A marcha imparável das novas companhias do teatro português

O presente do teatro português já não dispensa Os Possessos, Teatro da Cidade, SillySeason, Mascarenhas-Martins e Os Pato Bravo: cinco companhias que fazem coincidir juventude, consistência, fé na criação colectiva e capacidade de fazer vingar a invenção sobre as dificuldades.

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Nas companhias emergentes, formadas por gente sub-30, há vontade inabalável de levar os projectos para palco, investindo do seu bolso, acumulando papéis de actores, dramaturgos, encenadores, figurinistas, cenógrafos, produtores e músicos, pouco interessados em abdicar da ideia de espectáculo apesar dos obstáculos no caminho Miguel Manso

Há um ano, João Pedro Mamede recebeu do município de Almada um Prémio Jovens Talentos na categoria de teatro. Na impossibilidade de estar presente, fez-se representar por Nuno Gonçalo Rodrigues e Catarina Rôlo Salgueiro, os dois outros fundadores do colectivo de teatro Os Possessos. Não desvalorizando a distinção, “como os prémios em geral não servem de muito”, comenta o actor, encenador e dramaturgo, “o Nuno e a Catarina fizeram um negócio quando foram recebê-lo”. Não se tratou tanto de um negócio quanto de uma provocação. Se a cidade onde João Pedro nasceu o celebrava como “jovem talento”, porque não ser consequente e proporcionar-lhe um palco para a próxima criação do colectivo? Marcha Invencível, quarta peça d’Os Possessos, estreia-se esta sexta-feira no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

A chegada ao palco da peça em que Os Possessos investiram os últimos 300 euros amealhados com as últimas apresentações de II – A Mentira, a partir de Ágota Kristóf, depois de terem falhado um apoio pontual da Direcção-Geral das Artes, resume aquilo que é comum a companhias emergentes no teatro português, formadas por gente sub-30: uma vontade inabalável de levar os projectos para palco, investindo do seu bolso (os 300 euros não chegam), acumulando os papéis de actores, dramaturgos, encenadores, figurinistas, cenógrafos, produtores, divulgadores e músicos, pouco interessados em abdicar da ideia de espectáculo apesar dos constantes obstáculos colocados no caminho. Marcha Invencível, texto de João Pedro Mamede a partir de leituras colectivas de literatura distópica, conta com uma equipa de 19 elementos, 11 dos quais actores. “Quanto mais pessoas estiverem nos ensaios, mais vitalidade o espectáculo terá e mais possibilidades surgem”, diz o autor e encenador ao Ípsilon. Não é teimosia, é procura dessa vitalidade.

Na próxima semana, também há dia de estreia para o Teatro da Cidade. Um ano depois de se terem apresentado com Os Justos, texto de Albert Camus, levado à cena no Teatro da Cornucópia, Bernardo Souto, Guilherme Gomes, João Reixa, Nídia Roque e Rita Cabaço lançam-se numa criação colectiva intitulada Topografia, reflexão filosófica sobre a ideia de comunidade composta por pequenas alegorias. Agradecidos à “liberdade e à autonomia” proporcionadas pelo espaço dos Primeiros Sintomas, de Bruno Bravo, encontraram ali um oásis depois de muitas respostas desanimadoras em que a percentagem de bilheteira cobrada pelas salas mais o valor de aluguer pareciam querer provar-lhes “a impossibilidade de fazer espectáculos em situações tão adversas”, diz Nídia Roque. “Torna-se impraticável quando já pagamos para trabalhar e ainda gastamos bastante para termos um espaço onde apresentar o nosso espectáculo.”

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Com Os Justos essa questão não chegou a pôr-se. O Teatro da Cornucópia, por onde os cinco actores passaram nos últimos anos, não só lhes cedeu o espaço de ensaios e a sala para o primeiro espectáculo como foi fundamental a apressar a definição de uma ideia de companhia que já andava no ar. “Da parte da Cornucópia houve sempre uma espécie de provocação para que começássemos a fazer isto”, reconhece Guilherme Gomes, o actor que Luis Miguel Cintra isolou para entregar o testemunho aquando do seu abandono dos palcos. “Deram-nos confiança e ao dizerem-nos para fazermos e isso funcionou como catalisador desta vontade.” A Cornucópia deu-lhes também uma disciplina de trabalho e âncoras comuns, um universo teatral com uma geografia partilhada. No Teatro da Cidade, acrescenta João Reixa, há também “o recuperar de uma nostalgia que se estava já a esquivar pela distância”. Ou seja, à medida que a Cornucópia caminhava para o seu fim, servia ainda de modelo de companhia para que estes actores começassem a carpinteirar a sua. E isso nota-se em coisas tão simples quanto pensarem como fazer antes sequer de ter uma sala ou trabalhar com uma maqueta para visualizar ideias e soluções.

