Torne-se perito Crítica

Uma história dos Buzzcocks

A redescoberta de dois discos que revelam a primeira vida de uma das melhores bandas do punk inglês.

Em 1977, na Inglaterra, eis como soava uma banda punk
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Em 1977, na Inglaterra, eis como soava uma banda punk

Como se apresenta Spiral Scratch, o lendário EP dos Buzzcocks? Com riffs roucos, bateria tensa e acelerada. Em 1977, na Inglaterra, eis como soava uma banda punk. Sôfrega, cheia de pressa, a comer as palavras. Breakdown, o tema inaugural, era, na voz de Howard Devoto, o sintoma desse estado de espírito, em que à confusão se seguia o desfalecimento. O vocalista formara a banda em Manchester no ano de 1976 com Pete Shelley (de seu verdadeiro nome Peter McNeish) depois de assistirem a um concerto dos Sex Pistols.

Os dois amigos, estudantes na Universidade de Manchester, tinham encontrado algo de verdadeiro e de autêntico no que era suposto ser (de acordo com alguma bibliografia) uma fraude, um grupo de marionetas. Circunstâncias e pontos de vista. Abalados pelo que viram e ouviram em Londres nessa noite, não desistiram até trazerem Anarchy in the UK a Manchester, o que viria a acontecer em Julho desse ano.

No primeiro concerto, foram espectadores, ao lado de Morrissey, Ian Curtis, Peter Hook, entre outros futuros músicos. No segundo, estreavam-se como banda de abertura dos Sex Pistols. Na sua modéstia juvenil, o punk rock foi grandioso e excitante.

Uma história dos Buzzcocks nascia, embora não aquela que se tornaria a mais conhecida e celebrada. Spiral Scratch e o inédito Time’s Up, agora reeditados pela Domino, correspondem ao primeiro ano do grupo, quando a dupla Devoto e Shelley ainda dividam as tarefas. O sexo e a sexualidade, o tédio, o amor, a alienação dos jovens em relação ao mundo já guiavam as canções, distinguindo-as das frivolidades dos pares londrinos, mas a pop dos discos subsequentes ainda não se escutava. No lugar da voz graciosa de Shelley e das melodias encantadoras, irrompiam o pânico teimoso de Devoto e a dissonância que, do outro lado do Atlântico, animava a no wave ou cena de Cleveland. Em 1976, os Buzzcocks estavam mais próximos dos DNA, de Arto Lindsay, do que dos The Damned.

Escutem Friend of Mine” ou a homenagem sincera e bruta a I Can’t Control Myself dos maravilhosos The Troogs: é um dos grandes momentos de Time’s Up, com Shelley a gritar-nos ao ouvido baba bababa baba baba e Devoto avisar-nos que não se consegue dominar, afogando-se em gemidos sob o feedback. Os Buzzcocks faziam a devida vénia ao rock inglês dos anos 60, mas transportavam a canção para o desespero da Inglaterra dos anos 70. O mundo era outro.

Spiral Scratch continua a brilhar, mas é o disco inédito que traz as maiores surpresas. I Love You, You Big Dummy assenta na repetição, deixando a nu o minimalismo dos acordes e os gritos de Devoto. Orgasm Addict, (afinal, uma continuação de I Can Control Myself) tema que Shelley reinterpretaria mais tarde, acena-nos com um dramatismo e uma ironia que se tornaria estranha à banda. E há, ainda, You tear me up, a antecipar o frémito  dos Husker Dü, dos Misfits ou dos Bad Brains, com Devoto, sempre ele, à beira do esgotamento: “You know you got such big eyes,  They make me feel so small, My heart is only one mouthful But you, you can have it all”. É a outra pérola deste disco.

Em termos líricos os Buzzcocks não se alterariam, mas as ambições artísticas de Devoto e a paixão dos Shelley, Steve Diggle e Steve Garvey encontram-se, nestes discos, reificadas com uma beleza irrefutável. Na Inglaterra, por esta altura, só os Wire lhes eram comparáveis e é fácil imaginar o rumo que podiam ter seguido ao ouvirmos Boredom: no solo extravagante que emerge a meio desta canção, ecoa uma ansiedade semelhante à que os PIL e os Pop Group viriam a subliminar nos seus melhores trabalhos. Mas os desejos ditaram outros caminhos. Devoto, desconfiado da tradição do rock, viria a conceber os Magazine, abandonando-se à liberdade e à experimentação do pós-punk. Os Buzzcocks, esses, construiriam uma obra feita de singles e grandes canções, oferecendo ao punk a alegria e a tristeza da pop. E, com esse gesto, firmavam uma ponte temporal entre as bandas da british invasion dos anos 60 e o indie-rock americano dos anos 80.

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