Coordenador da reforma hospitalar quer que médicos dêem número de telefone a doentes

"Não podemos continuar a olhar para os hospitais como se fossem catedrais", defende o coordenador do grupo que está a estudar a reforma dos hospitais, Fernando Regateiro.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

Seis meses depois de ter começado a liderar o grupo que está a estudar a reforma hospitalar em Portugal, Fernando Regateiro ainda não tem propostas concretas. O que a Coordenação para a Reforma dos Cuidados Hospitalares definiu, para já, foram prioridades. Uma passa por reorientar a procura dos serviços de urgência e outra centra-se no fomento da hospitalização domiciliária. “Já há mais de meia dúzia de hospitais interessados” em ter equipas para apoiar o internamento de doentes em casa, diz o médico que admite que existem redundâncias na rede hospitalar, mas rejeita encerramentos. Se alguns médicos ou enfermeiros disponibilizassem o número de telefone aos doentes crónicos para contacto em caso de necessidade, um grande número de urgências inapropriadas poderia ser evitada, acredita.

Já tem propostas concretas para a reforma hospitalar?

Estou há seis meses na coordenação, foi o tempo indispensável para conhecer melhor a realidade. Para começar, reforcei a equipa, que tem agora 12 membros, alguns oriundos de áreas do país que não estavam representadas. É uma equipa de médicos, enfermeiros, administradores e um sociólogo. Entretanto, e para dizer quem somos e identificar soluções localizadas, fizemos dez reuniões descentralizadas, com dirigentes de hospitais, de agrupamentos de centros de saúde, entidades locais.

O que é que resultou deste trabalho?

Permitiu identificar algumas soluções interessantes e alicerçar as prioridades a tratar, onde relevam o acesso às urgências, a articulação e integração de cuidados. Muitos problemas requerem apenas mudanças organizacionais e de posicionamento mental. Se um doente crónico for seguido por um médico hospitalar e, se tiver um contacto, telefona e diz: 'senhor doutor, estou a sentir-me pior'. Não deixa que o processo se arraste, se agrave e, eventualmente, exija uma ida à urgência ou um internamento. Já há respostas deste tipo.   

Está a falar da figura do tutor do doente? Mas esta ainda não existe.

Sim, o gestor de doente com doença crónica. Ainda não existe, mas é uma questão de organização. Outro paradigma inovador consiste em o médico de família ter o registo integral do trajecto de vida do utente inscrito no seu ficheiro, com toda a informação clínica, analítica e imagiológica e ser o “navegador” dos seus utentes no SNS.

As urgências são, como já tem sido dito, o 'cancro do SNS'?

Não lhe chamaria 'cancro'. É um problema muito sensível que remete para várias soluções, uma das quais passa por dotar os centros de saúde de alguns meios de diagnóstico como o RX, a electrocardiografia e análises por química seca. 

Vários grupos que estudaram a reorganização da rede hospitalar sugeriram concentrações e encerramentos no passado. Isso foi ponderado agora?

Para encerramos algo, temos que criar uma alternativa que responda à necessidade em causa. Temos que olhar para os hospitais por patamares de diferenciação. Um hospital pequeno não pode ser um hospital grande em miniatura. Um hospital de proximidade pode ter múltiplas respostas, consultas e cirurgia de ambulatório, mas não precisa de ter internamentos correspondentes a todas as áreas. Ao longo da rede hospitalar encontramos ofertas redundantes. Dou-lhe um exemplo de uma reorganização necessária da oferta hospitalar: a criação de centros integrados de diagnóstico e terapêutica dentro dos hospitais, que até podem prestar serviços para centros de saúde.

Mas para isso são precisas pessoas e, para isso, é preciso autonomia.

A autonomia vai ser fomentada. O cidadão comum tem um trajecto de vida que o médico de família acompanha mas que o leva de vez em quando ao hospital. A minha comissão não se pode preocupar só com estes “episódios”, mas deve agir para que sejam integrados no trajecto de vida do cidadão. O hospital é visto como um fim de linha, mas não é. A sua função é complementar e de plataforma tecnológica de elevada diferenciação e complexidade. Não podemos continuar a olhar para os hospitais como se fossem “catedrais”. A reforma hospitalar não se ganha dentro do hospital.

Voltando às urgências, como é que se resolve o problema? Em 2016 a procura aumentou, ao contrário do que tinha previsto o ministro.

Ainda temos procura exagerada da urgência, mas não tem crescido assim tanto como se diz.  Agora, quando 40% da procura, em média, é classificada pela triagem de Manchester como verde [pouco urgente] e somos quem tem das maiores taxas de procura na Europa por mil habitantes, aí temos um problema. Não se pode, porém, falar em “falsas” urgências, mas sim em procura inapropriada. Por isso, fizemos um inquérito aos directores clínicos e das urgências e abordámos a questão em trabalho de grupo nominal, para o qual convidámos nove peritos.

E então?

A ideia das equipas dedicadas [profissionais que apenas trabalham nos serviços de urgência] ou, no mínimo, de equipas mistas é uma constante. Um aspecto muito interessante, com votação de dois terços, é o que respeita à procura inapropriada, pela defesa que faz de que o utente não deve ser prejudicado.

Então como é que se pode reorientar a procura inadequada?

As campanhas só não chegam, é necessário demonstrar esta evidência com testemunhos credíveis.Temos que criar condições para que uma parcela grande dos “verdes” passe a sentir que a sua necessidade pode ser resolvida noutro local. Por exemplo, porque tem à mão o número de telefone do médico de família ou do médico hospitalar.

Os médicos não costumam dar o número de telefone aos doentes.

Pode ser o número do telefone do médico ou do enfermeiro de família, do gestor do doente crónico no hospital, ou pode dar-se um endereço de email.

O que é que está a ser feito em termos de hospitalização domiciliária?

A hospitalização domiciliária é um internamento domiciliário, mas tem que ter a concordância do doente e o enquadramento feito por uma equipa dedicada. Vamos agora lançar a constituição de equipas instaladoras. Há mais de uma dúzia de hospitais interessados em designar equipas. No dia 6 de Maio vai ocorrer uma formação promovida pelo Hospital de Garcia de Orta, com colaboração do de Guimarães, para as equipas conviverem com a experiência acumulada [destes dois projectos-piloto].