contributos para os assuntos do mar de Mário Soares e Mário Ruivo, que morreram no início de 2017.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, um dos grandes problemas na sociedade é “o fosso entre cientistas e população em geral”. “A Fundação Oceano Azul pode procurar trazer [para a sociedade] o conhecimento científico em que somos deficitários, neste caso o conhecimento científico do mar”, acrescentando: “Estou consciente da contribuição para a sustentabilidade dos oceanos construída a partir de todas as crianças em Portugal.” Tudo para que seja criada, disse, uma “geração azul”.