Sérgio Godinho: “Volta-se sempre, depois de morto”

Amália cantava: “Que perfeito coração”. Sérgio Godinho escreve Coração Mais Que Perfeito para falar de imperfeições, de resistentes, de desistentes, de cinzas que vêem nascer diamantes. Um romance que diz também: “Regressa-se sempre na vida de outras pessoas, depois de morto”. Até em forma de jóia.

“Quando acabei o livro fiquei de tal modo órfão das personagens que já escrevi outro livro, está pronto, e comecei um terceiro. Mas não deixei as canções. Aliás, estou a escrevê-las, para um disco a sair no final do ano”
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“Quando acabei o livro fiquei de tal modo órfão das personagens que já escrevi outro livro, está pronto, e comecei um terceiro. Mas não deixei as canções. Aliás, estou a escrevê-las, para um disco a sair no final do ano” Enric Vives-Rubio

Por várias vezes lemos esta frase: “Achas normal?” Quem a diz é Eugénia, a personagem principal do novo romance de Sérgio Godinho, que sucede ao livro de contos Vidadupla, lançado no último trimestre de 2014. Mas o leitor é também desafiado, senão a repeti-la, pelo menos a exclamá-la em silêncio. Coração Mais Que Perfeito, com chancela da Quetzal como o anterior, é nas suas quase 250 páginas um desafio à resistência dos personagens e um teste à relação do leitor com eles. Desde o início. Uma mulher que acorda em sobressalto, um homem morto na cozinha, seu homem e seu amor, com uma faca eléctrica enterrada no coração. Isto na primeira página. Um começo sangrento, que no entanto é o epílogo (ou quase epílogo) do muito que se passou antes e que só agora iremos saber. Podia ser o início de um livro policial, mas é uma história de vidas comuns, com tudo aquilo que as vidas comuns acabam por ter de extraordinário. Como o coração feito de cinzas logo visível na capa. Ou o diamante que surgirá das cinzas, como num passe de mágica. Só depois.

Sérgio Godinho embrenhou-se neste livro como numa pequena selva de sentimentos. Após o choque inicial (o que haverá, para além daquela morte?) teremos outros. Mas para isso há que recuar muito na história da personagem principal, e isso faz-se dezassete páginas adiante, a infância de Eugénia, a adolescência, o seu medir de forças com o mundo. Eugénia e Artur, a quem ela alcunhará de Eugene (soando por vezes à francesa ou à americana, “um nome de pronúncias”). Como se criasse um duplo. Neles, que já se desdobravam noutras personagens: ela, por impulso, faz de prostituta. Ele, por profissão, faz de várias coisas: é actor de teatro.

Uma sobrevivente

“Há duas personagens principais”, diz Sérgio Godinho ao Ípsilon, falando sobre o livro. “A Eugénia, que atravessa do princípio ao fim o livro, e o tal Artur. A Eugénia é alguém que não tem um rumo definido na vida. Tem uma resiliência própria, é forte, é uma sobrevivente. Mas quando ela é atraída por esse lado um bocadinho perverso, o da prostituição, não é propriamente por dinheiro, há ali qualquer coisa que a atrai.” Um desejo de representação? “Sim. O que é curioso é que nas poucas experiências que ela tem (depois aquilo corre mal) ela sente-se estranhamente à-vontade, como se aquilo já tivesse sido uma coisa comum na sua vida. Quanto ao Artur, quando apareceu, eu sabia que havia um homem que ia cumprir uma determinada função e a certa altura se ia perder em si próprio. Mas pensei que seria interessante ser um actor. Porque eu, como ficcionista, como narrador, sou um dramaturgo também, estou a criar personagens. Que ganham uma vida própria, fazem-nos perguntas.”

Eugénia aprende cedo a defender-se. Pais desavindos, um tio abusador (que ela tolera, com algum calculismo, para uma iniciação sexual sem demasiados avanços), “Que referências podia ela ter? Crescia sozinha no meio do mato.” (pág. 134). E no entanto ela resiste. “É uma sobrevivente nata. E ele, pelo contrário, que tem uma personalidade forte, deixa-se apanhar por um lado obscuro, uma espécie de flor do mal, que o fragiliza. No caso, foi numa peça de teatro em que ele é finalmente protagonista, uma peça importante, com uma actriz importante, onde esta se transfere da personagem para a pessoa e começa a odiá-lo (porque no palco eles são um casal que se odeia). E ele é contaminado por esse ódio, esse mal.”

Eugénia, segundo os dicionários, vem de “bem-nascida”, de “boa estirpe”, de “boas origens”. Uma contradição voluntária, neste caso? “O nome Eugénia surgiu-me naturalmente, mas também pensei nisso. Há uma estranha consonância entre esse nome e a capacidade de brio que ela tem em relação a ela própria, é alguém que não se deixa levar, que pensa pela sua cabeça. Há essa nobreza de carácter, embora os valores dela sejam um pouco voláteis.”