Também Levi Martins, metade do duo fundador da companhia Mascarenhas-Martins, cita as companhias históricas do teatro independente como modelo inspirador para a aventura que iniciou com Maria Mascarenhas em finais de 2015. O motivo desse modelo é simples: “persistência e continuidade”. Daí que ao deixar a Companhia de Teatro de Almada, com dinheiro para três meses de subsistência da Companhia Mascarenhas-Martins, sediada no Montijo, Levi pense no exemplo de Cornucópia, Artistas Unidos, O Bando ou Teatro Aberto enquanto “grupo de pessoas que quis afirmar o teatro como actividade profissional regular”.

À mesa

Há um certo idealismo nesta ideia de compromisso com a longevidade e o trabalho colectivo que parecia estar a cair em desuso. Mesmo Teatro Praga, Mala Voadora ou Teatro do Eléctrico pareciam ser as excepções a um modo de trabalho que passou a privilegiar a criação projecto a projecto, apresentações fugazes e com um mínimo de recursos ou uma actividade mais errática e quase arbitrária dependente das oportunidades. “É muito interessante ter projectos pontuais”, concede Levi, “mas isso não oferece condições para que possamos desenvolver o nosso trabalho durante um período longo, porque isso faz com que se desenvolva uma linguagem comum que vai enriquecendo.”

O prazo de três meses passou a seis, foi-se esticando e, depois de duas peças estreadas no Cine-Teatro Joaquim de Almeida, onde esperam poder sedear-se, foram desafiados pelo teatro Aberto a encenar o texto vencedor do Grande Prémio do Teatro Português SPA 2016, Tentativas para Matar o Amor, de Marta Figueiredo. É por lá que estão neste momento, numa altura em que, explica Maria Mascarenhas, como não têm sede nem espaço de trabalho fixo, “a sede é a nossa casa e a divisão das grandes reuniões é a nossa cozinha – normalmente acontecem sempre à hora da refeição”.

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Rui Carlos Mateus

As mesas de jantar e as salas de estar uns dos outros são, aliás, um cenário comum às sessões de trabalho destas companhias. É por lá que os Os Possessos organizam uma espécie de clube de leitura em que se munem de material para as criações, que o Teatro da Cidade promove discussões que levam à aclaração dos temas que lhes interessa abordar ou que os SillySeason – tal como as duas companhias anteriores, formados por gente que se conheceu e aproximou na Escola Superior de Teatro e Cinema (ainda que metade se tivesse já encontrado no Balleteatro, no Porto) – partem pedra. “Continuamos na Rua das Gaivotas 6, onde está também o Cão Solteiro, que tem sido incrível e nos tem cedido esse espaço essencial”, diz João Leitão. “Uma companhia de teatro não pode fazer todo o trabalho em mesas de café ou nas salas de jantar das nossas casas, precisamos de um espaço onde possamos testar coisas. É essencial para que os projectos não fiquem apenas nas nossas cabeças.”

Prestes a estrear no Teatro da Trindade (a 22 de Abril) uma nova peça intitulada Rehab, os SillySeason têm tido uma actividade que se diria febril desde que se estrearam com um espectáculo homónimo em Outubro de 2012 na Rua das Gaivotas 6, espaço gerido pelo Teatro Praga. Da mesma forma que o Teatro da Cidade teve por parteira a Cornucópia e Os Possessos continuam a contar com o imprescindível apoio logístico e de produção dos Artistas Unidos, os SillySeason encontraram nos Praga uma ajuda crucial na obtenção das condições que lhes permitiram pensar além do primeiro espectáculo. “Não só em termos estéticos, mas também por haver uma partilha de espaço e relações humanas, Cão Solteiro e Teatro Praga são uma referência para nós”, confirma João Leitão, elemento que se juntou ao grupo com a preparação de Dark Tourism.

Desde a sua fundação, a actividade dos SillySeason tanto passou por ensaios nuns precários armazéns com falhas de electricidade quanto pela obtenção de dois apoios que ajudaram a perceber que a manutenção da actividade não tem de passar necessariamente pelo endividamento ou por investir todas as economias. Em T-Rex contaram com um apoio da Fundação Gulbenkian e na peça que antecedeu Rehab, Prado de Fundo, o primeiro apoio estatal por parte da DGArtes levou-os a perceber que, por muito que arranjem sempre “maneira de dar a volta” à falta de fundos, o tempo roubado à criação para investir na produção tornou real aquilo que é óbvio à partida: “Sentimos uma liberdade muito maior. É diferente pensar um espectáculo com 7500 euros do que apenas com investimento pessoal. É um motor criativo pensar as coisas e saber que as podemos levar até ao fim, ao invés de fazer o processo inverso que é não nos permitirmos ter ideias que sabemos não serem viáveis.”

