Crítica Livros

Cáustica e satírica

Margaret Atwood escreveu uma distopia selvagem e quase desesperada sobre a actual realidade.

Margaret Atwood prossegue os brilhantes exercícios a que nos habituou em mundos distópicos
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Margaret Atwood prossegue os brilhantes exercícios a que nos habituou em mundos distópicos JIM ALLEN

Com o seu recente romance, O Coração É o Último a Morrer, a escritora canadiana Margaret Atwood (n. 1939) prossegue os brilhantes exercícios a que nos habituou em mundos distópicos, abrindo com bisturi bem afiado o neurótico corpo social contemporâneo e, de maneira sarcástica, revelando camada a camada de que material é feito: decepção, necessidades induzidas, ‘realidades’ mais ou menos ficcionadas, desejos recalcados por uma culpa sem sentido, linguagens corporativas que o marcam como tatuagens escarificadas. Desta vez parece inspirar-se na recente crise económica em que os desmandos do capitalismo financeiro enegreceram o presente e o futuro de muitos.

Charmaine e Stan são um casal de americanos da classe média: tinham uma casa e ambos trabalhavam, ela numa casa de repouso, e ele numa empresa que testava “modelos automatizados de atendimento ao cliente”. Mas de repente ficaram sem emprego com o grande colapso financeiro e a devastação empresarial que delapidaram aquela parte do país; o sector bancário saiu da região, a indústria também, “os génios digitais migraram para pastagens mais ricas”. E agora eles sentem-se perseguidos pelo azar, “como se o azar fosse um cão selvagem a mover-se furtivamente” atrás deles, farejando-os, à sua espera. Antes que os credores chegassem, passaram a viver a esmo no carro (o único bem que lhes sobrou, onde carregavam uns trastes); dormem em parques de estacionamento, e fazem alguns trabalhos menores (Charmaine trabalha umas horas num bar, onde a custo consegue fazer entrar Stan para que este se possa lavar) a troco de umas quantas moedas. Stan tinha vendido sangue duas vezes. Nas suas deambulações diárias, e por entre os tarados e rufias que assolam de noite os parques de estacionamento, vão avistando pequenos centros comerciais com a maioria das janelas tapadas com contraplacado, por casas de hamburguerias abandonadas, apenas as estações de serviço parecem estar a funcionar. Acostumam-se ao mau cheiro do carro, e também a terem fome. Mas têm-se um ao outro, uma ideia romântica que com dificuldade vão alimentando.

Aos poucos, e passada esta fase da narrativa, aquilo que parecia ser uma distopia clássica (as de Margaret Atwood dificilmente o são) envereda por caminhos de “aventura surrealista”, atravessada por tiradas satíricas, nuances de jogo político, sempre num registo subtilmente cáustico. As suas duas personagens, de repente são confrontadas com um anúncio televisivo sobre o Projecto Positrão, uma experiência sócio-económica baseada numa prisão pós-moderna privada e financiada: “Lembra-se de como era a sua vida antigamente? (…) Antes de o mundo seguro que conhecíamos ter sido abalado? No Projecto Positrão, na cidade de Consiliência, as coisas podem voltar a ser como eram. Oferecemos não apenas pleno emprego, mas também protecção contra os elementos perigosos que actualmente atormentam tanta gente. (…) Ajude a resolver os problemas da nação, o desemprego e a criminalidade, ao mesmo tempo que resolve os seus!”

Fora dos portões de Consiliência, a vida é um monte de sucata em deterioração. As pessoas acabam a morrer de fome ou assassinadas. Esgravatam à procura de comida, roubam, vasculham os contentores do lixo. No desespero da situação em que se encontram, Charmaine e Stain quase não hesitam em candidatar-se ao projecto; e são aceites. Na cidade de Consiliência é tudo tão bonito que “parece uma fotografia. Faz lembrar uma cidade de um filme antigo. Como outrora, antes de todos eles terem nascido”. A cidade foi construída tendo por base a estética dos anos 1950, a época em que a maioria das pessoas identifica mais com a ideia de “ser feliz”. Naquele prisão toda a gente é empregada: serve durante um mês como prisioneiro, e noutro mês como cuidador e guarda, trocando a casa por uma cela. A casa, nesse mês, é ocupada por um outro casal, mas ambos os casais nunca se encontram. Passado algum tempo, ambos começam a sentir-se sexualmente obcecados com os seus ‘suplentes’. A ‘culpa’ faz a sua aparição, sem ‘crimes’… Entretanto na prisão são produzidos em série bonecos sexuais… Naquele mundo confinado em que as pessoas foram roubadas à realidade por uma falsa moral e pela linguagem política corporativista, ninguém é o que parece, nada é o que parece. Com referências cáusticas à identidade social, à racionalização dos comportamentos de acordo com as necessidades sociais, Margaret Atwood escreveu uma distopia selvagem e quase desesperada sobre a actual realidade.