Joe Berardo autoriza novos estudos laboratoriais ao polémico O Chafariz d’El-Rey

Autenticidade desta pintura voltou a ser posta em causa com a exposição A Cidade Global. Desta vez divide a polémica com outra obra, Vista da Rua Nova dos Mercadores. Empresário madeirense é o dono deste quadro que mostra o principal chafariz da Lisboa do século XVI.

Visita à exposição <i>A Cidade Global</i> com <i>O Chafariz d’El-Rey</i> por trás do guia
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Visita à exposição A Cidade Global com O Chafariz d’El-Rey por trás do guia Jornal Publico

Nas vésperas da inauguração de A Cidade Global — Lisboa do Renascimento, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, dois artigos no semanário Expresso punham em dúvida a autenticidade de duas pinturas da exposição: O Chafariz d’El-Rey (c.1570-1580) e Vista da Rua Nova dos Mercadores (1570-1619).

Rapidamente o debate se instalou entre historiadores, historiadores de arte, comissárias, conservadores e directores de museus, com muita tinta a correr na imprensa e tempo de antena nos noticiários das rádios e das televisões. Uns defendiam as datações propostas pela exposição de Arte Antiga, outros que se trata de obras executadas à maneira antiga, provavelmente no século XIX ou já no XX.

Reportagens feitas durante os primeiros dias da exposição mostraram que aos visitantes a polémica entre os especialistas pouco importava e que aquilo que era para a maioria realmente interessante era percorrer as galerias da exposição e imaginar a Lisboa do Renascimento a partir dessa grande artéria comercial ribeirinha que era a Rua Nova dos Mercadores.

Ainda assim, e muito graças à polémica, O Chafariz d’El-Rey Vista da Rua Nova dos Mercadores provocavam curiosidade. Seriam mesmo do final do século XVI, princípios do XVII? E se, afinal, tiverem pouco mais de cem anos, que motivos teria alguém para fazer estas pinturas como se fossem antigas se o seu autor não é famoso?

Foi precisamente para responder a essa curiosidade que António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), decidiu pedir aos proprietários das pinturas — o empresário madeirense Joe Berardo e a Sociedade dos Antiquários de Londres, respectivamente — que autorizassem novas análises materiais a estas duas obras.

Londres ainda não autorizou um novo estudo de laboratório da Vista da Rua Nova dos Mercadores, mas Berardo já fez saber à direcção do museu que não tem quaisquer objecções a que O Chafariz d’El-Rey seja outra vez “visto à lupa”.

“Querem fazer mais estudos à pintura? Façam à vontade. Não há melhor publicidade para esta pintura e para a dos ingleses do que mais análises nos laboratórios”, disse ao PÚBLICO o empresário ao final da manhã desta quinta-feira, acrescentando que a obra já foi sujeita a inúmeros exames antes de a comprar e depois, quando a emprestou a várias exposições, tanto em Portugal como no estrangeiro. “Não tenho muito interesse nestes estudos porque já tenho vários, mas mais um também não faz mal. É por isso que autorizo. Muitos especialistas já andaram à volta dela quando foi para Washington e para Bruxelas. Portugueses e estrangeiros, e nunca duvidaram [de que fosse genuína, do século XVI]. Se há outros que duvidam, venham lá os testes para todos ficarem a saber.”

Na conferência de imprensa que antecedeu a inauguração de A Cidade Global, uma exposição comissariada pelas historiadoras Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe, também autoras de um livro em que indentificam a pintura da Sociedade de Antiquários de Londres como sendo uma representação da Rua Nova dos Mercadores (The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon), o director do MNAA reagiu à polémica desencadeada pelos semanário Expresso fazendo precisamente referência ao escrutínio a que O Chafariz tinha já sido sujeito em exposições nacionais e internacionais como Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th and 17th Centuries (Smithsonian Institution, Washington) e Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX (Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa).

O que aí vem

Agora que Berardo deu a sua autorização, António Filipe Pimentel vai reunir condições para que técnicos do Laboratório José de Figueiredo, organismo afecto à Direcção-Geral do Património Cultural e especializado em conservação e restauro, submetam a pintura a um completo leque de exames que deverão passar, explica o historiador de arte ao PÚBLICO, pela “análise da camada pictórica, com recolha de amostras, por radiografias, reflectografia de infravermelhos [método destinado a aceder ao que a camada visível da tinta esconde] e estudos de suporte [O Chafariz d’El-Rey foi pintado sobre castanho, um tipo de madeira que representa um desafio para a dendrocronologia, método que procura estabelecer a idade da madeira com base nos padrões dos seus anéis]”.

Diz Pimentel que os estudos, feitos sem que a pintura precise de sair da sala do museu onde agora se encontra, irão “tão longe quanto possível”, o que não garante que, no final, os resultados sejam taxativos. “Analisar uma pintura antiga não é a mesma coisa do que fazer uma análise de sangue. Para além dos dados materiais, há muitas coisas que depois temos de ter em conta. É preciso convocar uma verdadeira junta médica com muitas especialidades: olisipografia, física, química, história de arte... E mesmo assim pode não se chegar a conclusões, e certamente pode não se chegar a conclusões que agradem a todos.”

Seja do século XVI ou já do XVII, como a Vista da Rua Nova, O Chafariz  mantém toda a importância para a exposição de Arte Antiga, defende o seu director, porque o seu valor é histórico, documental, e não artístico. “Não estamos aqui perante um Brueghel. Trata-se de um artista mediano a trabalhar para uma clientela mediana. O que esta pintura nos traz é informação e é precisamente pela iconografia que chegaremos lá, ou não.” A bem da verdade, acrescenta, O Chafariz d’El-Rey interessa muito mais aos que estudam a cidade do que aos que estudam a arte. O mesmo se passa com a Vista da Rua Nova dos Mercadores, uma pintura sobre tela cuja datação proposta (1570-1619) também mereceu contestação.

Quanto à pintura que pertence à Sociedade dos Antiquários de Londres, novas análises só serão conduzidas se a autorização para tal chegar antes do fim da exposição, a 9 de Abril, o que é provável que não aconteça.

Contactada pelo PÚBLICO, esta sociedade disse não ter ainda recebido o pedido formal do Museu de Arte Antiga, que foi endereçado ao seu secretário-geral, John Lewis, e que seguiu pelo correio a 8 de Março. De qualquer forma, a directora de comunicação, Renée LaDue, esclarece que o pedido terá de ser submetido à apreciação do responsável pela biblioteca e pelas colecções, que depois o apresentará ao conselho de curadores, que tomará a decisão final, algo que dependerá sempre “dos métodos de análise e pesquisa propostos”, da garantia de segurança das pinturas (a Vista da Rua Nova dos Mercadores foi dividida em dois painéis, muito provavelmente no século XIX e por um ilustre proprietário, o poeta e pintor pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti) e de um “leque de factores logísticos adicionais”. Um processo que, diz LaDue, leva a que esta seja uma decisão demorada.

Por princípio, a proprietária da obra não se opõe a novos trabalhos de investigação centrados nas peças das suas colecções, “mas cada caso é um caso e, por isso, precisa de ser analisado isoladamente”. Garante a directora de comunicação que a polémica que em Lisboa rodeou a Vista da Rua Nova foi bem recebida em Londres — “ficámos radiantes que a nossa pintura tivesse estimulado um debate académico entre historiadores e historiadores de arte” — e que o aprofundamento do trabalho de investigação em torno da pintura que pertenceu a Rossetti é bem-vindo.