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Alipio Padilha

O apoio da Gulbenkian também garantiu o tempo de trabalho suficiente para que Pedro Sousa Loureiro, fundador com Joana Cotrim d’Os Pato Bravo, afirme que Beautiful House, recentemente reposto nas caves do Liceu Camões, foi o primeiro momento em que as intenções da fundação da companhia – “o cruzamento da vertente plástica, o canto lírico, o teatro e as novas dramaturgias” se cumpriram em pleno. Tudo parecia, no entanto, mal encaminhado quando, depois de começar a trabalhar no espectáculo em Janeiro de 2016, a emigração lhe roubou uma das fundadoras e performer, e a agenda lhe sonegou outro colaborador. “Depois fiquei mesmo contente porque, pela primeira vez em cinco anos, não estava só a pôr dinheiro do meu bolso para trabalhar; fui para França, fazer uma residência numa aldeia no norte do país, e veio daí a ideia da contemplação.”

Para Beautiful House Pedro partira da obra da artista visual Martha Rosler e da sobreposição de discursos – a guerra do Vietname abraçada ao consumismo desenfreado, a futilidade num cenário de devastação, etc. –, tentando em paralelo tornar coabitáveis a contemplação e “todo o scroll e a catadupa de imagens” da vida contemporânea. A intromissão de excertos de canto lírico fornece a escapatória contemplativa num dispositivo que se repetiu por 20 vezes no Liceu Camões e em Santarém – poderá passar ainda pelo Porto ou pelo estrangeiro – mas em que a sucessão de registos e acontecimentos é potenciada e suscitada pelo próprio espaço (algo que implicou constantes pedidos ao director da escola em Lisboa).

Pedro gosta de criar para um espaço concreto, criando uma relação tão intensa com o lugar que tem a sensação de que, no fim, “alguma coisa se esgota”. Este modo de pensar as criações faz com que coincida com o Teatro da Cidade na dúvida de como apresentar projectos para concretização a um ou dois anos de distância quando não podem garantir que, nessa altura, os interesses de hoje se mantenham. O teatro que fazem assenta numa urgência que rima com impaciência. “Isso traduz a juventude do Teatro da Cidade”, aventa Rita Cabaço. E Guilherme Gomes completa diagnosticando “uma relação particular com o tempo”. “A nossa dificuldade é relacionarmo-nos com o facto de não poder ser agora. É juventude a borbulhar – quero falar sobre isto agora.”

O outro e a desilusão

Traço comum mas pouco rígido é o facto de qualquer uma destas cinco companhias querer dedicar-se, ocasional ou preferencialmente, a criações próprias. No caso menos óbvio, o Teatro da Cidade começou por estrear-se com Os Justos, de Camus, por sugestão do actor da Cornucópia Luís Lima Barreto. Mas a escolha do texto surgiu depois de meses em que se encontravam “para pensar, discutir, perceber” aquilo de que queriam falar, diz Rita Cabaço. Tal como acontece agora com Topografia, são as conversas entre os cinco que definem o que querem abordar em palco e só depois partem à procura do texto. Desta vez, como a busca não produziu resultados satisfatórios, não havia uma correspondência entre aquilo de que queriam falar e textos pré-existentes. “Então pensámos em pôr tudo de lado, começar do zero e fazer um espectáculo em que pode entrar tudo o que quisermos”, acrescenta a actriz.

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Ricardo J. Vaz

A peça que o Teatro da Cidade apresenta entre 15 e 31 de Março nos Primeiros Sintomas tem, assim, uma carga de “afirmação de grupo” enquanto criação colectiva. Quiseram perguntar-se “o que promove e faz uma comunidade, qual a razão para essa comunidade estar junta e o que acontece se essa razão desaparece”. A antologia dos quadros escritos e modificados por todos baseia-se na ideia de que a comunidade pode existir em três planos: “porque as pessoas querem estar juntas, porque estão juntas mesmo que não se relacionem, ou porque se relacionam mesmo que não queiram propriamente estar juntas.” Em todas as cenas, surge a figura do estrangeiro, alguém que chega a uma terra que não é a sua, que é ou não aceite e bem acolhido e que olha a comunidade de fora.

