Editorial

Alguém pode olhar pelo Montepio, por favor?

Em 2015, o Banco de Portugal terá forçado a separação das águas. Forçou a mudança. Mas deixou tudo na mesma. Tomás Correia foi afastado da Caixa Económica. Mas ficou como presidente da Associação Mutualista, a dona da Caixa Económica.

Mais de 175 anos de história. Mais de 630 mil associados. Milhares de clientes. O Montepio Geral, quer a Associação Mutualista quer a Caixa Económica, tem um valor inestimável para Portugal, para os seus associados e clientes.

Nos últimos anos, a história da instituição tem sido abalada por notícias de fragilidade financeira, mas, acima de tudo, por escândalos que envolvem o presidente da Associação Mutualista, António Tomás Correia, que é visado em processos judiciais.

Ontem, uma notícia do Expresso veio abalar novamente a Caixa Económica (já lá vamos). Mas antes dessa já o PÚBLICO tinha dado conta de um processo em que Tomás Correia e a Caixa Económica são arguidos. E antes dessa, outra. E mais outra. E mais outra.

A Associação Mutualista Montepio Geral detém 100% da Caixa Económica. Quem é suposto supervisionar a Caixa Económica é o Banco de Portugal. Quem é suposto supervisionar a Associação Mutualista é o Governo, mais concretamente o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

Até 2015, Tomás Correia presidia à Associação Mutualista e à Caixa Económica. Até 2015 porque, nesse ano, o Banco de Portugal terá forçado a separação das águas. Forçou a mudança, mas deixou tudo na mesma. Tomás Correia foi afastado da Caixa Económica, mas ficou como presidente da Associação Mutualista, a dona da Caixa Económica.

Voltamos à notícia do Expresso. O semanário noticia que um relatório do Banco de Portugal de 2017, sobre o exercício de 2016, arrasa a Caixa Económica, agora sob a liderança de Félix Morgado: perfil de risco elevado, falta de garantias de gestão sólida; degradação da carteira de crédito. São só alguns dos reparos feitos pelo Banco de Portugal. Dias antes, em entrevista ao PÚBLICO, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, mostrava confiança na actual gestão da Caixa Económica. “Está a dar passos sérios no sentido de se transformar num pilar financeiro do terceiro sector.” Baralhado? Adiante.

Na entrevista, Carlos Costa não mostrava preocupação com a dona da Caixa Económica nem com o facto de produtos financeiros da Associação serem vendidos aos balcões do Montepio. Não cabe ao Banco de Portugal essa supervisão. E ao Governo? O Expresso conta que o ministro Vieira da Silva, que supervisiona a Associação Mutualista, não responde desde 17 de Fevereiro às perguntas do semanário sobre se estaria a acompanhar o caso dos processos judiciais de Tomás Correia.

A Associação Mutualista vende produtos muito parecidos com seguros. Podia ser supervisionada por quem supervisiona as seguradoras. E até se diz que há um diploma do anterior Governo que previa essa mudança. Nunca chegou a ser aprovado. Empurrou-se o problema para a frente. Nada de novo.

Alguém pode olhar pelo Montepio, por favor.