Bruno, guarda-redes condenado por matar ex-namorada, regressa ao futebol

O clube Boa Esporte perde patrocinadores e enfrenta contestação após contratar o antigo guarda-redes do Flamengo.

O jogador saiu em liberdade no dia 24 de Fevereiro
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O jogador saiu em liberdade no dia 24 de Fevereiro DR

Bruno Fernandes de Souza, o antigo guarda-redes do Flamengo condenado pelos crimes de sequestro, assassinato e ocultação de cadáver da ex-namorada, a modelo Eliza Samudio, assinou um contrato de dois anos com o clube da segunda divisão brasileira Boa Esporte, esta segunda-feira. A decisão está a gerar polémica e várias acções de repúdio foram convocadas por grupos de activistas. O clube também já perdeu alguns dos seus principais patrocinadores.

O jogador, mais conhecido por Bruno, foi condenado a 22 anos e 3 meses de prisão, mas saiu em liberdade provisória a 24 de Fevereiro, tendo cumprido um terço da pena. Na prisão, o atleta já tinha assinado com o Montes Claros, um clube do campeonato estadual de Minas Gerais, uma vez que se encontrava a cumprir pena em regime semi-aberto, mas não chegou a jogar.

Bruno conseguiu entretanto ser libertado, com recurso pendente, depois de os advogados terem apresentado um pedido de habeas corpus, uma vez que o sistema legal brasileiro, que consideraram ser lento, não conseguiu decidir sobre um recurso do jogador durante vários anos, conta o Jornal Globo. No entanto, se o recurso for negado, o atleta poderá voltar para a prisão antes de regressar aos campos.

Assim que o jogador foi libertado, a indignação fez-se sentir não só entre os membros da família de Eliza Samudio mas também entre activistas dos direitos das mulheres e junto de piratas informáticos que atacaram a página da equipa. O site ficou inactivo durante várias horas.

Nenhum dos envolvidos questiona os direitos legais de Bruno. A polémica com a sua libertação, dizem, vem da vontade do clube desvalorizar o crime que o jogador cometeu. Num evento no Facebook, que convoca uma vigília em frente ao estádio do Boa Esporte, lê-se: “Um feminicida não pode continuar a ter uma vida aclamada pelos media. Bruno deixou de ser apenas um guarda-redes, a sua imagem e a sua fama carregam a prontidão de se aliviar violência de género, a facilidade de esquecer a vida de uma mulher em detrimento do trabalho em um desporto reconhecido”.

Já o presidente do Boa Esporte, actual campeão da Série C do Campeonato Brasileiro, usou a mesma rede social para divulgar um comunicado sobre o assunto. Na nota, Rildo Moraes referiu que o jogador já pagou pelo crime que cometeu, e, fazendo várias referências biblícas, diz que “o criminoso colocado em liberdade” deve poder ter “meios de viver em sociedade, trabalhando e procurando dignidade em sua vida”. Vários adeptos do clube concordam com a visão transmitida pelo director.

Vários patrocinadores do clube já anunciaram o fim da parceria. Nutrends Nutrition, CardioCenter, Magsul, Kanxa (fornecedor de material desportivo) e Grupo Góis & Silva, principal patrocinador já anunciaram o final do acordo. Numa nota divulgada pela Folha de S. Paulo, o grupo Gois e Silva pediu a retirada das suas marcas das camisolas do clube, uma vez que o Boa Esporte não decidiu rever a sua posição de contratar o guarda-redes.

A morte de Eliza Samudio reveste-se de contornos particularmente chocantes. A mulher terá sido torturada, estrangulada e, depois de morta, alimentada a cães rottweiler por amigos de Bruno. A vítima tinha desaparecido depois de ter processado o ex-companheiro por questões relacionadas com a pensão de alimentos do filho de ambos, recorda o The Guardian.

“As mulheres estão ultrajadas, assim como o público em geral. É como se ele não tivesse tido uma punição”, escreveu a Djamila Ribeiro, filósofa política e activista feminista, no site do UOL, sobre o caso.

Esta polémica segue-se à marchas e protestos que assinalaram o Dia da Mulher, na semana passada. Um dos temas incontronáveis foi a violência contra a mulher e o feminicídio. Para assinalar a data, a equipa de futebol Cruzeiro usou camisolas que assinalavam alguns dados sobre a violência baseada no género. Por exemplo, o número 11, Alisson, usou uma camisola que dizia “uma violação a cada 11 minutos”.

Os dados divulgados pela Amnistia Internacional, no Brasil, dão conta de um aumento de 24% nos casos de violência contra meninas e mulheres com consequências letais, só na última década. “O Brasil é um dos piores países da América Latina para se ser menina – especialmente devido aos altos níveis de violência baseada no género e de gravidez na adolescência, assim como taxas baixas de educação secundária”, lê-se no relatório.