Crítica

O disco rígido do computador de Roberto Bolaño continua a produzir obra

O disco rígido do computador de Roberto Bolaño continua a produzir obra para alimentar o mito e a polémica em torno da edição póstuma. E os seus leitores alegram-se com mais um livro na génese de romances maiores. Este é O Espírito da Ficção Científica.

Foto

“...aqui há qualquer coisa insana. Muito triste e muito obscura”, diz um escritor a um jornalista sobre o ambiente literário no México dos anos 70 e a observação pode servir para classificar O Espírito da Ficção Científica (Quetzal), livro de Roberto Bolaño que ficou inédito até ao final de 2016, ou seja, mais de 13 anos após a sua morte. Isso, apesar da alegria, do excesso de álcool, do sonho, do absurdo, da juventude e lascívia que atravessam o romance que parece ter estado na génese das grandes obras do chileno: Detectives Selvagens e 2666. Mas há uma melancolia que perpassa o que pode ser lido como um livro de formação de outros livros.

Agora editado em Portugal, O Espírito da Ficção Científica surge envolto na polémica que tem acompanhado a obra de Bolaño publicada após a sua morte, a do alegado aproveitamento editorial de textos que o escritor optou por não publicar em vida. Ou por não os considerar completamente terminados ou por achar que não eram suficientemente bons. O último que deu para publicar foi o volume de contos El Gaucho Insufrible (2003). Este é o quarto título a sair postumamente, mas a polémica estalou logo em 2004, quando Carolina López, a viúva do escritor que morreu aos 50 anos, autorizou que se publicasse 2666 (Quetzal, 2009) num único volume quando o seu conteúdo parecia ter sido planeado por Bolaño para funcionar como uma espécie de série. A expressão então mais repetida era “aproveitamento económico”. De um autor que ganhara o estatuto de mito. E agudizou-se após a decisão de Carolina Lopez trocar a editora de sempre de Bolaño — a Anagrama — pela Alfaguara. Estas polémicas ajudam, no entanto, a alimentar o mito e a diversidade do material que deixou — poesia, prosa, muitas vozes, heteronímia – no disco rígido do seu computador tem com conteúdo suficiente para que se mantenha pelo menos por mais uns anos.

É neste contexto (síntese muito breve) que nos chega O Espírito da Ficção Científica, com os fiéis de Bolano - críticos ou não acerca do modo como a gestão da sua obra tem sido feita pelos seus herdeiros - a porem a polémica de parte para poderem mergulhar em mais um livro. O romance tem a data e o lugar de fecho, Blanes, de 1984, e acompanhou parte da escrita futura do autor. Lê-lo é como recuar até um momento de formação e perceber de onde surgiram tópicos, personagens, geografia, política e a indagação sobre a literatura, no que tem de interpelação ao mundo.

É um romance com o qual Bolaño teve uma sofrida luta criativa, conforme confidenciou a amigos. Escreveu cartas a alguns ao longo do processo da que chamou então “mi abominable novela”. O ponto de partida é a Cidade do México. Dois amigos, Jan e Remo, aspirantes a poetas, obcecados com a poesia e com a ficção científica, partilham um quarto... ou um sótão, “paisagem de patíbulo, mas com profundidade. Com amanheceres e entardeceres”. São chilenos e querem afirmar-se no cenário fulgurante e louco da metrópole literariamente fervilhante, de suplementos de literatura, revistas e poesia, boémia, tertúlias, sexo. Remo escreve para pagar as contas, Jan escreve cartas aos seus autores preferidos de ficção científica e vive numa espécie de bolha entre o quarto e passeios pela Avenida de los Insurgentes, a mais extensa da capital mexicana.

A narrativa da vivência deste quotidiano caótico, num registo mais realista, é intercalada por uma entrevista ao vencedor de um prémio de poesia que atravessa a novela com a conversa entre autor e jornalista a revelar-se um exercício do absurdo, possibilidade ao mesmo tempo de elevação criativa e de falha, onde o fantástico impera. Interrogado sobre a razão de tantos cenários europeus na sua obra, se não seria mais proveitoso ir ao “particular” e à “província” por estar aí a “autêntica universalidade”, o escritor premiado responde: “não há cenários europeus na minha humilde obra-prima. Há leituras infantis que voltam a aparecer, meio nostalgia, meio desespero”.

Estamos perante um dos alter-egos de Bolaño, Remo Morán, apaixonado por Laura. Ele aparece em A Pista de Gelo (Quetzal, 2012); ela será desenvolvida em Detectives Selvagens (Teorema, 2008), o livro onde mais se sente haver nascido da semente que é O Espírito da Ficção Cientifica. Mas Bolaño também está em Jan Schrella, no modo como vive uma obsessão literária. E está sobretudo no estilo que intercala géneros, tempos, vozes conquistando uma toada encantatória a que o seu leitor não é alheio, havendo mesmo momentos em que se pressente uma enorme familiaridade, aquela de quem entra uma casa que reconhece pelos sentidos. Isso é mais notório em Manifesto Mexicano, o ultimo bloco do livro e aquele que faz com que este não seja totalmente inédito. Foi publicado isoladamente várias vezes, a ultima numa edição da revista New Yorker, em 2013. Revisto, integra o romance, mas pode funcionar como um conto autónomo. É o bloco menos hesitante de um volume onde os fiéis a Bolãno podem sentir a cumplicidade de entrar no íntimo de um autor que se estava a construir. Os soluços fazem parte dessa intimidade.

Como brinde, o volume reproduz páginas do manuscrito, numa caligrafia pequena e certa, notas, desenhos feitos pelo escritor enquanto trabalhou no livro.