“Fala de ti, Eugénia”

Voltando ao flashback imenso que ocupa grande parte do interior do livro. “Aí é como se o narrador estivesse a pedir à personagem: expõe-te. E digo: ‘Fala de ti, Eugénia’. O narrador é invisível, mas há certos momentos neste romance em que ele aparece muito subtilmente. Um deles é esse e outro é quando diz: ‘mal ele sabia’; ou ‘mal ela sabia’. É claro que é um recurso narrativo, mas também põe as pessoas de alerta: há aqui qualquer coisa, tenho de continuar a ler para saber.” Uma coisa sabe-se logo, a morte dele. Como? Sérgio procura clarificar: “Embora não esteja completamente expresso, é um suicídio. Até porque ela diz: ‘Tinha morrido sem dizer nada e com o coração de há muito pouco perfeito.’”

Logo de início, há duas cenas de grande carga emotiva: o cerimonial da morte, a cremação; e o aborto que ela faz ainda adolescente, clandestino, da hesitação à consumação. “É muito forte. Há também as cenas de sexo, narradas, mas aí há que pegar com pinças especiais para não cair naquilo a que se chama mau gosto. Mas as cenas do aborto clandestino são longas porque elas retratam um pouco essa espécie de mal-estar, de agonia, porque aquilo corre mal, há febres, dores, uma infecção. Isso depois passará, mas tem algumas consequências.”

Quando Eugénia encontra Artur a ele se prende, é quase como se criasse um duplo. Diferente mas complementar. “O amor deles é muito forte e há ali uma coincidência de personalidades, uma espécie de desejo de comunhão. E mesmo quando há uma degradação da personagem masculina, esse amor permanece intacto. Para lá da morte e mesmo no simbolismo do diamante.” No processo de degradação que o conduzirá ao suicídio, Artur/Eugene diz a dado passo, recordando um momento seu em palco (p. 177): “Era outra pessoa, e essa pessoa estava sóbria. E era ele. Talvez essa, sim, a essência do actor.” Um bêbado que em palco fica sóbrio. “Esse episódio foi-me contado: a história verídica de um actor que é alcoólico mas que, ao entrar em cena, se transforma em alguém sóbrio porque a personagem está sóbria.”

“Positivo, apesar de tudo”

O livro, tendo a morte por pretexto, fala sobretudo da vida. “O livro é positivo, apesar de tudo”, diz Sérgio. “Acontecem, é verdade, coisas bastante más. Mas há uma força de vida, nomeadamente na personagem da Eugénia, mesmo nas situações mais difíceis. Eu já disse isto, até nas canções, mas não tenho personagens femininas fracas. As Etelvinas e as Ritas têm sempre uma força interior, de sobrevivência.” Mesmo a morte tem um retorno de vida. “Regressa-se sempre na vida de outras pessoas, depois de morto”, diz-se no livro (p. 107). Sérgio confirma. “Essas pessoas tornam a viver. A lembrança activa dos mortos é muito presente nas nossas vidas. Faz agora 30 anos que o Zeca Afonso morreu e ainda há uns dias estava a contar coisas sobre ele, uma pessoa riquíssima em comportamentos e episódios. Eu às vezes sonho com os meus pais, às vezes separados, às vezes juntos, e quando acordo sinto que estive mesmo com eles. Isto não é metafísica barata, é mesmo um sentimento real.”

Sérgio Godinho tomou o gosto à escrita, a esta escrita de “longo curso”, porque a de canções nunca a abandonou, nem mesmo agora. “Quando acabei o livro fiquei órfão das personagens. De tal modo que, como tinha uma ideia para outro, já escrevi outro livro, está pronto, e já comecei um terceiro. Mas o novo livro fica para o ano, porque este tem de ter um tempo de respiração.” Alguma ligação com o actual? “Não, é completamente diferente. Mas é também um romance. Eu não escrevo muito por dia, mas passei a escrever quase quotidianamente. Mais à noite, embora possa escrever a partir do meio da tarde. No Lisboa que amanhece há até aquela frase ‘as dádivas da noite são eternas’. Porque à noite realmente pára tudo, há qualquer coisa de recolhimento e eternidade na noite. Para mim, isto foi um começar de novo noutro jardim. Porque essa continuidade de escrita eu não a conhecia e foi algo que me trouxe muito. Mas não deixei as canções. Aliás, estou a escrevê-las, a compor com parceiros, para um disco que sairá mais para o final do ano.” Por agora, deixa-nos com este Coração Mais Que Perfeito. Mostrando que não há corações perfeitos, mesmo que o pareçam.