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A elegância feita arte

É legítimo perguntar de que modo devemos hoje considerar a obra deste artista, que comemora por estes dias o 90.º aniversário.

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Manuel Cargaleiro Rui Gaudêncio

É possível que, para os millennials, o nome de Manuel Cargaleiro não diga muito. Senhor de uma obra assinalável no domínio da pintura e da cerâmica, Cargaleiro, que nas décadas de 70 e 80, pelo menos, chegou a identificar uma certa ideia de modernidade de filiação francesa – uma reputação que possuía o seu justo equivalente nas cotações das obras vindas a mercado, e nas exposições de sucesso que periodicamente realizava em Portugal –, deixou nos anos mais recentes de mostrar o seu trabalho em Lisboa como no Porto. E apesar da existência de um museu com o seu nome, de obras de arte pública espalhadas um pouco por todo o lado, de possuir, como todos os membros mais destacados da arte contemporânea feita por portugueses, uma estação de metropolitano decorada por si, o que é certo é que a sua residência de eleição, em Paris, acaba por ter consequências na visibilidade que a sua obra merecia por aqui.

É legítimo, por isso, perguntar de que modo devemos hoje considerar a obra deste artista, que comemora por estes dias o 90.º aniverário. Como já referimos, foi pintor e ceramista, mas também autor de tapeçarias, de múltiplos e de desenhos. Nunca deixou que a sua criatividade se manifestasse apenas através de uma disciplina, e nisto é o digno companheiro de outros portugueses que consigo partilharam o exílio voluntário – quando não político, que nunca foi o caso de Cargaleiro – em Paris. Com o casal Vieira da Silva-Árpád Szenes, com uma geração que foi a última a debruçar-se sobre a pertinência, ou não, da abstracção e da figuração – dilema ainda comum na década de 60 –, a Cargaleiro, como a outros seus amigos, couberam o papel e a honra de integrar a última geração de membros da Escola de Paris, uma designação que nunca significou um movimento organizado, mas sim um conjunto de talentos que trabalhava na capital francesa no imediato pós-guerra.

É neste contexto parisiense que Cargaleiro desenvolve uma abstracção visualmente apelativa, elegante, e até, nessa época já longínqua, algo combativa. A Escola de Paris, na diversidade dos artistas que dela se reclamavam, nunca abandonou por completo uma tradição de mundanidade e amabilidade que podemos recuar até aos Nabis e a Matisse, em primeiro lugar, e mais longe às sensações essencialmente urbanas do Impressionismo, no último quartel do século XIX.

Os novos ventos que soavam no final da década de 60, não apenas com a figuração dos Nouveaux Réalistes como com a radicalidade abstracta do movimento Support-Surface não afectaram a obra de Cargaleiro, que continuou a partir daí a criar segundo um estilo muito próprio e que ainda hoje identificamos com o seu nome. Em breve, a globalização do mercado artístico iria fazer trocar o interesse de artistas de Paris por Londres ou Nova Iorque.

Em Portugal, contudo, e pese embora esta realidade mais consoante com as novas gerações, a importância do modelo francês nunca desapareceu por completo. Para além do casal Vieira da Silva-Arpad Szenes, muitos outros artistas e mesmo críticos continuaram e continuam a escolher Paris para viver temporadas, trabalhar, fazer exposições. Pensemos, por exemplo, em Dacosta, em Jorge Martins, em Lourdes Castro ou René Bertholo, em Pedro Chorão. Cargaleiro sempre esteve em boa companhia. E assegurou, por direito próprio, o seu lugar na história da arte em Portugal.

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