Esta identificação de inquietações em relação ao mundo faz parte de uma sintomatologia comum aos cinco grupos: discussão e clarificação daquilo em que se sentem pouco sintonizados com o exterior e o entendimento do teatro como enunciador dessas preocupações, pasto para uma investigação crítica da vida em sociedade. Em Marcha Invencível, que Os Possessos mostram em Almada entre 10 e 12 Março, e de 14 a 29 de Abril no Teatro da Politécnica, Lisboa, há também um estranho que é colocado no centro da acção. No princípio era a vontade de trabalhar sobre um universo de ficção científica, depois rapidamente evoluiu para se relacionar com as duas peças anteriores (Rapsódia Batman e II – A Mentira), ao fechar uma trilogia sobre a cidade que começou por centrar-se na corrupção e se desenvolveu com a guerra em pano de fundo. Agora, diz João Pedro Mamede, são os sonhos que ganham relevância, “é todo um espaço mental”, e segundo Nuno Gonçalo Rodrigues toda a acção decorre sob o mote da desilusão, com a peça a caminhar para um final que querem que seja decepcionante.

Levi Martins fala também de um “teatro da desilusão” que resume muito daquilo que a Companhia Mascarenhas-Martins pretende desenvolver em palco. “Desilusão”, concretiza, “enquanto retirada de camadas de ilusão ao real. Num mundo cheio de imagens e de pós-verdades e falsidades, é interessante trabalhar a partir da ideia de que a arte pode contribuir para nos confrontarmos connosco próprios e permitir reflectir com o espectador sobre o meio em que vivemos, sem ilusões, sem ser um incentivo à alienação ou uma distracção meio fútil.” Para essa definição foi importante o contacto com o público do Montijo, que apelidam de “no bullshit”, “porque não está para ser enganado, nem para propostas cheias de pompa. Ou é uma partilha honesta, ou não alinham.”

A cidade é também personagem e reservatório de solidão em Tentativas para Matar o Amor, na encenação de Mascarenhas-Martins. Uma solidão disfarçada na multidão, mascarada de proximidade nas redes sociais, aponta Maria Mascarenhas. No palco do Teatro Aberto, os actores surgem em carne e osso, mas também projectados em telas, numa relação entre teatro, cinema – e também música – reveladora de uma transdisciplinaridade habitual nestes colectivos.

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SillySeason

Também nas peças d’Os Possessos, que se iniciaram fascinados com os The Team – uma das primeiras ideias, em jeito de piada, era plagiar uma peça dos nova-iorquinos – e pelo seu trabalho de histórias interceptadas, multiplicidade de eventos e simultaneidade de cenas, a música tem sido uma presença constante. Da mesma maneira que Pedro Sousa Loureiro, depois de ter feito duas figurações no Teatro São Carlos, ficou de tal forma fascinado com o canto lírico que o elevou a peça necessária para a construção dos espectáculos d’Os Pato Bravo – Beautiful House contém tanto alusões a Schubert quanto uma banda sonora ao vivo arraçada de paisagens rock.

Ao articularem a formação em teatro e artes plásticas dos dois, algo que admiram também na Mala Voadora, na Companhia João Garcia Miguel e n’O Bando, Pedro e Joana Cotrim deram forma a uma linguagem que procura atingir “uma zona sublime que existe mais nas artes plásticas do que nas artes performativas”. Essa procura tem acontecido através de uma relação bastante livre com o reportório canónico, pegando nos Irmãos Karamazov (Mo Nu Mentos) ou Medeia (Of Of Medeia, primeira peça do colectivo, em 2014, em que se perguntavam o que aconteceria se Medeia não tivesse matado os filhos, se estivesse em Lisboa, se fosse comprar roupa, etc.) como material de desconstrução, mas sobretudo numa relação mediada pelos espaços de apresentação, tornando os espetáculos site specific e pensando como a arquitectura em que estão inseridos tem implicações criativas.

Também os SillySeason já passaram por Medeia durante a sua programação Palco Jurássico, no Clube Ferroviário de Lisboa. Essa série de colaborações laboratoriais levou-os a trabalhar com a cantora Mónica Sintra, partindo de uma análise das músicas da intérprete de Afinal havia outra, ordenadas no espectáculo para coincidir narrativamente com o clássico. É também um dos exemplos claros de uma linguagem que tanto convoca a cultura popular quanto a televisiva, com a mesma despreocupação hierárquica que vigora num colectivo em que todos apresentam ideias e um espectáculo pode surgir tanto do contacto com o conceito de turismo necrófilo e macabro explorado em Dark Tourism quanto a vontade de trabalhar a relação com o público que abastece Rehab.

Rehab, em cena no Teatro da Trindade, Lisboa, entre 20 de Abril e 7 de Maio, propõe-se reabilitar e repensar o papel do espectador numa sala de teatro. Mas se são os códigos do teatro que lhe estão na génese, a posição passiva e sem faculdade de resposta oferecida a quem assiste ou a plateia enquanto local privilegiado de onde se vê e não se é visto, os SillySeason querem sobretudo extrapolar esta situação para para as ruas, para as relações de poder e para a forma como se constrói a relação com o outro. Onde o espectáculo vai chegar, ainda não sabem. Saber antecipadamente é sempre a melhor maneira de nunca chegar a lado algum.