Colóquio no Porto assinala o centenário de Húmus

Após o festival Húmus, em Guimarães, um colóquio no Porto e vários lançamentos editoriais evocam os 150 anos de Raul Brandão.

Raul Brandão e a mulher, Maria Angelina, no ano em que se casam (1897)
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Raul Brandão e a mulher, Maria Angelina, no ano em que se casam (1897) Fotos retiradas da biografia <i>Raul Brandão – A Obra e o Homem</i>, Arcádia, 1963

Maria João Reynaud abre esta quarta-feira de manhã na Universidade Católica do Porto, com a conferência Húmus, Livro de Um Século, o colóquio internacional dedicado a Raul Brandão, que assinala simultaneamente os 150 anos do nascimento do autor e o centenário da sua obra-prima, publicada em 1917 pela editora do movimento Renascença Portuguesa.

O colóquio do Porto, que reúne cerca de trinta especialistas portugueses e estrangeiros na obra de Brandão, segue-se à homenagem prestada ao autor em Guimarães, onde o festival literário Húmus, comissariado por Francisco José Viegas, lhe dedicou por inteiro a sua segunda edição. Com um programa que terminou a 12 de Março, data em que se cumpriram 150 anos sobre o nascimento do escritor, o festival incluiu sessões de leitura, palestras, música e cinema, e conseguiu ainda apresentar em Guimarães todas as peças de teatro escritas por Brandão, num ambicioso projecto que envolveu os diversos grupos amadores do concelho e os alunos de teatro da Universidade do Minho.

Após a conferência inaugural da professora da Faculdade de Letras do Porto – especialista em Raul Brandão, deve-se a Maria João Reynaud a edição crítica de Húmus (Campo das Letras, 2000), que inclui fac-similes das três versões do livro publicadas em vida do autor –, o colóquio da Universidade Católica prossegue ainda durante a manhã com a ensaísta Paula Morão, cuja palestra partirá da coincidência de o ano de 1967 ter visto nascer três escritores da dimensão de Raul Brandão, António Nobre e Camilo Pessanha, e com o italiano Piero Ceccucci, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Florença, que abordará as Memórias de Brandão.

O programa, que termina na quinta-feira, dá a Húmus um justificado relevo, mas procurou cobrir as muitas facetas da extensa e diversificada obra de Raul Brandão, com intervenções dedicadas ao seu teatro, às primeiras ficções, ou aos livros de viagens. Outras conferências abordam os diálogos do autor com outros escritores, como Fialho de Almeida, Guerra Junqueiro ou Teixeira de Pascoaes, e com os movimentos culturais do seu tempo, dos Nefelibatas à Presença.

Mas se há um tema forte neste encontro, ele é talvez o da modernidade de Raul Brandão, e o modo como esta pode ser caracterizada e situada no contexto da literatura portuguesa da época. Uma discussão que mostra até que ponto Brandão é ainda um caso em aberto, e que neste encontro será retomada em intervenções como Relendo Húmus: os paradoxos (comparatistas) da modernidade, de Álvaro Manuel Machado, Os rumos da modernidade em Raul Brandão, de Vítor Pena Viçoso, ou Raul Brandão entre a modernidade e a originalidade: sobre algumas leituras críticas, do especialista francês de literatura comparada Daniel-Henri Pageaux.

O sesquicentenário de Brandão será também assinalado por um conjunto de edições, a começar, no próximo dia 24, pelo lançamento das suas Memórias num só volume, com chancela da Quetzal. Consideradas um dos grandes exemplos da nossa literatura memorialística, foram originalmente editadas em três tomos, os dois primeiros publicados pelo autor, respectivamente em 1919 e 1925, e o terceiro lançado já postumamente em 1933.

A última ficção do autor, O Pobre de Pedir, publicada logo após a sua morte, em 1931, e que não era reeditada há décadas, será agora relançada, a 7 de Abril, pela Ponto de Fuga, num volume com prefácio do romancista João de Melo, e a editora E-Primatur publicará em Maio A Vida e o Sonho – Inéditos, Antologia e Guia de Leitura, uma vasta escolha da obra brandoniana, tanto literária como jornalística, da responsabilidade de Vasco Rosa, que fora já o responsável pela organização do extenso volume consagrado aos textos dispersos do escritor que a Quetzal publicou em 2013 com o título A Pedra Ainda Espera Dar Flor.

E enquanto se aguardam estas novas edições, aqueles a quem estas comemorações despertaram a curiosidade e ficaram com vontade conhecer melhor a obra de Raul Brandão, podem também optar por descarregar gratuitamente versões digitais de alguns dos seus títulos, como A Farsa (1903), Os Pobres (1906), ou Húmus no site da Luso Livros (www.luso-livros.net ).