Entrevista

O ano em que o Bates Motel e Psycho se encontram

Freddie Highmore fala ao PÚBLICO do momento em que procurou mais o trabalho de Anthony Perkins e da entrada de Rihanna no universo de Hitchcock – uma série prequela que chega este ano ao fim.

Norman Bates, ou Freddie Highmore, pendura uma importante cortina de chuveiro
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Norman Bates, ou Freddie Highmore, pendura uma importante cortina de chuveiro DR

Foram cinco anos de prequela de Psycho. É a história de Norman Bates, o inconfundível gerente hoteleiro filmado por Alfred Hitchcock no filme que marcou os slasher movies, e da sua mãe, Norma, agora na pele de Vera Farmiga numa série para o canal A&E. Transmitida em Portugal no TVSéries, que na sexta-feira encetou a quinta e última temporada de Bates Motel, a série é protagonizada por Freddie Highmore. Esta temporada conta com a Mãe, mas também com Rihanna como Marion Crane, a hóspede com a experiência de duche mais traumática do cinema.

O actor, que entre 2013 e 2017 foi um Norman Bates em crescimento, falou com o PÚBLICO ao telefone num momento em que já terminaram as filmagens, mas em que a série está ainda no ar. Sem surpresa, chove em Londres e Highmore está nostálgico quanto ao fim desta fase da sua vida. Vimo-lo em À Procura da Terra do Nunca (2004) e noutras aventuras cinematográficas, tem 25 anos, mas a memória colectiva ainda o guarda como o rapazinho magro e doce de Charlie e a Fábrica de Chocolate (2005). Nos últimos anos é não só o jovem Norman Bates, personagem que foi interpretado por Anthony Perkins no filme de 1960, mas por vezes também a Mãe, a trágica figura que encarnou depois de morta.

Diz que nunca criou o seu Norman, versão actual e contemporânea, com intenção de imitar o de Perkins – mas era inevitável que se aproximassem. A produtora Kerry Ehrin fala em inspirações em Vertigo ou Quem Tem Medo de Virginia Woolf e disse à Variety que aqui se conta “o último capítulo da história de uma mãe e filho e uma história de isolamento”, mas admite que esta é a temporada em que vemos Bates Motel “colidir com Psycho”. Sublinha sobre os seis derradeiros episódios: “Não pusemos Bates Motel em Psycho, pusemos Psycho em Bates Motel.”

Esta é a temporada em que ganha ainda mais protagonismo — por vezes é, além de Norman, também Norma. Como é que isso afectou a forma como construiu uma personagem que sempre soube que chegaria aqui?
Esta temporada é um pouco uma reinvenção, principalmente porque a Mãe, Vera, já só existe na cabeça de Norman. No princípio da temporada é interessante ver estas duas vidas que Norman tenta ter, as duas realidades em que tenta viver — a realidade, de facto, em que é o charmoso dono de um hotel; e o lado mais obscuro da sua situação que é a sua vida em casa com a Mãe e a forma como se desenvolveu a sua relação nos últimos 18 meses [que separam a quarta temporada da actual]. Os problemas começam logo no início, quando esses dois mundos colidem e Norman não consegue separá-los.

E isso foi um desafio maior, por causa dessas camadas extras? Como se relaciona com o facto de estar a fazer uma prequela que culmina num filme em que a sua personagem é tudo o que sabíamos dela antes de Bates Motel?
Sim, e também porque Norman se está a tornar cada vez mais o Norman que esperamos encontrar no final da série — o Norman de Psycho. Nunca quis mimetizar exactamente o que Anthony Perkins fez, mas há momentos que são muito inspirados nele. Esta temporada fui procurá-lo mais, vemos Norman tornar-se essa pessoa… e talvez isso envolva alguma pressão.

Essa influência paira naturalmente sobre a série, mas distanciou-se dela desde o início ou foi omnipresente?
A única coisa que fazia era voltar a ver Psycho antes de cada temporada para me lembrar do sítio onde íamos acabar. Mas a forma como os argumentistas estabeleceram a história para este ano foi olhar para maneiras como o mundo de Psycho pode interagir com a história de Bates Motel que contamos há tanto tempo. Não se deve esperar uma réplica cena a cena do que existia antes; é mais ver, na perspectiva da série, como certos acontecimentos de Psycho podem influenciar o decorrer dos acontecimentos em Bates Motel.

Nesta temporada Rihanna é a actriz convidada que se torna Marion Crane, a vítima de Psycho – isso mudou alguma coisa nas filmagens?
Tanto Rihanna como os argumentistas foram muito inteligentes na forma como quiseram que Marion fosse uma personagem que representasse uma mulher hoje, reflectindo como os tempos mudaram desde a estreia de Psycho nos anos 1960. Foi maravilhoso trabalhar com Rihanna, ela trouxe muito para o papel e estava incrivelmente bem preparada — esse entusiasmo veio do facto de ser genuinamente fã da série.

Bates Motel também é o lugar onde começou a escrever guiões e onde realizou pela primeira vez. Porque é que sentiu necessidade de expandir a sua participação na série?
Já tinha escrito um episódio na quarta temporada e nesta isso foi uma continuação desse envolvimento na sala dos argumentistas. Foi o desejo de estar envolvido na série para além da pura actuação. Parecia-me estranho, depois de trabalhar tanto em quatro ou cinco meses na série, afastar-me dela uns meses e voltar outra vez. Queria estar lá e propor ideias. Realizar vem de um desejo semelhante de querer contribuir mais e foram muito generosos em confiar-me essa oportunidade. Foi o sítio perfeito para começar, porque conheço tão bem o tom da série, o elenco e a equipa são tão bons e estão lá para nos apanhar, se caírmos.

É muito conhecido pelos seus papéis enquanto criança no cinema e já trabalhou muito em televisão. E agora parece querer continuar a fazer séries, com uma sobre o ladrão de bancos Baby Face Nelson e a produtora de Bates Motel já na calha. Porque é que a televisão é hoje tão interessante para si?
Adorei estar envolvido no ambiente televisivo e continuar a trabalhar com Kerry Ehrin é um sonho tornado realidade. Estamos a tentar tornar em história o projecto sobre Baby Face Nelson e há ainda outra série a ser pensada, mas que acho que ainda não é oficial. Tem sido óptimo investir tanto em algo ao longo de cinco anos e isso tem um retorno maior. É possível desenvolver uma personagem com uma profundidade que nunca poderíamos esperar num filme.